30th Nov2010

A Vida Durante a Guerra

by Pedro Henrique Gomes
A Vida Durante a Guerra é um pé torto. O cinismo tão característico de Todd Solondz agora ganha o mundo no pós-11 de setembro, no pós-Bush, em meio à crise financeira, ao primeiro negro presidente nos EUA, as políticas falhas das leis de Estado, a decadência da Grécia, também da Irlanda, da França, da Itália, em contraste com o arranque da China rumo à hegemonia econômica mundial (“no final, a China dominará o mundo e nada disso terá importância”). A politização vem então na forma de agressões a pensamentos elitizados na visão do suburbano norte-americano. A crítica aponta para questões ainda não bem resolvidas na sociedade fast food norte-americana: homossexualismo, tratamento a pedofilia, banalidade das relações, educação, (saber) perdoar. Todd Solondz, cineasta estranhíssimo por excelência, fez um filme sobre a incapacidade do ser humano de olhar para o lado, de entender seu semelhante, também sobre dar a volta por cima.  A ironia é então uma maneira de enxergar as coisas em meio a tanta ausência de lucidez.
Todd faz parte de um seleto time de realizadores norte-americanos que, desde seus primeiros filmes, já possuíam estéticas técnico-narrativas facilmente identificáveis, como Tarantino, os irmãos Coen e Jim Jarmusch. Assim como estes outros cineastas, seus filmes dialogam entre si – os personagens se repetem, muda-se alguma coisa ou outra etc. Filmes como Felicidade (do qual este A Vida Durante a Guerra é uma espécie de continuação/nova versão), Bem-Vindo à Casa das Bonecas e Histórias Proibidas confirmam essa tendência de seu cinema, de que o humor negro se faz nas profundezas do desequilíbrio humano proporcionado pelo caos social contemporâneo. E justamente o “contemporâneo” é que nos liga a seus filmes anteriores – o computador enorme do jovem de Bem-Vindo à Casa das Bonecas (1995) virou o Mac de hoje. O olhar de Solondz é sempre sobre o momento presente, mas consciente do passado. A classe média norte-americana é o alicerce do olhar crítico de Solondz, que se utiliza de toda a estranheza de seus personagens para também construir um universo ambíguo de pessoas que não são somente feias perante os outros, mas desinteressantes – o que é o verdadeiro problema.
Assim como em Felicidade, A Vida Durante a Guerra se passa através das histórias da família Jordan. A mãe, Trish (Allison Janney), está tentando se relacionar com Harvey Wiener (Michael Lerner), postulante a seu novo namorado. Enquanto isso tenta educar o filho mais novo Timmy (Dylan Riley Snyder), que está na fase dos porquês – mas talvez seja o personagem mais “normal” e consciente de seu lugar/espaço do filme. Joy (Shirley Henderson), irmã mais nova de Trish, resolve passar para uma visita. Enquanto o filho mais velho, Billy (Chris Marquette) está na faculdade, o pai Bill (Ciarán Hinds, o Júlio Cesar de Roma), recém-saído da prisão condenado por pedofilia, resolve lhe visitar. Esses dois membros “ausentes/distantes” da família, Joy e Bill, estão em deslocamento, ou melhor, estão em busca da realocação, de se assentar na tentativa de pertencer a um lugar novamente. Já Trish revela sua falta de tato ao lidar com o filho; numa cena esclarecedora ela conta a Timmy como se sente (“toda molhadinha”) somente com o leve toque de Harvey em seu cotovelo. Depois ela se da conta da bobagem que estava falando para seu filho mais novo. É a falta de lucidez, numa espécie de amadurecimento tardio, de que é quase sempre tarde demais para resolver as coisas na intensidade de seus acontecimentos, que permeia o filme.
Solondz entende que é necessário entender as coisas antes, para depois processá-las e expô-las, e não o contrário (Histórias Proibidas peca exatamente nessa questão). Billy só aparece no filme na segunda metade, com seu personagem já delineado, seja por palavras de Trish a Timmy ou pela câmera que esquadrinha os objetos de seu quarto e que acabam revelando muito sobre ele – quadros e pôsteres de Bob Dylan a Che Guevara. Isso é um dado interessante para o filme, pois ator que o interpreta, Chris Marquette, pouco oferece além de seu personagem pré-construído. Diferentemente do pai, Bill, que ganha os traços misteriosos de Ciarán Hinds, carregando toda a malícia na exposição do olhar. O angustiante processo de aceitação é o centro deliberado para a pulsão do rompimento com a moral estabelecida. Ética? Moral? Razão? Antropologia? Solondz prefere a lógica do absurdo (que acaba sendo a forma de representação mais lúcida para registrar o bizarro do humano) para elucidar a caricatura da criação de um filho na ausência do pai. São escolhas gradativas que vão se dando e transformado o filme para aquilo que ele é: um pedaço do mundo buscando seu lugar nele após uma grande ruptura.
As mazelas da sociedade, uma vez expostas, revelam muito mais do que a tão abarcada crítica social: é uma tentativa de encontrar o mundo (não somente observar sua transformação), tateá-lo, sentir seu coração bater enquanto isso ainda é possível, modificá-lo, caso necessário. A Vida Durante a Guerra é novamente Todd Solondz contra a magreza da lucidez do Homem.

(Life During Wartime, EUA, 2009) 
De Todd Solondz
Com Allison Janney, Dylan Riley Snyder, Chris Marquette, Ciarán Hinds, Michael Lerner

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