19th Nov2010

Minhas Mães e Meu Pai

by Pedro Henrique Gomes
Nic (Annette Bening) é médica e Jules (Julianne Moore) é paisagista. As duas são casadas e têm dois filhos adolescentes, Laser (Josh Hutcherson) e Joni (Mia Wasikowska), ambos concebidos a partir de inseminação artificial com o sêmen de Paul (Mark Ruffalo), que tem um restaurante. Laser decide falar com a irmã para que esta peça a clínica médica que fez a inseminação que lhe informe o nome e telefone do homem que doou o sêmen. Os dois passam então a conhecer o “pai” que nunca tiveram, até que acabam convidando-o para jantar em sua casa, após confessarem a suas mães que haviam procurado Paul. A partir daí, a narrativa favorece a disfuncionalidade tão cara ao cinema hollywoodiano contemporâneo, apesar de bastante abordado: cenas de sexo (bem filmadas) existem para configurar juízos de valor e a inexistência de qualquer âmbito moral nos adultos do filme; os jovens são mais preparados que os adultos para o enfrentamento frente situações-limite; as palavras confundem-se no emaranhado de suas ambiguidades; os desejos carnais afloram em todos os corpos; conflitos internos são exacerbados.
Antes de assumir qualquer postura crítica sobre ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, Minhas Mães e Meu Pai esboça outra ideia: a de que os jovens de uma família, não importando sua constituição natural, são dependentes de sua própria criação. Então não é raro notar que a juventude respira e inspira transgressão e independência. Logo, também não é de se estranhar que “os jovens” do filme estejam buscando não a independência, mas um motivo para se constituírem “Homens” – e esse é um processo de conflito, portanto complicado. Se colocar face suas raízes biológicas seria então um passo para o primeiro embate mais acentuado. E o filme cria muito bem essa tensão da descoberta por Laser e Joni, com todos os verbos e provérbios pertinentes a essa aventura pessoal do autoconhecimento, mas aí o título nacional engana por sua boçalidade. Não é a visão dos filhos (explícita nos dizeres “minhas mães e meu pai”) que o filme mostra em primeira instância, e sim a das “mães”, tão clara no título original (The Kids Are All Right), mas que no abrasileiramento perde sua essência. Os filhos então são a consequência de suas escolhas.
A ampliação do olhar dos filhos sobre o estado das coisas, de como se deve acompanhar o movimento do mundo e as transformações cabíveis (e necessárias) é parte do argumento, mas não seu núcleo principal, e essa escolha de ponto de vista do filme acaba sendo crucial a ele: as mães são as verdadeiras forças difusas (e problemáticas) do filme, mas são filmadas isoladas, praticamente o filme inteiro se passa na casa do casal, quando não no jardim de Paul, em que Jules está trabalhando nas paisagens; uma solidão tão cara a um argumento “moderninho” – e também uma solução mais fácil na percepção do olhar de Cholodenko. Num mundo que se diz tão moderno, falta a transgressão da juventude de se chocar com as coisas, de enfrentar a vastidão dos “cenários” ditos normais na visão da sociedade. O constrangimento na difusão das ideias não é algo novo no cinema de Lisa Chodolenko. Desde Dinner Party e Laurel Canyon que presenciamos a ausência de tato da diretora na exposição do olhar. Minhas Mães e Meu Pai, no entanto, é um cinema mais controverso (o que é bom), que pega um tema familiar (a questão mais abordada em Cinema) e mistura com outro ainda “tabu”, e joga tudo no liquidificador para uma vitamina, mas de sabor comum.
Na representação deste tabu, cabe a Julianne Moore e Annette Bening a representação e a criação de personagens (e elas estão muito bem, assim como Mark Ruffalo, um ator que parece estar encontrando o tom mais apropriado para seus personagens, sempre contido, fala mansa, expressões marcantes) que assumam não somente para si, mas para o mundo, a quebra da mistificação de qualquer valor estético-social. Negros, brancos, latinos, gays, jovens e adultos são postos como iguais, num mundo onde aparência é apenas uma questão de ordem natural das coisas que não diferencia seres humanos da colocação e organização de classes.

(The Kids Are All Right, EUA, 2010)
De Lisa Chodolenko
Com Julianne Moore, Annette Bening, Josh Hutcherson, Mia Wasikowska, Mark Ruffalo

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