30th Jun2011

O Céu Sobre os Ombros

by Pedro Henrique Gomes

Estas pedras no nosso caminho

O Céu sobre os Ombros, primeiro longa de Sérgio Borges, mete a mão num formigueiro, mas sai de lá apenas com algumas picadas. A narrativa vai se conjurando de maneira a funcionalizar e expor o procedimento ficcional, câmera quase sempre fixa, no tripé, narrativa estruturada com o intuito de servir à fluência das diversas histórias de vida (e da vida) que são filmadas. No entanto, há uma apropriação de personagens reais, juntando os pedaços de suas histórias numa fricção constante que resulta num método eficiente de narrar: a transexual que trabalha como puta (ela prefere ser chamada assim) e que, transversalmente, dá aulas sobre a psicossexualidade estudada por Freud; o monge Hare Krishna que divide suas atividades entre o futebol (pois é torcedor fanático do Atlético Mineiro) e o skate, além é claro de sua religiosidade; o escritor que perdeu a fé nas pessoas e que, por isso, não quer mais viver. Dessas três vidas tão distantes (literalmente, pois não há algo que interligue estas pessoas), desses corpos que só querem se identificar, extrai-se uma comunicabilidade possível: a busca pela significação própria.

As personagens também transitam por entre dificuldades de reconhecer a si próprias, e por isso não parece sensato que saiam por aí a espalhar a culpa de suas inefabilidades no colo dos outros. Essa convulsão das almas diz respeito a uma realidade muito peculiar a qualquer cidadão do mundo hoje, e o registro que o filme faz coopera com justeza irrefreável essa criação da sociedade contemporânea através de pessoas tão díspares. Tecnicamente, fotografia e montagem (aqui vale um destaque à parte) enriquecem o filme, conferindo poder ainda maior a relevância de seu discurso.

Sérgio Borges abre espaço para que essas três personas se construam ao natural, que extravasem seus anseios e seus desejos, seus medos e suas certezas, suas irreverências e suas crenças. Parte daí também outro princípio de semelhança entre eles, pois todos compartilham de uma inquietude peculiar, parecem mal resolvidos com o mundo (e o mundo também não se entende com eles), mal encaixados. A busca então não é puramente pela aceitação de um devir, mas pela liberdade de ser, de fazer parte, de compor um grupo. A conversa e o jogo estão imbuídos na encenação. Mesmo que as personagens sejam reais, vivendo suas atividades cotidianas, há o olhar do diretor ali, há o peso do olhar da arte agindo sobre eles, intervindo (inteligentemente o menos possível) no propósito de suas vidas. O que importa aqui, e é isso que deve ser discutido, é a história que nasce dessa relação, mesmo que o jogo tenha raízes na realidade ou não ficção, é a história da vida, inerente e indiferentemente à pressão externa forjada pela câmera, é quem deve prevalecer. Porque em O Céu sobre os Ombros os limites espaço-temporais entre ficção e realidade inexistem diante da complexidade da vida que se anuncia.

(O Céu sobre os Ombros, Brasil, 2010)
De Sérgio Borges

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *