14th Sep2010

Chop Shop

by Pedro Henrique Gomes
É impressionante como alguns cineastas conseguem reproduzir tantas coisas sobre o contemporâneo falando tão pouco. É um time restrito de realizadores capazes de tal feito, e aí podemos incluir Apichatpong Weerasethakul, Abbas Kiarostami, Cão Guimarães, Majid Majidi, entre outros. Para estes cineastas, a economia das palavras é o que dá força as expressões e aos joguetes visuais, que fazem parte de uma estética de aproximação – não-letárgica, como dizem muitos, mas sim de construção dramática e de responsabilidade para com os personagens-tema. Ramin Bahrani, norte-americano descendente de iranianos – não raro, a exemplo de Fatih Akin, só trocando Alemanha/ Turquia pelos Estados Unidos, seus filmes são essencialmente sobre imigrantes que vão para os EUA em busca de melhores condições -, é um dos “personagens” deste seleto grupo.

A câmera de Bahrani é fiel ao universo que filma, e essa característica de explorar visualmente as peculiaridades do “submundo” nova-iorquino já se tornou uma constante na obra do cineasta – vide Man Push Cart e Goodbye Solo. Ela se integra as ruas, as pessoas, sendo veemente ao registrar um mundo que está muito além “do outro lado da ponte”. Nesse sentido, a New York de Bahrani é diferente da de Woody Allen, pois Allen filma as pessoas antes das paisagens, já Bahrani busca o contraste indo pelo caminho inverso – e esse caminho não é menos inteligente, apenas necessita de outra aproximação para com seus objetos – aí o cinema de Bahrani está posicionado com proximidade maior ao de Scorsese (e atém mesmo de Copolla). Há um desejo pelo registro naturalista, materializado pelos longos takes das paisagens suburbanas de Manhattan, onde seus personagens transitam numa espécie de terra sem lei – ecos de Kiarostami.

Chop Shop é um filme que, adornado por um cenário de abandono (parece uma pequena cidade perdida dentro da grande megalópole), mostra uma história que pode acontecer em qualquer lugar do mundo. É sobre Alejandro, um jovem de 8 anos, órfão, que mora no Queens, que de adolescente ambicioso precisa passar por uma rápida metamorfose, pulando etapas de sua vida, em razão de uma rotina pesada de trabalho em uma loja de reparos – onde mora num quarto minúsculo com a irmã Isamar, que tem o dobro de sua idade e a metade de sua maturidade. É Alejandro quem trabalha para ajudar a irmã, não o contrário. Em meio a esse mundo conturbado, ele vai enfrentar as agruras da vida para buscar, para ele e para sua irmã, melhores condições de vida. A busca do jovem menino é, também, uma busca por um sonho, ainda que um sonho que talvez ele próprio desconheça. É disso também que Chop Shop fala: sobre uma busca constante por sonhos e realizações pessoais. E se existe um fio de esperança para Alejandro de que as coisas podem mudar, então ele fará o esforço. E como todo filme é o reflexo dos sentimentos e das aflições de quem o concebe, então é nisso que crê o próprio Bahrani.

Por ser um filme que se passa num ambiente parecido de seus outros filmes, Chop Shop deu a Bahrani uma fama ingrata no ambiente crítico mundial, como se ele fosse um cineasta puramente estético. Mas a coisa toda é maior que isso, que parece muito mais uma limitação de olhar, de percepção (ou até mesmo de entendimento) da obra do que uma questão falha de seus filmes. O cinema de Bahrani está mais condicionado a agradar dependendo do olho de quem o vê, não de uma suposta expectativa por um cinema-realista-naturalista – os personagens carregam os nomes reais dos atores. Se filmar paisagens e personagens com a mesma intensidade e intenção o torna um mal diretor, então está na hora de revermos a grafia cinematográfica no que se refere ao estudo e a caracterização de personagens-tema. Fiquemos então com uma citação de Proust que diz que a verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.

(Chop Shop, EUA, 2007)
Direção de Ramin Bahrani
Roteiro de Ramin Bahrani
Com Alejandro Polanco, Isamar Gonzales, Ahmad Razvi, Carlos Zapata, Rob Sowulski

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