18th Oct2010

Carne Trêmula

by Pedro Henrique Gomes

A precisão ao filmar a tensão dos corpos é fruto de um desejo de forjar as próprias “questões” que influenciaram sua educação. Pedro Almodóvar foi criado em internatos em pleno franquismo, vendo no cinema seu verdadeiro lugar no mundo. Não poderia, no entanto, ser menos anarquista em sua própria obra – que viria a ser uma demonstração solene de sua própria existência. Um autor de sua própria antropologia, afinal. E se em todo filme existe um pouco de seu realizador, nos de Almodóvar isso é regra. Em Carne Trêmula, em seu universo ambivalente com personagens ambíguos, sobram referências (e/ou lembranças) de conflitos que valeram alguma coisa para o diretor e que, bem estruturados, compõe um filme que só confirma a virilidade de seu cinema.

Profundo conhecedor da mulher e seus dilemas existenciais (não é exagero lembrar-se do mesmo talento visceral que tinham Rohmer e Godard), o diretor externa esses conflitos em uma trama que não só é elegante por ser bem costurada, mas também por ter um argumento a serviço de uma construção de personagens que está além do maniqueísmo do cinema contemporâneo. Almodóvar, antes de tudo, ama as pessoas, as respeita, por isso a dramaturgia é sempre uma base sólida em seus filmes, que, para além do filme-pirotecnico (que costuma afogar-se em sua puerilidade), estudam estes personagens. Aqui não há misantropia. A história é contada através das ações tomadas pelos personagens que, na intensidade desses movimentos, mostram-se meros joguetes e passos em falso rumo ao cadafalso. São personagens marcados.

Ao desconstruir clichês estabelecidos pelos filmes formulaicos ou filmes de entretenimento, Almodóvar está satirizando certa forma-conceito, tornando risível o que para outros é um caminho simpatizante para o “mais facilmente degustado”. Carne Trêmula é assim, todo explícito, sem vergonha, desnudo, cru, despido de pudores banalizantes. É carnal. É tudo retrabalhado, tudo pastiche de uma memória conceitual (mas também gráfica) da cinefilia do autor. Se há um desejo de “ser” é mais por necessidade de “ser alguém” e menos por querer “ser algo”. A questão é se encontrar nesse caminho sem se expor demasiadamente – o que sempre foi “a” questão para Almodóvar. Aqui a excitação formal pelas possibilidades de experimentação, tanto estética quanto narrativamente, já não seduzia mais o diretor como no início da carreira (vide Labirinto de Paixões e Que Fiz Eu Para Merecer Isto?) agora é tudo parte da tese. Não sobraram artificialismos. Mas a linguagem visual forte continua externando sua potência, sua pulsação vigorosa na criação de atmosferas.

O filme começa quando Victor veio ao mundo de maneira inusitada: nasceu numa madrugada de janeiro, em Madri, 1970, dentro de um ônibus. 20 anos depois, trabalhando como entregador de pizzas acaba conhecendo uma mulher (Elena, interpretada por Francesca Neri, faz figura da femme fatale), por quem se apaixona num momento delicado. Após transar com ela num banheiro, no que seria a perda de sua inocência, Victor decide ir até o apartamento da amada, que o recebe pensando ser outra pessoa. Ela o ignora dizendo que de nada lembrava, pois estava doidona. Depois de um mal-entendido, houve-se um tiro, uma vizinha chama a polícia. Sancho (José Sancho) e David (Javier Bardem) chegam ao apartamento e veem Victor com uma arma apontada para Elena. Sancho está bêbado e ataca Victor, que acaba disparando contra David. David fica condenado à cadeira de rodas, mas com superação acaba se tornando um reconhecido jogador de basquete para deficientes e ainda fica com Elena, por quem se apaixona. Victor, após alguns anos preso, volta a procurar Elena, mas não encontrará facilidades em sua busca.

Num paradoxo que não é tão somente visual, Almodóvar brinca com seus personagens. Eles passam o filme inteiro jogando-se uns contra os outros, num fluxo qualificado de contrastes (são todos muito diferentes um do outro, mas tão próximos quanto ao desejo carnal). Os homens mentem, as mulheres dissimulam, como ele mesmo já disse. Em Carne Trêmula as coisas são escancaradas, não há extracampo. À projeção do olhar do público a algo nunca é vã, ou seja, se a câmera nos leva a um objeto específico, é mais porque precisa mostrar algo sobre alguém e menos para criar uma estética. O jogo então é descrever espaços para inserir a tensão psicológica necessária; não como doutrina filosófico-moral, mas como exposição de dados. Temos essa exposição explicitada em Victor, um personagem que parece crer numa vingança contra Elena como apaziguador de sua própria desgraça: a câmera mantém certo distanciamento deste personagem por um tempo (só vai voltar a se aproximar no final), como quem desaprova suas atitudes. Depois saberemos que a tão desejada vingança que o consome é mais um sentimento de mea culpa do que uma vontade de reaver o passado – é essa a busca pela paz interior de Victor. Por mais que Elena e David, Sancho e sua mulher tentem alterar suas vidas, elas nunca mais serão as mesmas. O destino de todos está então traçado.

(Carne Trémula, Espanha, 1997) 

Direção de Pedro Almodóvar
Roteiro de Pedro Almodóvar
Com Javier Bardem, Francesca Neri, Liberto Rabal, José Sancho

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *