04th Dec2010

Ondine

by Pedro Henrique Gomes
Ondine não demora muito a demonstrar sua queda a clichês clássicos, mesmo por que sua narrativa é talhada de fragmentos tão polidamente organizados que podemos enxergar o cerne (núcleo) do roteiro – mesmo sendo certo que, um filme, dentro da narrativa clássica, não almeja fugir do registro formulaico. As cenas não possuem um diálogo coerente entre si, estando demasiadamente montadas para servir a uma lógica de construção claramente errática, travada, pesada. O filme de Neil Jordan é duro feito concreto. Não se permite ir além da fantasia que ele mesmo cria para si, aprisionando o espectador em seu mundo de imaginação de mitos ou lendas tão desinteressantes quanto desinteressadas em, eles/elas próprios (os personagens), expandir sensações para além de seu universo unidimensional. Ondine é reto, não permite curvas. Portanto é incapaz de olhar para os lados com medo de ver que existem outros caminhos senão o do mais facilmente degustado.
O diretor (irlandês) Neil Jordan se apropria de um folclore escocês: uma selkie é uma criatura que vem do mar em forma de uma mulher – “aquela que vem com a maré”. A selkie atente pelo nome de Ondine (Alicja Bachleda), segundo confessa a própria ao pescador Syracuse (Colin Farrell), que foi quem a “pescou”. Ondine diz que não pode ser vista por ninguém, então Syracuse decide levá-la para a cabana de sua mãe, já falecida. A filha do pescador, Annie (Alison Barry), que sofre de insuficiência renal e necessita de uma cadeira de rodas para se locomover, acaba seguindo seu pai até a cabana e descobre que ele está abrigando uma mulher. Annie, na verdade, é quem alimenta a fantasia de que Ondine é uma selkie. O pai está convencido também, contagiado pela erudição folclorista da filha de 11 anos. A velha relação pai e filho (a) é essencial ao filme, pois é a partir dela que se sustenta o argumento que move a trama (a da tal selkie) – realidade aumentada pelo fato de Syracuse ter perdido a guarda da filha em razão de seus problemas com o álcool. Mas é também um problema: Annie e Syracuse são personagens de um só destino. Não há qualquer surpresa (não que um filme necessite de alguma para ser um bom filme) em suas trajetórias, qualquer desvio senão o da inanição tão conhecida pelo espectador de cinema. É interessante, no entanto, a opção tomada pelo diretor de colocar a selkie como um núcleo do filme que não é o principal, que na verdade é mais sobre a relação dessa família (nesse caso Ondine seria então um novo membro) do que na experiência puramente fantástica da presença de Ondine.
A fantasia é o motor do cinema de Jordan (Entrevista com o Vampiro, Não Somos Anjos, O Fantasma Excêntrico, e agora este Ondine). O tom fabuloso de alguns de seus filmes encanta não por se encontrarem em universos irreais simplesmente, mas por representarem, quase sempre em ritmos aparentemente dispersos para com a realidade, mas na verdade bastante atentos a subtextos. Em Ondine, a fantasia criada é parte da elaboração temática dessa realidade criada a partir de eventos de fora do filme: Colin Farrell e Bachleda conhecerem-se e casaram-se durante as filmagens do filme; Farrell teve problemas com o álcool, tal qual o personagem que representa. Para contrastar, os cenários são fotografados de maneira a ambientar a história num lugar fantástico: a imagem é estourada pelo verde que sobe nas montanhas e pelo azul que desliza pelo mar.
A confecção de imagens homogêneas depende da controlabilidade destas imagens e de sua autenticidade perante a fantasia criada – e Ondine não alcança um efeito interessante como, por exemplo, O Mistério da Ilha, de John Sayles, um filme que visivelmente serviu como referência a Jordan. O filme joga com a realidade e com a fantasia, mas na verdade (como o final demonstra) acredita somente numa delas. O importante é que o homem veja o que a câmera vê, mesmo que as imagens não sejam completamente sinceras. Neste caso, não basta saber ver, é necessário aprender a ler as imagens.

Postado originalmente no Cinefilia

(Ondine, Irlanda, 2010) 
De Neil Jordan
Com Colin Farrell, Alicja Bachleda, Alison Barry, Stephen Rea

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