09th Sep2010

Redacted

by Pedro Henrique Gomes
Não é estranho que Redacted seja um filme de Brian De Palma. A presença de heróis e anti-heróis é uma constante em seu cinema. Embora Redacted, se fosse para ser considerado um filme sobre algo ou alguém, seja um filme sobre anti-heróis mais do que sobre o heroísmo, é sobre nenhum destes. A coisa toda é muito mais ampla para De Palma – mais do que dizer que “você fez isso” e “você fez aquilo” -, é um não a rotulação. O que aconteceu no Iraque (em 2007) com aqueles soldados norte-americanos e os cidadãos nativos é olho de De Palma que irá filtrar. O estupro de uma adolescente por soldados americanos, seguido da morte de sua família é apenas um detalhe de uma guerra sem propósitos maiores senão o da grandeza pela dominação. Um tema que não é caro ao cineasta, a exemplo de Pecados de Guerra (que investigou um caso parecido, só que no Vietnã). E num contexto atual, onde Obama já anunciou a retirada das tropas do solo iraquiano, Redacted recupera sua veemência, seu engajamento (que é muito mais que meramente político): é uma visão de mundo sem a alienação de grande parte de seus colegas cineastas, sem a pretensão de ser algo maior do que si próprio, do que sua própria história e do tema abordado. Seu cinema, enfim, respira.

Nesse sentido, Redacted é mais feliz que um Fahrenheit 11/9, pois aquilo que mostra está mais afeiçoado a questões próprias de tema do que a opiniões do autor que as transmite. Pois um filme, sabemos, depois de lançado, pertence a seu público. Se no filme de Michael Moore a guerra era enquadrada pela câmera documental, aqui ela ganha os traços ficcionais através da “estética” documental, ainda que seja um tanto quanto retrógrado o uso de tais termos que separam o documentário da ficção, afinal ambos são, antes de tudo, filmes – representantes de uma ideia que querem significar algo. É um filme que acredita naquilo que mostra – suas imagens, portanto. Embora possa parecer meio “errado”, meio “torto”, em razão das técnicas de captação daquelas imagens serem “amadoras” pelos personagens, há toda uma história da técnica depalmiana. A trilha sonora cria um suspense marcante; o plano sequência e o travelling aparecem aqui e ali; o ângulo e o enquadramento são também posicionados com habilidade.

Mas ao ser impedido de utilizar as filmagens reais dos eventos mostrados no filme, De Palma parte então para a manipulação da imagem, que nada mais é do que o uso dessa imagem para fins narrativo-ficcionais. Essa encenação acaba sendo benéfica ao filme, pois cria para ele um sentido mais amplo do que pode (ou não) ter acontecido naqueles duros combates no Iraque. Até porque um filme não necessita de imagens reais para comprovar a veracidade daquilo que mostra, então, neste caso, a potência da ficção é tão “verdadeira” quanto possíveis imagens reais. A recriação dessas imagens, que fazem parte do “filme dentro do filme”, é, portanto, a seara mais tranquila para o enveredamento de Redacted num ambiente tão complicado de ser “criado” a partir do nada. São essas imagens, esses vídeos, que ora são gravados a partir de câmeras de segurança, ora são mostrados através do Youtube ou MSN, que criam um “clima” e que constituem a narrativa. Neste caso, a mão do diretor (do autor), respira livremente: se as imagens são fortes, não são utilizadas como artifícios chocantes, são fortes porque são responsáveis para com aquilo que pretendem mostrar e estão lá para estabelecer os níveis e desníveis da ignorância humana, da incapacidade de ser digno de algo, da onipotência, afinal.

Redacted mostra o dia-a-dia de um grupo de soldados norte-americanos, que lutam por uma guerra sem causa, uma batalha que não é deles e que, por isso, desconhecem. Eles vivem dizendo durante o filme que não sabem por que estão lá – “estou apenas cumprindo meu trabalho”, diz um deles. São mal treinados e mal orientados, agindo, muitas vezes, por impulso. Alguns acabam pensando que aquilo que fazem é melhor para aquele país, mas acabam sendo eles mesmos as maiores vítimas. A maior economia do mundo falhou em sua tentativa de “restabelecer a ordem” no Iraque desde a queda de Saddam Hussein, onde somente o que imperou foram atrocidades: abuso dos direitos humanos, crise humanitária, ameaça de guerra civil, mortes de milhares de inocentes. Os soldados que viveram a guerra, como o videomaker que gravou tudo aquilo ou o soldado que denunciou o estupro de seus colegas em interrogatório são reflexos de uma vida-limite, onde o certo e o errado se confundem. Imagina-se que seja tudo muito assimétrico, muito torpe. Então, qual é a função do diretor ao contar uma história? Tornar as imagens legíveis ao espectador, mostrando a relação do visto com o não-visto, do que está no quadro ou o que está no extracampo, para que tudo possa (mas não necessariamente) fazer sentido.

O traçado que o filme ganha é fruto de um cineasta comprometido com um cinema-objetivo, que busca representar ideias e ideais acima das questões de estética. Não há mais o desespero um pouco risível do início de carreira pelas homenagens à Hitchcock. O que há, agora, são estruturas sustentadas sob a mais sólida das rochas, onde não há desvios íngremes ou abismos. Há uma ideia que, no fluxo constante de suas imagens, mostra sua força e rigor – na forma e no conteúdo. Redacted é, a propósito, um filme que fala por si, afinal, não há temática mais universal para o ser humano senão o caos.


(Redacted, EUA, 2007)

Direção de Brian De Palma
Roteiro de Brian De Palma
Com Izzy Diaz, Daniel Stewart Sherman, Patrick Carroll, Mike Figueroa, Ty Jones

One Response to “Redacted”

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