25th Nov2010

Fale Com Ela

by Pedro Henrique Gomes
 
Uma situação inicial, em princípio apenas corriqueira, constroi os laços sob os quais os personagens de Fale Com Ela transitarão. São envolvimentos sensíveis, mesmo táteis, mas ao mesmo tempo um tanto metafísicos, do extracampo, quase inumanos. Não há palavras, e sim o sentimento. A proposta é da imersão total na trama, que se dá mais nos estranhos movimentos dos personagens e menos na própria natureza deles; é um filme da ação e da consequência, da execução para o posterior castigo. Almodóvar não esconde as coisas, mas também não as libera assim tão facilmente. Exige atenção do espectador, pois vai soltando os mistérios pausadamente, mantendo um clima sirkiano do melodrama. Fale Com Ela, encontra e atinge seu lugar na filmografia de Almodóvar: não está tão “preso” à explosão das cores, do vermelho, da pulsão natural em seu cinema de artifícios estéticos (que existem, mas em menor grau). Dramaturgicamente, é um filme totalizante.
Marco (Darío Grandinetti) é um jornalista que está tentando entrevistar a toureira Lydia (Rosario Flores). Diversos acontecimentos os levam à intimidade, até que Lydia sofre um acidente de trabalho e acaba em coma. Benigno (Javier Cámara) é o enfermeiro que cuida de Alicia (Leonor Watling), uma bailarina em coma. Lydia acaba indo para o mesmo hospital de Alicia, e recebe também os cuidados de Benigno. Marco, que está sempre em visita, logo fica amigo de Benigno, que vive lhe dando conselhos para uma melhor “comunicação” com pacientes em coma. “Fale com ela”, ele diz a Marco, que parece não compreender a necessidade de conversar com uma pessoa em transe permanente. Não haverá resposta, nem entendimento aparente do outro lado; somente o silêncio é o acalento da dor. O sentimento amplificado é a matéria bruta dos sonhos. Fale Com Ela é a falência de qualquer conceito pré-estabelecido sobre a natureza do desejo carnal de que o ser humano é nutrido.
A potência de Fale Com Ela reside no fato de que, antes de qualquer banalidade sobre amor, o filme trabalha com a ideia do desejo, do delírio incontrolável (e da necessidade) de pertencer a alguém. Marco e Benigno, então, desejam suas amadas almas inconscientes para satisfazer um desejo próprio, não compartilhado com a companheira; gozo instantâneo e egoísta. Na sequencia de abertura Marco e Benigno assistem a um espetáculo de dança sentados lado a lado, ainda sem se conhecerem. Marco chora ao ver a encenação, pois lhe trás à tona um passado melancólico. As lágrimas fazem parte do processo de exorcismo: apagam-se as chamas e constroem-se as coisas novamente. O passado é algo a ser deixado lá mesmo, no tempo atrás. Benigno perdeu a mãe há um tempo, parece um pouco menos fragilizado (pelo menos na superfície) na “presença ausente” de Alicia, mas sua dor não é menor, apesar dele tentar esconder o jogo. Uma alma triste é uma alma explícita a olho nu. Nesse sentido, Benigno revela muito mais de seu drama interior pelo olhar, pela atitude, pelo gesto, pela insanidade com que se posiciona perante o mundo (as pessoas que o cercam), e até mesmo pela sua visão de mundo, em toda sua distopia.
Quanto vale o amor, esse desejo irreal (no sentido de não poder ser tocado, mas sentido) tão buscado? Dar forma a ele corresponde à embriaguez pelo prazer, o gozo extremo dos sentidos, que não está somente ligado ao sexo, ao toque, ao impulso carnal. Então “fale com ela” é uma frase emblemática; uma faca de dois gumes. A frase não somente coloca a ideia de que a palavra nem sempre é o combustível de uma relação, mas ao mesmo tempo é através dela que, tanto Benigno quanto Marco, buscam aproximarem-se de Alicia e Lydia. O contentamento com a presença física, mas não mental, não é suficiente, mas já é “algo”. Os pequenos prazeres, muitas vezes metalinguísticos, fazem com que Fale Com Ela explore as diversas aflições de Almodóvar: as personagens mulheres (mesmo reduzidas vegetais, são os objetos de desejo); os homens parecem efeminados (Benigno); as relações nunca são fáceis; a morte faz parte; o mundo é pequeno demais; a felicidade é relativa. Fale Com Ela não muda ideia de cinema que Almodóvar construiu para si. Continua insano, rebelde, mas desde Carne Trêmula, também mais maduro. Produz cenas duras (como a reunião no hospital que condena Benigno) e cenas de uma leveza absoluta (vide Caetano Veloso cantando Cucurrucucu Paloma).
(Hable Com Ella, Espanha, 2002)
De Pedro Almodóvar
Com Darío Grandinetti, Javier Cámara, Leonor Watling, Rosario Flores, Geraldine Chaplin

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