14th Dec2010

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

by Pedro Henrique Gomes
Não é qualquer artista que constroi uma obra relevante, como segue fazendo Woody Allen, que em breve chegará a 50 filmes. Uma obra mais facilmente identificável pela predileção de temas (sexo, traição, morte, religião, família, hipocondria), de construção e delineamento de uma persona cinematográfica que está além da tela, do que por questões de estética – não que não haja preocupação visual em seus filmes, mas evidentemente o apreço maior de Allen está mesmo no texto, no rigor com que desenvolve suas sátiras (na maioria das vezes) pelos olhos do intelectual norte-americano. Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos mantém a escrita: jogo plano/contraplano abundante, diálogos ágeis, personagens que se chocam. Ainda renova um pouco o fôlego do cineasta: o humor não é tanto o objetivo, e sim a consequência do bizarro. Aqui saímos de Dostoievski e Buster Keaton e vamos a Shakespeare – não que o dramaturgo inglês estivesse ausente na obra passada Allen.
A enunciação altera o argumento-base: se nos últimos filmes de Allen (começando por Scoop – O Grande Furo, passando por O Sonho de Cassandra e Vicky Cristina Barcelona e terminando em Tudo Pode Dar Certo) a poesia dos diálogos tendia ao encantamento pela extravagância, aqui a relação das palavras encontra na simplicidade seu canto do cisne. Uma vez instaladas as “questões” do filme através da narração em off, o que o cineasta faz é problematizar as situações causadas por essa exposição de fatos. Reduz-se a magnitude do discurso (não em sua essência e potência, mas em sua leviandade) em prol da fácil assimilação, proporcionando o encontro factual entre o humor e a comédia dramática. Na prática, o humor sobressai nos personagens de Josh Brolin e Gemma Jones, enquanto Naomi Watts e Anthony Hopkins demonstram mais as amarguras da vida. Não que isso (essa aparente flexão de contrastes) neutralize o sentimento oposto em cada um, a dor parece proporcional a alegria para todos. São todos “vítimas das circunstâncias” num ambiente onde não há heróis ou algozes.
A busca pela realização, pela tão sonhada felicidade é um desejo compartilhado por todos, não um prazer individual almejado. Ao mesmo tempo, no entanto, cada um “sofre” com suas crenças: a mãe (Gemma Jones) só fala das previsões de uma cartomante; o genro (Josh Brolin) vem tentando publicar seu novo livro e ao mesmo tempo se encanta pela vizinha (Freida Pinto); a mulher (Naomi Watts) está em dúvidas sobre seu casamento enquanto demonstra interesse por seu empregador (Antonio Banderas); o senhor (Anthony Hopkins) em franco embate contra sua idade pede divórcio e acaba ficando com uma prostituta. Essas relações descritas pelo narrador funcionam até se encontrarem com os limites da própria obra: a tragédia shakespeariana situa-se marcando “os destinos”; destinos estes inexistentes perante a crítica (um pouco mal bolada) ao esoterismo. Não há poética barata, mas há um culto em torno do hermetismo que parece não encontrar um foco crítico satisfatório. Mas por mais que existam incompatibilidades num filme de Allen, surge a grandeza de sua obra passada e aí se compreende suas motivações – não que “Você Vai Conhecer…” seja um filme preso a filmografia anterior Woody, mas no sentido de que uma obra, uma vez instaurada sob seus vários olhares disposições críticas sobre o mundo, serve como argumento/tese para definirmos seu criador.
Nesse sentido, a estética do filme corresponde mais a um Match Point do que a qualquer uma das comédias recentes de Allen. Há claramente uma tentativa de reorganizar o quadro, alterar o movimento de câmera (um pouco de Desconstruindo Harry aqui também), burlar a presença do ator na imagem: ele não somente invade o quadro, mas a câmera faz o translado até lhe encontrar somente para depois recuar novamente. É uma construção importante de situações, pois dá o tom do filme: ir daqui para lá não necessariamente reduz a possibilidade do fracasso. Todos os personagens que tentam uma mudança radical de vida em Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, mesmo que não consigam lidar muito bem com as consequências acarretadas, sairão dela modificados. Mas o retorno é o destino mais provável – o negro alto é então a metáfora do desencanto.
(You Will Meet a Tall Dark Stranger, EUA, 2010) 
Direção de Woody Allen
Com Josh Brolin, Naomi Watts, Gemma Jones, Anthony Hopkins, Antonio Banderas, Freida Pinto

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