22nd Sep2010

O Refúgio

by Pedro Henrique Gomes
A mais recente geração de cineastas franceses, que vê em Olivier Assayas, Christophe Honoré e François Ozon seus expoentes, tem mais coisas em comum do que simplesmente a nacionalidade e as influências guardadas na Nouvelle Vague de Truffaut, Godard e Chabrol. Cada qual a sua forma, todos acabam falando da morte. Sendo que Honoré fala mais sobre o processo da perda e da reação por ela causada. Ozon traça um caminho um pouco mais distante, estando mais interessado num registro de perspectivas de construção de uma “nova vida” possível. É exatamente sobre isso que O Refúgio versa: sobre a possibilidade de resgatar um desejo pela vida, não a reconstruindo, mas a iniciando a partir do zero. Pelo rumo que as coisas e as pessoas tomam, acaba sendo um filme também sobre a impossibilidade de amar sempre, a todo instante, qualquer semelhante. Apesar dessa ideia já ter sido estudada diversas vezes por Godard e Rohmer, podendo soar extemporânea, a “versão” de Ozon de um mesmo “subtema” tem lá sua diatribe, ou seja, seu valor para a época presente.

Um jovem anda pelas ruas de Paris até chegar ao seu destino: um apartamento onde se encontra um casal em plena crise de abstinência. Mousse (Isabelle Carré) e Louis (Pierre Louis-Calixte) estão espalhados pelo chão de um apartamento vazio, despido de móveis. O jovem recém chegado cumprimenta Louis, recebe os 400 euros, entrega 6 gramas de heroína e vai embora, mas não sem antes dizer que, se precisarem de mais, é só chamá-lo. Então o casal injeta a droga em suas veias e curte os momentos de regozijo por ela proporcionados. Na manhã seguinte, Louis acorda mais cedo que Mousse e, de café da manhã, toma heroína no pescoço. Passamos então para um sonho de Louis e depois voltamos para a “realidade” com sua mãe entrando no apartamento e vendo o filho estatelado no chão, rosto ao parquet da sala. Estava morto. Ironicamente, para Louis não haverá uma próxima vez. Já no hospital, Mousse recebe duas notícias que mudarão sua vida: o namorado não resistiu à overdose e ela está grávida.

Já no velório, a mãe de Louis, já sabendo da condição de Mousse, a aconselha a não manter o bebê. Depois daquele dia, Mousse se isola numa casa longe de Paris, onde pretende cuidar de sua gestação. Após alguns meses, o irmão de Louis, Paul (Louis-Ronan Choisy), aparece por lá para ficar um tempo. Primeiramente os dois agem com certo estranhamento na presença do outro, mas aos poucos se tornam amigos. Ela manteve o bebê mais por querer ter para si uma lembrança daquele que partiu e menos por alguma questão de afeto e desejo de ser mãe, enquanto parece viver em compasso de espera. Ele, que é homossexual, arruma um namorado, que é amigo de Mousse. E O Refúgio é todo assim: uma profusão constante de pulsação dramática. Essa pulsação atinge seu ápice na sequência final, onde Mousse entrega, através de um olhar, o que irá protagonizar nos próximos instantes – no que acaba sendo um dos momentos mais belos do filme, onde a imagem, apenas ela, diz tanta coisa, diferentemente do que é consenso entre os “escravos das palavras”. Aliás, esse é um dado importante a ser dito: o desfecho de O Refúgio pode ser facilmente antecipado pelo espectador. Não que esse conhecimento prévio possa prejudicar as imagens anteriores, afinal, um filme não se faz somente em seu fecho (isso seria reduzir as qualidades e méritos de uma obra de arte apenas pelo “gostei”, “não gostei”), mas da construção dramática a partir daquilo que foi apresentado até então.

Ozon fala de uma maternidade ingrata, quando a mulher que gesta não está muito contente com o embrião que carrega dentro de si e, num subtexto (numa espécie de narrativa polissêmica), sobre a constituição de uma família. Se o processo de gestação é complicado para ela, para ele também existe um desejo de ser parte de outras vidas, de construir ele mesmo o seu canto do cisne. Ozon, gay assumido, se coloca frente a essas questões na pele de Paul. Mas mais do que o registro de um realismo-naturalista (o que fica bem claro quando temos uma atriz que está realmente grávida interpretando uma personagem em iguais condições e um cantor tocando piano e cantando em cena), Ozon filtra uma visão especificamente adulta através de mãos jovens, com toda a intensidade e a prolificidade que lhes são pertinentes. Nesse sentido, estamos ante um filme muito mais interessado nas relações humanas frente a situações delicadas da vida e menos ligado a concessões de modismo ao filmarem o “movimento do mundo e das pessoas”, que no caso de muitos cineastas contemporâneos (Van Sant que o diga), revelam uma inocência torpe sobre o caos social de hoje.

(Le Refuge, França, 2009) 

Direção de François Ozon
Roteiro de François Ozon
Com Isabelle Carré, Louis-Ronan Choisy, Pierre Louis-Calixte, Melvil Poupaud

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