12th Dec2010

Tetro

by Pedro Henrique Gomes
 
Não custa muito ao espectador entender a proposta de Tetro, novo filme de Francis Ford Coppola, que volta aos cinemas brasileiros após muitos anos (seu filme anterior, Velha Juventude, ainda não estreou por aqui). Tetro se explica logo a partir de suas primeiras imagens: um jovem (parece um marinheiro, mas é garçom de um navio) caminha pelas ruas de Buenos Aires. Olha para as placas das ruas, para os números das casas. Está à procura de algo, de alguém. Logo encontra a casa de seu irmão. Lá, descobre que sua busca na verdade é pela significação de sua própria existência, de encontrar sentidos que lhe respondam seus questionamentos. Tetro é então um filme sobre o deslocamento, sobre sair de lá e vir para cá, na tentativa de levar “uma vida melhor”. Filme também sobre família (tema coppoliano por excelência), como não poderia deixar de ser. Coppola muda completamente o tom de sua obra passada (O Homem Que Fazia Chover, Jack), onde andou se perdendo (claro, devido a problemas financeiro-pessoais, em sua maior parte), e retoma com um filme potente, que valoriza a singeleza narrativa e dinamiza a construção genuína de uma história sobre “pessoas comuns”.
Sem a necessidade de satisfazer produtores (ele agora é seu próprio patrão), Coppola fez um filme pessoal (algo pelo que tanto lutou desde o início de sua carreira), sobre coisas que lhe são peculiares, metamorfoseando a dita estrutura de seu cinema (direção de arte pomposa, trilha sonora dissonante etc) em objetivos claramente funcionais do ponto de visto narrativo. Mas não sem referências (do melodrama de Douglas Sirk ao mais minimalista drama psicológico de Bergman), que vão desde sua própria obra (O Selvagem de Motocicleta é também sobre dois irmãos, um mais velho que o outro) até sua vida pessoal (seu pai era músico; tinha um irmão mais velho). Tetro é um filme sobre sua família; seu irmão e seu pai.
Bennie (Alden Ehreinreich) vai passar uns dias na casa de seu irmão Angelo (Vincent Gallo) por acaso: o navio onde trabalha teve problemas técnicos e está temporariamente trancado no porto de Buenos Aires. Assim, ele acaba procurando e encontrando o apartamento onde seu irmão mora com a namorada Miranda (Maribel Verdú), e lá fica por alguns dias. Seu irmão, que após deixar a família para um ano sabático não mais retornou; mudou até de nome, numa tentativa de esquecer (deixar para trás “aquilo que passou”) certas cicatrizes do passado. De Angelo passou a atender por Tetro, e com isso parece ter adquirido outra personalidade (ao menos na superfície daquilo que tenta transparecer), que o deixa, de certa forma, alheio ao mundo que vivera no passado em sua tentativa de “nascer de novo”. Coppola inteligentemente trata com suavidade destes dois níveis narrativos (Bennie e Tetro/Angelo), construindo ambos os personagens com mãos firmes e certeiras: não há descuidos para com nenhum deles, são sempre filmados através de planos elegantes (ainda que não sejam tão francamente excepcionais como os de sua fase áurea, há décadas atrás), além de terem seus contornos, seus desníveis, suas animosidades e suas aflições (que, todos juntos, os constroem e os humanizam) sempre enunciadas pela imagem.
A Verdú de tantos filmes interessantes (Zona do Crime, O Labirinto do Fauno, Os Girassóis Cegos, E Sua Mãe Também) aqui só confirma a poesia naturalista de seu olhar, de seu sorriso e de sua fala delicada. Assim como o mistério que cerca o personagem de Gallo, trata-se de um trabalho de interpretação de situações-limite tão profundas sobre os personagens que, invariavelmente, acabam revelando coisas sobre eles próprios – num mérito claramente atribuído a Coppola, já calejado depois de décadas dirigindo os mais variados “tipos”. E Tetro é mesmo um filme de muitos olhares, de muitas sensações, muitas percepções, pois seus personagens navegam entre a intensidade do momento e a frieza da agonia. Nesse sentido, Gallo é um destaque particular, por envolver seu Tetro com uma camada de insanidade; mas não só, também deixa transparecer a sensibilidade do homem atormentado pela memória de uma tragédia que lhe custa desaparecer. São essas as ambiguidades que enriquecem não só o personagem que dá nome ao filme, mas o próprio endereçamento da história – não há caminhos fáceis escolhidos por Coppola para “resolver” seus personagens.
Aqui também não há mais a excitação pela escolha do plano mais correto, do movimento mais arriscado ou do ângulo mais inusitado. A serviço de Coppola está toda uma trajetória de cinema que lhe permite soltar os recursos de cena (podemos incluir aí os próprios atores juntamente dos objetos de arte), construindo a mise-en-scène com a maior simplicidade possível (e necessária). E aí o filme torna-se grande, pois, uma vez conhecido o limite da obra, pode-se explorá-lo até o esgotamento. E Coppola faz isso ao abrir mão da fotografia em cores e partindo para um P&B que só obscurece ainda mais sua história de mistério – dando um momento e outro para cenas em cores, que são prontamente as memórias e delírios de Tetro, mas que sequer ocupam toda a imagem (na tela), sendo jogadas numa tela menor que coloca essas “coisas passadas” lá trás, num espaço reduzido da memória, junto daquilo que não mais pode ser revertido, tampouco subvertido. A antropologia filosófica de Tetro reside justamente aí: em verificar tudo que é essencial ao homem, e não especificamente suas características. Ou seja, o Homem, somente a partir dele próprio, pode alcançar a redenção pelo autoconhecimento. Não há meias palavras ou coisas não ditas em Tetro.
(Tetro, Argentina/Espanha/Itália, 2009) 
Direção de Francis Ford Coppola
Com Vincent Gallo, Alden Ehreinreich, Maribel Verdú

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