02nd Dec2010

Os Outros Caras

by Pedro Henrique Gomes
Adam McKay é o diretor por trás de filmes como Ricky Bobby – A Toda Velocidade, O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy e Quase Irmãos (seu último filme). Em comum, os filmes de McKay, que é um comediante bastante conhecido nos EUA, além de serem comédias escrachadas (muito humor físico), têm o ator Will Ferrell. Não é diferente neste Os Outros Caras. E esse é justamente o problema. Uma vez que as cartas dadas são as mesmas e os joguetes propostos se repetem, a substância (a graça, o humor) que, em primeiro momento, serviria como fio condutor da narrativa (lhe conjugando alguma perspectiva de interesse), se perde num vazio de situações de pouco (quando não quase nenhum) sentido – não o sentido da lógica, pois McKay é um diretor assumidamente do ilógico, do fantástico, portanto do nonsense -, mas no sentido de que as imagens transmitam suas reais intenções de maneira verdadeiramente interessantes. Isso não acontece em Os Outros Caras, diferentemente de Quase Irmãos. Mas o humor, quando do improviso e do talento do comediante, funciona.
O elenco é rico: Michael Keaton, “The Rock”, Samuel L. Jackson, Will Ferrell, Steve Coogan, Mark Wahlberg, Eva Mendes e Ray Stevenson (Titus Pullo, da extinta série Roma); o filme não tanto. Mas há momentos que, justamente enriquecidos por talentos individuais, temperam o filme. E estes momentos são de êxtase total. Como na cena do jantar em que Terry conhece a mulher de Gamble, Sheila. Dali sai talvez os melhores momentos do filme, graças a um Mark Wahlberg em tom acertado e uma Eva Mendes brincando com caricaturas. Os Outros Caras é a aquela história de humor nonsense que sempre é base para muitos filmes com “dupla de policiais idiotas”, como Starsky & Hutch ou até mesmo uma leva de produções de ação com Ed Murphy – para ficarmos no moderno cinema. McKay pega tudo isso e cria uma estética (tanto visual quanto narrativa) bastante pessoal (que ele traz lá de sua stand up comedy). Às vezes as piadas são boas, outras não – no que vai depender do humor de cada espectador. Como na maioria dos filmes do gênero, as melhores piadas são justamente as mais tolas. A tolice é uma virtude do filme.
“Os outros caras” são Aleen Gamble (Will Ferrell) e Terry Hoitz (Mark Wahlberg). A dupla acaba “assumindo controle” de um caso que pode os levar ao estrelato, quando os grandões da polícia de Nova York Christopher Danson (Dwayne Johnson) e P.K. Highsmith (Samuel L. Jackson) saem de cena após uma investigação perigosa. Gamble (que orgulhosamente porta uma arma de madeira e não gosta do trabalho externo) é da área contábil e Hoitz é um detetive que fora rebaixado por má conduta. Os dois irão combater uma ameaça a segurança da cidade, inspirados pelo talento de Danson e Highsmith.
Em certos momentos, massageiam-se demasiadamente egos com referencias a clássicos cultuados ou cultura pop em geral (Stallone estampando o cartaz de Cobra é uma das mais nostálgicas, pois o filme brinca justamente com a futilidade de filmes policiais ditos “sérios”; suposta reportagem do TMZ; Punk’ed; Kim Kardasian; Arnold Schwarzenegger) – em tentativas claras de “pegar” o público específico e quem mais embarcar na brincadeira. Mas as melhores tiradas do filme não vêm daí. Elas são retalhos da comicidade própria de cada ator/personagem. Numa esfera indiscutivelmente fantástica, o cinema de Adam McKay segue produzindo filmes engajados numa só fonte de luz: o riso. Funcionando aqui e deixando a desejar ali, seus filmes acabam resultando (quando não meros produtos do escracho) divertidos, o que em Cinema é quase sempre insuficiente, mas na comédia pode bastar.
(The Other Guys, EUA, 2010) 
De Adam McKay
Com Michael Keaton, Dwayne Johnson, Samuel L. Jackson, Will Ferrell, Steve Coogan, Mark Wahlberg, Eva Mendes, Ray Stevenson

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