24th Nov2013

Diálogo – #2

by Pedro Henrique Gomes
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Todos esses dias em que sou estrangeiro (Eduardo Morotó, 2013)

Novamente serei breve nestas impressões sobre alguns filmes que, a este momento, durante o Diálogo de Cinema, posso destacar. Mais tarde poderemos pensá-los melhor em textos mais amplos. Fazendo notar que hoje, último dia de festival, será exibido o longa-metragem Os Dias Com Ele, de Maria Clara Escobar, às 18h, filme que chega elogiado e encerrará as exibições. Depois, a premiação.

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Câmara Escura (Marcelo Pedroso). Se por um lado não havia me empolgado nem um pouco com Em Trânsito, primeiro filme do Marcelo Pedroso exibido no festival, este me pareceu diferente. É um cineasta inquieto, e é nesse sentido que o Marcelo é um dos cineastas que mais incomoda as pessoas hoje, as que aparecem nos filmes e as que os assistem. Mais que um filme sobre “o processo”, trata-se do resultado de uma comunhão: aquela que é fruto da busca do diretor por complexificar as relações dos dispositivos com a própria criação enquanto articula um discurso estético, ético, político. Não parece um filme que pudesse ser realizado sem algo de um desejo por uma radicalização, coisa que Câmara Escura tem.

Os Filmes Estão Vivos (Fabiano de Souza e Milton do Prado). Fabiano e Milton conversam com Enéas de Souza (pai do primeiro), crítico de largas letras, em Paris, durante uma semana. Assunto: filmes. Lubitsch, Rossellini, Resnais e mais. A discussão sobre Holy Motors é a parte que mais gosto, justamente por achar a provocação do Enéas interessante (mal citando, até onde consigo lembrar, ele diz: “o cara pode ter feito um filme propositalmente horrível para criticar a imagem? Pode ser.”) embora discorde integralmente, pois vejo o filme antes girando em torno do espectador e sendo (bem) depois sobre o artista e objeto que é resultado da criação, do gesto etc. Eu até diria mais, Holy Motors é um filme sem imagem: é uma tela preta. Mas isso, já percebeu o leitor, é coisa qualquer que não Os Filmes Estão Vivos.

Todos esses dias em que sou estrangeiro (Eduardo Morotó). Fantasmática. Não é por acaso que a palavra urge agora como força de representação do imaginário cinefílico. Eu vejo um filme encardido, duro com os personagens, e justo por isso plenamente consciente de que essa crueza da imagem não é outra coisa senão sua carta de intencionalidades: da violência da imagem, de sua cólera e potencial sensibilidade. Morotó quer mesmo é operar uma tensão entre-corpos, entreatos, entre-sangue. Filme de ritmos fracionados, de tempos cortados, de dores flagrantes, de alegrias entupidas. Um filmaço.

A mulher do alto do morro (Cássio Pereira dos Santos). Cássio tem um instinto semelhante ao do caçador primitivo que, diante de sua caça, pode observar pacientemente por longas horas até o momento de golpear-lhe a carne. É um cineasta que encontra os corpos dos personagens, sai de um rosto e alcança outro com uma precisão absurda, não perde contato com aquilo que filma em momento algum. Quando o cineasta conhece os filmes, percebe o cinema e a amplitude do plano é perceptível que, quando fizer os seus, a câmera saberá para onde ir.

21st Nov2013

Diálogo – #1

by Pedro Henrique Gomes
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Fantasmas da Cidade (Daniel de Bem, 2013)

Não foi possível escrever antes sobre o início do Diálogo de Cinema, festival em primeira edição que acontece desde terça-feira cá em Porto Alegre. Para não ir muito longe: a cidade precisa dessa movimentação e a cinefilia, também ela, deve sair do quarto e dos fóruns virtuais de vez em quando. Há competitiva e outras mostras, muitos filmes e debates. Em Porto Alegre, 2013 foi (está sendo) um ano bom para quem gosta de filmes. Por força das circunstâncias, não fui à abertura, quando passou o longa Dromedário no Asfalto, do Gilson Vargas. Fui ontem, no início da exibição dos curtas. O festival segue até domingo.

Agora, os filmes. Dos dez que passaram ontem, destaco três, a partir da ordem em que foram exibidos. Infelizmente, ao contrário do que gostaria, não consigo escrever mais que breves linhas, tampouco sobre outros filmes que merecem atenção. Os dias estão um pouco perversos.

– O primeiro é o Fantasmas, do André Novais Oliveira. É a corporificação da máxima fulleriana no Demônio das Onze Horas de Godard: o cinema é um campo de batalha. O filme tem uma dinâmica interessante, é agressivo. Gosto disso. Enquanto dois amigos conversam, observamos o trecho de uma rua, um posto de esquina, as coisas fluindo. Tem um mistério ali. O interessante é que quando descobrimos o que motiva o rapaz a filmar aquela esquina e a esperar algo, o que importa é o que acontece no extracampo, isto é, do lado de cá da imagem. O que se revela é um detalhe. Em síntese, é um filme que justifica bem a essência da imagem (jogando sobre ela o olhar angustiado do espectador) e da fala (todo o texto é bem articulado, sem rodeios).

– O segundo, do Daniel de Bem, também fantasmas, mas Fantasmas da Cidade. Já tinha visto, mas o filme cresce na revisão. A concepção dos planos é o que mais me chama atenção. No debate, surgiram nomes sobre referências possíveis: Jim Jarmusch, Gus Van Sant, Hal Hartley, James Gray. O trabalho de relacionar os filmes, propor semelhanças e apontar diferenças é perigoso, pois podemos facilmente ir no contrapé de tudo o que foi pensado pelos realizadores e viciar a subjetividade. Nesse caso, a crítica é um campo minado. De qualquer maneira, pensando um pouco agora, se fosse entrar na brincadeira poderia dizer que o Daniel é um premingueriano, ainda que não saiba que o seja, o que é ainda melhor. Explico a provocação: no preto e branco, Preminger era um cineasta das sombras e dos contrastes, muito mais do que da luz e da evidência. Basta ver Bunny Lake Desapareceu, Passos na Noite e Êxtase de Amor. Acho que uma das virtudes do filme, em termos de imagem bruta, passa por aí.

– O terceiro é Pátio, do Aly Muritiba. No final se utiliza de um clímax um pouco apressado para “fechar” tudo o que se criou antes. Mas não deixa de ser um filme que exprime firmezas: de identidade, de percepção da imagem, de inscrição do discurso no espírito de uma fruição prazerosa de acompanhar. Aqui, o quadro cinematográfico é um espaço gigantesco que comporta transbordamentos, ações e narrativas variadas.

Agora chega que preciso voltar aos filmes.