03rd Nov2010

Sentimento de Culpa

by Pedro Henrique Gomes
O que está em jogo são todos os valores ético-sociais cabíveis a qualquer pessoa. E é justamente o conturbado jogo de “causa e consequência” que será então retratado em Sentimento de Culpa. Esse “sentimento de culpa” é o mote do filme, pois é a partir dele que os personagens se moveram, batendo de cabeça uns nos outros, lutando contra adversidades nem sempre facilmente solucionáveis. Como Kate (Catherine Keener) que compra móveis antigos de pessoas que perderam um ente querido para vendê-los por um preço maior, o marido dela, Alex (Oliver Platt), que mantém um caso com a vizinha Mary (Amanda Peet), enquanto ambos tentam esconder, ele para mulher e a filha Abby (Sarah Steele) e ela para a irmã Rebecca (Hall), que trabalha num hospital e ainda precisa cuidar da avó, já que a irmã pouco se apresenta, ou a filha do casal, que como adolescente que é, “sofre” com as espinhas e falta de dinheiro – sua mãe diz não poder dar-lhe 20 dólares enquanto ainda há pessoas dormindo nas ruas -, pois quer comprar uma calça de 200 dólares.
Mas ela acaba sendo vítima de seu próprio “mal” quando compra uma mesa, a vende e depois, ao chegar à loja de um concorrente, vê a mesma mesa sendo vendida por um valor ainda mais alto daquilo que a vendeu – vendeu barato, achando que estaria cometendo um mal menor. Mas não existe um mal menor quando certo valores estão postos de maneira a fugir de uma responsabilidade pertencente a um fato determinado. A esta altura do filme, ela já estava corroída pelo sentimento de culpa, um pouco consciente, mas ainda errante em suas atitudes – pode ser que se “encontre”, pode ser que não. Aí o filme fica um pouco previsível, pois fica claro que ela vai acabar dando a calça para a filha e criando laços maiores com a vizinha do que os da boa vizinhança. Em outro momento, o filme erra e acerta numa mesma sequência. Quando o casal estava prestes a sair juntos para o supermercado e ele descobre que a vizinha vai a outro mercado, simplesmente lembra que tinha que fazer outra coisa e vai para o mesmo caminho que a vizinha. É uma tentativa bastante patética de criar o conflito. Aqui há o mal menor, nessa sequência fica claro para ela que o marido está lhe traindo (ele não vai saber que ela sabe), ela apenas vira para o lado, numa possibilidade de experimentar o gosto da traição consciente. A vida segue.
Kate parte em uma busca de olhos vendados pela sua redenção, para tentar encontrar um caminho, não um meio, de ser uma pessoa melhor, livre do peso da má consciência. Para isso tenta ajudar pessoas que necessitam, visitando lugares onde pode ser voluntária. Numa dessas visitas, uma cena resolve qualquer dúvida quanto a quem realmente precisa de ajuda – não é capaz de resolver os problemas dos outros quem não pode sequer com os seus próprios. Até mesmo no relacionamento com a filha, Kate não consegue manter o diálogo cordial, mesmo estando ela a negociar com uma jovem e seus problemas da fase. Já disse Ortega y Gasset que o jovem não precisa de razões para viver; precisa só de pretextos, e esse parece ser o pretexto de Abby, uma calça “de marca” e um rosto livre de espinhas. Outras ou quaisquer ambições não fazem parte do vocabulário da menina. É uma vida desgraçada, a dessa família!
Talvez os planos não sejam tão bem escolhidos, o ângulo pode estar meio “torto”, mas nada disso é conceitual para a diretora Nicole Holofcener (roteiro é dela também). A questão básica é a construção de laços bem estruturados dramaturgicamente. E mais uma vez o cenário independente norte-americano mostra porque é um cinema muito mais interessante (e interessado em novas propostas, novas abordagens/visões) que o mainstream. Não há qualquer desejo de ser maior do que sua essência em si, que é a de contar boas histórias. Livre dessa e/ou daquela amarra, o cinema então respira.

(Please Give, EUA, 2010)

De Nicole Holofcener

Com Rebecca Hall, Catherine Keener, Oliver Platt, Amanda Peet, Sarah Steele

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *