22nd Nov2010

Amor à Flor da Pele

by Pedro Henrique Gomes

Wong Kar-Wai é um cineasta que filma o deslocamento constante. Seus filmes versam sobre amores muitas vezes improváveis, incertos. A balança ora pende para um lado ora para outro, num vai e vem irregular, no sentido de não corresponder a lógica alguma de aceitação – como na vida. As coisas vão se dando de maneiras turvas, as pessoas vão se encontrando para depois se desencontrarem, vão se gostando para depois se desgostarem, se amando para depois se esquecerem. Esse é um dado de valor estético na obra do realizador, pois sintetiza qualquer conceito midiático sobre a construção de um cinema que valoriza o sentimento em toda sua complexidade – assim como nos filmes de Christopher Honoré, de Apichatpong Weerasethakul, de João Pedro Rodrigues ou de Daniel Burman. É um cinema que busca a aproximação com a tenuidade de qualquer relação, de qualquer troca de afeto, até mesmo dos atritos que faíscam destas conjunções que, antes de serem carnais, são humanas.
Chow e Su nutrem um amor impossível de ser consumado de fato pela moral e pela razão. Dois corpos mental e carnalmente atraídos, mas distantes pelo respeito ético para com seus cônjuges. Esse amor incompleto, sem o tato, sem o cheiro, sem o odor, é um amor dos sonhos, amor sem asas, imóvel. Su e Chow entendem isso com uma naturalidade até aprazível diante das consequências: o marido dela e a esposa dele estão sempre viajando a negócios. Apesar do álibi, mesmo que sempre sozinhos, com seus apartamentos vazios, suas camas pertencendo a um só corpo, eles não se permitem o encontro romântico, limitando a relação a encontros no restaurante ou mesmo nas ruas. Diferentemente do casal em conflito de Felizes Juntos, onde, mesmo também sendo aquele um amor complicado, aqui Chow e Su são casados, possuem suas responsabilidades em casa, ainda que passem mais tempo um com o outro do que com seus amantes. É menos simples romper a barreira do casamento fiel e correto, provocar a ruptura dos conceitos, a possibilidade de serem “felizes juntos” aqui depende de escolhas de vidas aparentemente já destinadas a uma só alma. A opção pelo incerto seria então o redesenho de uma nova vida.
Em 1962, o acaso acaba unindo Cho Mo-wan (Tony Leung) e Su Chan (Maggie Cheung). Ele, um jornalista, ela secretária. Ambos procuram apartamentos para alugar em Hong Kong. Acabam encontrando num mesmo prédio, onde se tornam vizinhos. Logicamente, se conhecem e se encontram diversas vezes pelos corredores. Acabam ficando amigos, talvez para suprir a carência de seus amantes, que estão sempre viajando, mas aos poucos iniciam uma paixão mútua. A partir daí, de um encontro numa viela ou no bar ou restaurante, o fogo da paixão vai se alimentando. Cho e Su são vítimas de suas próprias vidas. Como negar um amor tão pulsante, que parece tão intenso e sincero, em razão da fé no casamento? Para ambos, quebrar “a lei” é antes uma traição a si mesmo e depois o medo de ser infiel.
Kar Wai construiu para si uma imagem de cineasta que filma bem, escolhe o ângulo certo, o movimento mais apropriado, a mise em scène mais trabalhada. Amor à Flor da Pele vai além: o espectador é voyeur. A câmera se embrenha em qualquer canto, pela brecha da porta, da esquina de uma rua, atrás da cortina. Isso dá ao filme um aspecto um tanto ilegal, em virtude da imagem que não pode ser vista. Os corpos querem, mas não podem se tocar, num desejo inconsumível de paixão, que pode ser pela falta, pela ausência de seus cônjuges e a solidão que essa carência representa – Kar Wai brinca com isso. Mais do filmar a união de um casal, o cineasta chinês joga com a improbabilidade do amor entre este, mesclando situações que, aqui os unem, mas lá os afastam. Quando eles percebem ter tempo e coragem para infringir as regras do “sagrado matrimônio”, se dão conta de que já é tarde demais, o momento já passou, a audácia perdeu-se no vazio da dependência. Fica o doce sabor da lembrança de um momento de felicidade degustada.
(Fa yeung nin wa, China, 2000) 
De Wong Kar-Wai
Com Tony Leung, Maggie Cheung, Lai Chen, Rebecca Pan

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