16th Sep2010

Baarìa – A Porta do Vento

by Pedro Henrique Gomes

É sempre difícil a busca pela autorrevelação, quando se cria, ainda na infância, uma paixão genuína pelos filmes, um fetiche pela película. Como o cinema, como matéria-prima criadora de sonhos, pode auxiliar nessa busca – ou pelo menos indicar os caminhos? Imagina-se que através da reflexão a partir do exercício físico de “fazer cinema” e do “pensar cinema”. Uma memória cinematográfica capaz de transformar toda uma História de Cinema em algo que possa ser convertido aos gostos dos mais variados públicos – mesmo que Tornatore diga que não faz filmes pensando em quem os vê, “se faço um filme e ele me satisfaz, ótimo. Se, além disso, agrada à audiência, melhor ainda” – não é uma tarefa simplória, pois o risco do patético pelo pastiche é imenso. Aí entra uma questão de ordem fundamental, de separar o joio do trigo, o decorador do verdadeiro engenheiro. Como filme concebido por um cinéfilo rigoroso, Giuseppe Tornatore, Baaria – A Porta do Vento está disposto desse rigor, desse virtuosismo bruto, desse desejo pelo cinema.

Menos ligado às concessões de modismo mostradas em A Desconhecida (seu filme anterior) Tornatore fez um filme que está mais interessado num contexto geral de época e na trajetória de uma família – com seus altos e baixos -, do que numa construção puramente “estética”. A luz da lógica, apesar disso, a fotografia é estourada, a trilha sonora é de Ennio Morricone (não cabe aqui ensaio sobre a trilha em si, haja visto que citar Morricone já é sinônimo de precisão musical e dramática)  os movimentos de câmera são clássicos (esqueça da câmera lá embaixo junto dos “conflitos”, tremendo e indo de um lado a outro). Tornatore filma o “caos” em plongée, de câmera estática, e o fantástico em contra-plongée – vide a cena de abertura, quando o menino alça voo, numa sequência que, por sua fantasia, já nos situa no ambiente do filme, que nada mais é do que um sonho. O menino Pietro que vai correndo buscar cigarros para ganhar 20 libras é o personagem-síntese (que não é o mesmo que protagonista) de Baaria: quando aparece em cena, no início e no final, está correndo. E assim são todos os personagens, sempre lutadores que combatem um adversário invencível: o tempo. Seja quando precisam puxar uma vaca pelas ruas para vender leite fresco ou mesmo para correr pelas ruas empoeiradas da Bagheria atrás de outro alguém.

A trama é sobre a família Terranueva, que terá meio século de sua trajetória dissecada atentamente. Acompanhando os caminhos trilhados por três gerações na Bagheria, uma cidadela da região da Sicília, localizada ao sul do país das pizzas e das massas. Gaetano Aronica faz o patriarca dessa família, interpretando Ciccio, que em plena ascensão do fascismo precisa cuidar e educar seus filhos, entre os quais Peppino (Francesco Scianna) se torna o grande líder-referência ao aderir à causa comunista – em meio a um conturbado e turbulento período de guerras comandadas pelo Duce. Pietro, neto de Ciccio (Marco Iermanò), é o reflexo dessa complicada vida em meio ao caos. Mas o jovem Pietro adquire, desde cedo, uma paixão pelo cinema que pode ser libertadora para ele próprio. Por meio destes personagens centrais, Tornatore insere, aqui e ali, sua cinefilia. Seja quando o pequeno Pietro, fascinado pelos negativos que acabara de encontrar (O Evangelho Segundo São Mateus, Cabíria, Três Homens em Conflito, etc) começa a ditar os nomes dos filmes que reconhece em cada quadro das películas ou quando Peppino, ao ver uma cena no cinema da cidade, resolve imitá-la na vida real, ou até mesmo em das cartas que manda a sua família, falando que havia visto um filme de Fellini nos cinemas de Roma. Autobiografia pura.

Peppino, em sua “carreira” militante pela causa comunista, acaba tendo que ir e vir diversas vezes, deixando mulher e filhos (e sogra) sozinhos na Bagheria. A mulher, que conheceu em um baile num tempo em que os homens não dançavam com as mulheres (tabu que ele quebrou a convidando para dançar e sendo seguido por toda a multidão presente, que, aos berros, diziam a ele: “obrigado por este gesto de liberdade e progresso”), se encantou por Peppino na hora. É em nome de um ideal, ele diz aos filhos, que crescem orgulhando-se do pai, mesmo em sua ausência. A maneira com que Tornatore trata essa complicada relação “bumerangue” é exemplar, pois o cineasta está falando de si próprio, de experiências familiares a ele, o que dá ao filme mecanismos que lhe sustentam, tanto estética quando dramaturgicamente. E se aqui existe um filme “estilizado”, está tudo a serviço de um contador de histórias habilidoso. 

Por essas que Baarìa é mesmo um filmaço. Por ser um filme tão bem estruturado (onde os personagens não são desculpas de roteirista para levar a história adiante, ao contrário, estão alicerçados numa teia bem amarrada de conflitos) desligando-se do formulismo norte-americano em que personagens parecem marionetes. A volta de um filme de Tornatore ao circuito mundial já era esperada há tempos (A Desconhecida é de 2006), e Baarìa não vem apenas para congestionar as pequenas salas que o irão exibir.


(Baarìa, Itália, 2009) 

Direção de Giuseppe Tornatore
Roteiro de Giuseppe Tornatore
Com Monica Bellucci, Raoul Bova, Michele Placido, Ángela Molina, Laura Chiatti, Enrico Lo Verso, Luigi Lo Cascio

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