07th Dec2010

Abutres

by Pedro Henrique Gomes
 
Trapero é certamente um cineasta técnico, do movimento de câmera preciso, do plano-sequência, da câmera na mão. Dos principais realizadores argentinos contemporâneos (inclua Daniel Burman, Lucrécia Martel e Juan José Campanella, mas podendo expandir ainda mais incluindo Pablo Meza), destaca-se sua característica de “engenho da imagem”: poli-la e quebrá-la novamente, para depois despedaçar tudo e partir então para a remodelagem. Nesse sentido, é extremamente habilidoso, trabalhando as imagens para que elas se adequem aos “momentos” dos personagens, não o contrário – o que é sempre complicado. A mise-en-scène é sempre hipertrabalhada, disposta a sublinhar a ação presente, seja pela cirúrgica construção do plano ou pela própria dificuldade natural de se encontrar o enquadramento numa cena com movimento de câmera. Abutres, que não foge desse conceito de cinema que Trapero criou para si, trata então de revigorar algumas questões da obra (ainda jovem) do cineasta argentino.
A sequência de abertura do filme, ainda que compreensível apenas após alguns minutos, serve como aviso para o que se seguirá: a dor lancinante do golpe no corpo humano é proporcionalmente suportável frente ao lucro que dela provém. É assim que Sosa (Ricardo Darín) começa o filme: apanhando de capangas que lhe cobram dinheiro, mas sabendo que o “esforço” vale a pena. E é assim também, com a dor alheia, que Sosa compra seu pão. Advogado, Sosa vive cercando hospitais públicos de Buenos Aires em busca de vítimas de acidentes de trânsito, para pegar aí uma fatia do seguro, fazendo uns trambiques, “forçando” acidentes para ajudar amigos. Um dia, num acidente, ele conhece Luján (Martina Gusman), uma das enfermeiras de um dos hospitais que frequenta. Os dois se aproximam e, inevitavelmente, provam o sabor doce da paixão.
Abutres têm os ingredientes do cinema policial norte-americano clássico, mas não perde a verve européia do cinema de suspense, mas isso também não lhe deixa sem identidade: Trapero vai marcando o filme com cenas de rara beleza, tanto em virtude dos diálogos (muitos deles acometidos por uma simplicidade bastante bem-vinda) quanto no sentido de enriquecer seu filme com cenas de forte carga dramática – a linguagem de cena (espaço/tempo) ele domina plenamente. Presentes estão a melancolia e o sofrimento, como em toda obra de Trapero (mais acentuado em Leonera, seu filme anterior e talvez seu melhor). Tanto Sosa quanto Luján parecem não saber lidar muito bem com as situações-limite em que se veem. Neste caso, o jogo proposto pelo filme é justamente juntar estas partes soltas, estes pedaços de homens jogados as traças. O mundo é cão.
Abutres é preenchido pelo “vazio do mundo” (que é o vazio das pessoas) contemporâneo – a carência de ideias, a falta de tato, a imprecisão do Estado em relação à política de segurança pública, a violência (não só contra o corpo, mas contra a alma). É um discurso à prova da falência de seus conceitos – a situação social latino-americana ainda tardará a ser justa -, mas que se coloca sob um risco acentuado: ao abordar temáticas tão realistas, que conversam tão abertamente com o mundo fora da imagem e ao mesmo tempo colocar um joguete amoroso no meio, Trapero trafega entre linhas muito finas (sexualidade e crítica social), capazes de se romper facilmente. Não há atenção especial há nenhum dos fluxos narrativos, são ambos “temas” principais e ao mesmo tempo panos de fundo um para o outro. Acabam por se anularem, a certa altura, e o filme se vê preso a “maestria” técnica do diretor, e não mais mexe nas coisas. Num paradoxo sem igual, se vê imóvel tal qual o “sistema” que critica.
Mas Trapero logo recupera o ritmo do filme, de pulsar as coisas, de espiar pelo buraco da fechadura e tentar fazer algo a respeito do que vê. Neste sentido, mexer nas coisas é trabalhá-las até o esgotamento, até a borda. Trapero reconhece isso um pouco tarde demais, que é quando resolve encerrar seu filme. Mas com uma sequência que não deixa de ser uma das mais potentes do cinema no ano.

Postado originalmente no Cinefilia

(Carancho, Argentina, 2010) 
Direção de Pablo Trapero
Com Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias, Loren Acuña, Gabriel Almirón, José Manuel Espeche

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