18th Dec2010

Vincere

by Pedro Henrique Gomes
Não é bem o ateísmo que dá pulsão as primeiras imagens de Vincere – é muito importante relacionar essa imagem ao restante do filme, pois é nela que se encontra grande parte do discurso não só do personagem que representa, mas do próprio filme como imagem única e absoluta de uma ideia. O que move a primeira sequência do mais recente filme de Marco Bellocchio é profusão da ideia, do argumento, da tese defendida até as últimas consequências e até que reste a última pétala a desabrochar. Benito Mussolini (Filippo Timi) pede um relógio emprestado a um companheiro de militância numa reunião. Dita a hora e diz que, se em 5 minutos Deus não lhe destruir, então é porque ele (Deus) não existe. O tempo passa e Benito continua ali. Então anuncia, para espanto dos presentes no recinto: “O tempo acabou. Deus não existe”. Está construída a alvorada do mito e, ao mesmo tempo, com a presença feminina de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno) a o observar impressionada, a epopeia do homem. Mas a desmesurada ascensão do Líder é também a fonte de esgotamento dele próprio. Seu percurso é uma linha mal traçada, cheia de talhos e maltrapilhos subordinados a sua indecorosidade.
Claramente Bellocchio estrutura seu filme nesses dois contextos: primeiro expõe os ideais revolucionários de Mussolini, dando suas motivações (sem previamente discuti-las ou julgá-las, escapando aí de soluções fáceis, tão caras a qualquer cinema sobre “Homens da História”). Logo depois passa a construir a imagem do mito, que de militante socialista passa a líder de toda a nação, dando início ao fascismo à beira da primeira grande guerra. No primeiro momento, Filippo Timi incorpora o personagem, que depois é tonificado somente através de imagens de arquivo do próprio Mussolini, e aí entra em cena o drama de Ida Dalser. Após se envolver com Duce, ter um filho com ele e se desfazer da totalidade de seus bens (materiais e espirituais, doando-se de corpo e alma aquele amor possível), Ida se vê abandonada, com a descrença de todos perante sua voz. Algum tempo após entrar para exército, o Duce, já casado com outra mulher (Rachele) e com vários filhos, regozija o poder enquanto conduz a Itália à Guerra, no discurso de negação ao estatismo, de que a paz só é possível se a guerra curar a humanidade antes. Ida é dada como louca quando tenta dizer que é casada com o Duce e que o primogênito é fruto do amor entre eles. Amor inconstante, impermeável, irresponsável, insolúvel; amor carnal, volúvel, auspicioso. Ida acaba no hospício.
Essa história ainda hoje não esclarecida é filtrada pelo olhar atento de Bellocchio, que a descreve em toda sua inflexão e que, como a história real, parece incapaz de assumir o estado de paz possível e necessário. Nesse sentido, diversas sequências existem para construir o mito e desmistificá-lo, sem compromissos maiores com sua imagem senão a do diálogo com a narrativa oposta, que prontamente trata de mostrar a agonia de Ida quando tenta suprir a ausência de seu filho enquanto engasga com sua verdade. É aquele grito sem palavras. Ida fala, mas não a escutam. Vejam só, ela diz, num hospício, ser mulher do Duce, que está casado e tem filhos. Sua voz é uma arma que volta contra ela mesma, e render-se admitindo que tudo aquilo que dissera fora uma falsa verdade não é uma possibilidade sequer cogitada – a cena em que um dos funcionários do hospício (que a princípio reconhece a verdade em Ida) tenta convencê-la a dizer que mentia é emblemática como enunciação de uma verdade que só pode ser libertadora ser for falsa. Bellocchio expõe esses fatos com a grandeza de quem aprendeu a lidar com aquilo que relata – a sua verdade é então apagar a farsa e dar lugar as tais histórias não contadas, que escapam a própria História. Vincere é também um filme sobre a impossibilidade de se fazer escutar quando os leões dominam os cordeiros.
O filme exprime a sofreguidão de Ida (no melhor desempenho de Giovanna Mezzogiorno no cinema) com toda força que a temática pede, se reduzindo ao relato para não definhar diante de sua própria complexidade – Bellocchio, mais do que nenhum outro cineasta italiano hoje, conhece os limites e os caminhos mais corretos para que metáforas não suplantem a solidificação dos fluidos do filme, que são o que lhe constroem e estruturam. Cercear um encontro com o Duce para então matá-lo é uma ideia ainda a ser amadurecida. Ida tem uma visão muito clara de sua própria verdade, mas aos olhos de outro parece que está a olhar contra o sol, e que, mesmo usando óculos de proteção, a visão continua turva, distópica. A câmera de Bellocchio é sempre presente ao esquadrinhar espaços transitando entre o movimento delicado e o plano improvável – “o plano é a imagem-movimento” (Deleuze). Olha-se para um objeto determinado pelas multifocais, mas atenta-se para o que urge em segundo plano. É partir dessa vontade de potência que o cinema de Marco Bellocchio mantém-se em dia com as barbaridades de seu tempo. Cinema de afirmação de coisas não ditas, de colocação e fixação destas em seus devidos lugares.

(Vincere, Itália, 2009) 
Direção de Marco Bellocchio
Com Filippo Timi, Giovanna Mezzogiorno, Michela Cescon, Corrado Invernizzi, Fausto Russo Alesi, Pier Giorgio Bellocchio, Paolo Pierobon

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