23rd May2011

Thor

by Pedro Henrique Gomes

Ausência mitológica ou a mitologia vã

O longo prólogo que introduz o espectador a Asgard (o mundo bem longe da Terra no qual vive Thor) sintetiza a aventura de Thor. Objetivamente, se trata de uma aventura calcada no entretenimento. No processo industrial que move Hollywood, em essência, isso quer dizer que o diretor Kenneth Branagh possui liberdade para fruir o filme de acordo o gosto do freguês. Thor é parte de um universo em criação, portanto um filme essencialmente expositivo (gira em torno de explorar esses diversos personagens míticos do “Universo Marvel” de maneira a prepará-los para um filme definitivo: Os Vingadores), nunca conclusivo. Thor, o personagem, é o objeto dessa criação onde todos os demais funcionam roboticamente para legitimar esse nosso grande herói – um herói que já faz parte do imaginário coletivo há quase 50 anos. O processo de construção desse herói dos mundos pelas mãos do shakespeariano Kenneth Branagh (não a toa ele é quem dirige o filme: uma história familiar trágica, que converge amor e ódio, sensualidade e robustez, perspicácia e sobriedade) se passa sempre através do mesmo jogo de olhares, de movimentos, de palavras, de ângulos. De uma cena à outra, não há distinção possível dentro de uma lógica fílmica mais elaborada, já que vemos sempre os mesmos planos, as mesmas expressões atônitas. É difícil situar um lugar no cinema contemporâneo para Thor diferente do que ele mesmo cria para si: ele é uma barriga de aluguel.

Pois esse cinema de Thor, que Kenneth Branagh defende como se fosse a última potência de um pretenso cinema-pipoca (um termo resignatário, aliás, muito perigoso, pois nada significa; nada importa e, pior ainda, nada representa) só alcança o necessário para forjar uma força-efeito aqui e outra acolá – busca nessa ambiência (conectável e desconectável), de um mundo a outro, engendrar seus artifícios. Se algumas cenas funcionam (logo no início, quando Thor, desrespeitando seu pai, vai procurar conflitos contra os Gigantes de Gelo e algumas sequências das batalhas), outras simbolizam até certa primariedade (o desenvolvimento da paixão entre Thor e Jane é, para dizer o mínimo, tolo; e o próprio conflito que move a trama é até bem boçal). Thor (filme e personagem) arquiteta-se inteiramente para responder aos estímulos cartunescos e formais que permeiam sua história, desdobrando-se para sustentar uma mitologia potencialmente interessante, mas mal contada. Pois não se pode (ou melhor, não é aconselhável) contar uma história de homens com poderes (que não são necessariamente super-herois, pois o que lhes confere força e poder são objetos; a arte é da armadura, não do corpo), vestidos a caráter e, ao mesmo tempo, dialogar um filme com frases pensadas meramente para empregarem uma roupagem mítica e cabível à ação que se ambiciona apresentar.

O filme começa logo quando ele, Thor (na primeira oportunidade que tem, Branagh não hesita em filmar os músculos de Chris Hemsworth para reforçar a força do Homem-herói), iria se tornar o rei de Asgard, os Gigantes do Gelo quebram a trégua que, até então, mantinha a paz entre os grupos. Thor, nervosinho e embalado por uma fúria implacável de Nescau, resolve partir em busca de vingança, mesmo que isso contrarie as ordens expressas por seu pai, o poderoso Odin (Anthony Hopkins) – tido por ele como um velho conservador que está condenando Asgard a falência e a renúncia do poder outrora hegemônico. Após uma batalha feroz contra os Gigantes de Gelo, Thor, salvo por seu pai, consegue escapar. Mas Odin acaba o expulsando de Asgard e o mandando para a Terra. Entre os humanos, sem o martelo que lhe dá poder, acaba sendo atropelado logo ao descer a Terra, e é quando fica conhecendo a cientista Jane Foster (Natalie Portman). Na Terra, o Deus do Trovão logo vai aprendendo a lidar com as pessoas, a se relacionar com elas de maneira menos agressiva – logicamente em virtude da presença de Jane (que Branagh acredita ser a mulher mais linda do mundo, tamanha a quantidade de closes que lhe direciona, na maioria para enfatizar/elucidar o sorriso esplandecendo em sua face delicada; é um efeito interessante, mas exaustivo e só corresponde a uma lógica muito bárbara que age para desviar o olhar do espectador de suas fragilidades e direcioná-lo para suas belezas forçadas). Loki (Tom Hiddleston, incapaz de sustentar um ou outro traço da maldade que a personagem exigia, constroi mais um registro caricato daquilo que seria um moleque vítima de bullying), irmão de Thor, por sua vez, permanece em Asgard. Lá, ele age contra o irmão, tentando roubar-lhe o prestígio junto a Odin. A ação do filme é resolver esse imbróglio. Ele (o filme) funciona então apoiado numa perspectiva leviana, sempre forjada em virtude do lógico e do rarefeito.

(Thor, EUA, 2011) De Kenneth Branagh. Com Natalie Portman, Chris Hemsworth, Anthony Hopkins, Ray Stevenson, Kat Dennings, Stellan Skarsgård, Idris Elba, Tom Hiddleston, Rene Russo, Jaimie Alexander, Colm Feore, Clark Gregg, Tadanobu Asano, Jeremy Renner.

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