25th Oct2010

Tudo Sobre Minha Mãe

by Pedro Henrique Gomes
Tudo Sobre Minha Mãe é um filme que pertence ao universo pessoal e intransferível de Pedro Almodóvar: aquele do cineasta resistente, que assume personalidades múltiplas filmando aquilo que lhe interessa, não cedendo àquilo que é feito para massagear egos. Se existem referências, elas não são nada gratuitas. Não há esse desejo de louvar o cinema de outrora simplesmente para demonstrar uma cinefilia, uma erudição cinematográfica, tampouco uma disciplina intelectual – a questão é se encontrar, existir, ser, respirar para além da memória humana, viver. Isso tudo surge como referência a si próprio e a seu cinema (e sua vida), sem artificialismos. Almodóvar está mais centrado em equalizar um mundo a qual ele participou ativamente (a sala de cinema), compondo a partir dele (desse “mundo”) um painel de como os filmes influenciam na criação desses ambientes que são extremamente particulares ao diretor, mas que ecoam em qualquer cinéfilo. Vejamos a sequência de abertura do filme, que tem lá suas raízes em Opening Night, de Cassavetes, ou mesmo o diálogo que o filme faz com A Malvada (um dos personagens até reclama do título dado na Espanha para o filme, que não mantém o do original, All About Eve), de Mankiewicz, nos fazendo procurar lá para resolver as coisas aqui, numa viagem sensorial de um filme a outro, num desejo de representação e entendimento para com aquilo que pode ou não ser algo.
Talvez seja por isso que Tudo Sobre Minha Mãe carregue para si esse culto de ser o filme “mais maduro” de Almodóvar. A linguagem visual de Almodóvar é uma força que rompe as barreiras de qualquer beleza fácil das imagens que mostra, não podendo ser enquadrada sob um prisma onde a ebulição das cores nasce apenas para “estetizar”. Estamos falando de um filme em que a luz nunca quer ser objeto de atenção central, está como está apenas para realçar ainda mais aquele universo que Almodóvar tanto busca, onde a intensidade de todo colorido está em perfeita simbiose com as características de seus personagens – que estão a todo instante necessitando de conselhos, de auxílios, de uma amizade e de um amor. Em Tudo Sobre Minha Mãe, como na vida fora das telas, as pessoas precisam sentir as coisas e ver o movimento delas. Há uma necessidade constante (e até gritante) de resolver as coisas, de se libertar “daqui” para “lá”.
Madri. Manuela (Cecilia Roth, atriz de raro talento expressivo) é mãe de Esteban (Eloy Azorín), um jovem escritor. Certo dia, ao correr para tentar conseguir um autógrafo de Huma Rojo (Marisa Paredes), famosa e admirada atriz, Esteban sofre um acidente e acaba por falecer. Mesmo que tenha alcançado o veículo onde Huma estava, ela o ignorou. Algum tempo depois Manuela vai a Barcelona na tentativa de encontrar o pai de seu filho, agora um travesti chamado Lola (Toni Cantó), que sempre sonhou em ter um filho, mas que não sabe que o tinha. Em meio a isso, outros personagens surgirão, como a prostituta Agrado (Antonia San Juan) e a freira Rosa (Penélope Cruz). Como em todo bom filme de Almodóvar, o tempo é dilatado de maneira a proporcionar esses reencontros entre os personagens, que é o que irá movimentar a trama e dar um rumo a ela. Ou seja, a primeira vez que dois personagens se encontram funcionará de tal maneira que, na segunda oportunidade, tudo estará modificado em suas vidas e, portanto muitas coisas não serão mais tão facilmente resolvidas. 
É curioso notar também como Almodóvar subverte a sexualidade. Seus personagens transitam sem restrições entre os sexos: Lola é travesti, mas se relaciona com mulheres; Huma prefere mulheres, mas não desgosta dos homens; inclusive a freira Rosa, que, num exemplo dessa ousadia perversa de Almodóvar, adora fazer sexo. São detalhes que, em sua substância de representação dentro do filme, constroem o todo. Para Manuela, que vai topar com estes personagens várias vezes durante o filme, resta então dar seguimento a sua busca, no desejo intenso de dar continuidade a uma vida que parece morna, até morta. A libertação desse fantasma que atormenta Manuela pode dar vida à sua existência, não somente anestesiando sua dor, mas a curando. Essa problemática que Almodóvar dá a sua personagem se enquadra em sua trajetória até então, de que o passado, uma vez que suas cartas estão expostas ao jogo, refletirá no futuro.
(Todo Sobre Mi Madre, Espanha, 1999)
Direção de Pedro Almodóvar
Roteiro de Pedro Almodóvar
Com Cecilia Roth, Marisa Paredes, Antonia San Juan, Penélope Cruz

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