16th Dec2010

Minha Terra, África

by Pedro Henrique Gomes

Claire Denis tem uma visão muito clara de seu cinema: registrar a transformação de certos objetos (as pessoas) que compõem um lugar (o país). Ela, cineasta que conhece vários cinemas, não tem, portanto, receio de desbravar terrenos arenosos ou mares bravos. Minha Terra, África (título adaptado do original White Material) é um filme de elaboração simples, mas com condução narrativa complexa. Maria Vial, a personagem de Isabelle Huppert, é o núcleo que norteia a trama, que se desenvolve a partir de seus problemas cotidianos e seus sentimentos inquietos – passa a ser o olho do espectador no filme, com o passar do tempo. No desejo consciente de querer encontrar o seu lugar no mundo, Maria passará momentos pouco cordiais. Para ela, o lamento não é o protesto da revolta, e sim choro dos incompetentes.

A vastidão dos campos contrasta com a pequenez dos personagens que neles habitam, num espetáculo cru e violento onde não há bons ou maus (algo meio Coeztee), somente Humanos. Claire Denis mostra tudo que é essencial ao filme com uma câmera sempre discreta, marcando espaços esteticamente letárgicos, mas com habilidade rara de posicionamento de câmera e escolha de planos que jogam com os personagens. Nos cortes também há o movimento dos closes nos rostos dos negros africanos (sempre carrancudos) e dos brancos (expressão mais leve, numa clara ironia a falsa tranquilidade que parecem ter em suas vidas). As disputas pela hegemonia (sejam elas alavancadas pela cor ou grupo) configuram a extrema imoralidade de um pedaço de mundo aparentemente incapaz de se locomover por conta própria, de sair do canto para o centro. Maria Vial, a personagem vivida por Isabelle Huppert, é a personagem que vai buscar essa estabilização, a vida num país onde foi criada, mas ainda assim é vista como uma estranha.

A força do filme reside justamente aí, nesse caleidoscópio de transformações e tentativas de se adaptar, de pertencer a um grupo, numa busca indireta e incessante pela autoaceitação, antes mesmo da aceitação perante um grupo maior. Isabelle Huppert é muito importante nesse sentido, de dar ao filme a intensidade visual necessária para que as imagens mostradas na tela possam não só significar algo, mas pincelar um retrato mais profundo da vida da personagem. Sua relação com “o mundo” parece bastante amigável, já “o mundo” não lhe parece caloroso. Resta aí assegurar ideologicamente seu lugar enquanto ser humano. Vial observa (como um voyeur) a manutenção da propriedade das terras nas mãos de diversos homens enquanto tenta conquistar/manter seu próprio espaço de morada. É uma vivência complicada para todo francês na África. Mesmo com o governo francês tentando providenciar a retirada de qualquer estrangeiro daquelas terras, Maria recusa-se a ir embora, pois não quer deixar as plantações de café de sua família.

Outro dado que trabalha a favor do filme é o fato de que o início só é compreendido no final, o que, longe de ser uma criação de expectativas que tende ao embuste pelo comodismo pseudo, está posto de maneira a enriquecer a narrativa e a imagem dela aos olhos do público. E o espectador ganha com isso: a temporalidade dilata-se, os corpos se contraem para depois voltarem aos seus estados normais/naturais, abrindo um jogo de ida e volta, em busca de estabilização. Cada um quer o seu pedaço de terra e quem tem o seu não quer abrir mão. É uma luta constante pelo espaço-lugar (a câmera representa bem isso, com movimentos bastante elaborados ao “invadir” espaços cênicos), uma batalha civil pela posse.

(White Material, França, 2009) De Claire Denis. Com Isabelle Huppert, Christopher Lambert, Isaach De Bankolé, Nicolas Duvauchelle, William Nadylam, Adèle Ado, Ali Barkai, Michel Subor

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