30th Oct2010

Dois Irmãos

by Pedro Henrique Gomes
É sempre interessante voltar o olhar para um cinema tantas vezes focado em histórias sobre pessoas comuns, tramas centradas em círculos familiares – muitas vezes peculiares a todo espectador. A composição desse olhar, dessa ideia, pelo menos no cinema de Daniel Burman, se faz com humor, que vai se construindo por meio das situações criadas, e não o contrário. Não há uma fé explicitamente cega na construção de personagens como é visto no cinema de um Campanella (mais precisamente em Conspiração Sedutora e Clube da Lua) – seu conterrâneo. Burman tem uma visão de cinema mais conflituosa, o que torna seus filmes tão ou mais interessantes que os de diversos cineastas argentinos (e aí podemos incluir Pablo Trapero e o próprio Campanella). Dois Irmãos só vem confirmar essa escrita e enriquecer ainda mais a carreira de Burman.
O filme é baseado no romance de Sergio Dubcovsky, e conta uma história dos dois irmãos do título: Susana (Graciela Borges) e Marcos (Antonio Gasalla). Ela é egocêntrica não se preocupa com praticamente nada que não lhe diga respeito. Até mesmo deixando sua mãe aos cuidados do irmão Marcos, este muito mais paciente e humilde. Marcos está solteiro e não vê muito futuro profissional para si.       Marcos acaba indo para o Uruguai ao ser expulso por Susana do apartamento onde vivia com a mãe, deixando Bueno Aires contra sua vontade e desejo. Já no Uruguai, Marcos passa a fazer parte de um grupo teatral, onde pode recuperar a alegria de viver. Susana, claro, ao saber do sucesso pessoal do irmão sente-se irritada e resolve incomodá-lo. E é justamente esse “conflito” que a câmera de Burman vai filmar – e situações estranhíssimas acontecerão. Susana e Marcos precisam aprender a conviver um com o outro, mesmo nesse tão diferente “mundo particular” de cada um. Um mundo de pessoas já rodadas naquilo que se convencionou chamar de “estrada da vida”.
Nesse sentido, o mérito é em grande parte direcionado à Burman. O diretor tem à sua frente dois leões do cinema e da televisão de seu país digladiando-se em cada plano, e a construção dos espaços cênicos (em grande parte em ambientes fechados, favorecendo a iluminação) por onde estes personagens tão distintos e distantes transitarão durante o filme. Além de grandes interpretes, Graciela e Antonio são extremamente experientes, a nenhum momento sabotando a atuação do outro, contendo um pouco aqui e exagerando um pouco lá. É tudo tão minucioso nessas construções de personagens que não há como estar ao lado de um nem de outro – mesmo que ela seja capaz de xingar o irmão com grandes grosserias e ele fica só pensando “coisas sujas” a respeito da irmã. A torcida é mesmo pelos dois, que nos são mostrados em tempos iguais. E observar o desenrolar daquelas vidas em plena redescoberta é algo extremamente interessante. Burman, mesmo que inconscientemente, acabou fazendo um filme sobre a aproximação, o afastamento e a reaproximação de duas histórias de vida dão díspares.
Burman pensa o plano, o compõe, lhe dá uma forma, mas não sem antes lhe dar uma ideia. A iluminação é o quanto antes discreta, não se faz para configurar uma estética, e sim um desejo profundo e sincero de não se perder em si mesma. Já estamos falando de um cineasta com domínio diferenciado também nas questões de dramaturgia, já que os dois personagens principais de Dois Irmãos são construídos de maneira não menos que elegante: todas as aflições e pequenos desejos destes podem vir de qualquer palavra ou de qualquer ação. Pode vir de um olhar, de um caminhar apressado e de um gesticular nervoso ou até mesmo de uma cara feia ao se abrir a porta da geladeira. São pequenos “momentos” que, não plenamente satisfeitos em apenas existir, dão vida aos personagens – criam suas “imagens” na tela. Feitas as devidas escolhas, um plano não nasce com propósitos de agregar, mas sim de revelar algo sobre alguém. A mise-en-scène (sempre limpa, até mesmo simples) de Burman é cada vez mais sofisticada, e assim o cinema segue existindo naturalmente.
(Dos Hermanos, Argentina, 2010) 
Direção de Daniel Burman
Com Graciela Borges, Antonio Gasalla

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