07th Sep2010

Dzi Croquettes

by Pedro Henrique Gomes
Life is a cabaret! A frase dita por Lennie Dale a certa altura de Dzi Croquettes sistematiza toda uma visão de mundo presente no grupo de dançarinos que fizeram sucesso no período rancoroso da ditadura militar no Brasil. A máxima de “viver a vida intensamente a cada momento” servia como conceito básico aos integrantes da trupe, que via em Lennie Dale (coreógrafo e dançarino norte-americano radicado no Brasil) e Wagner Ribeiro seus expoentes libertários. Mais do que seres engajados a contracultura, “Les Dzi” eram o próprio reflexo de toda uma nação, que vivia presa num regime ditatorial. Apesar do imenso sucesso que fizeram nos anos 70, os Dzi foram “expurgados” da memória coletiva, o que, por sua vez, os tornaram estranhos as novas gerações. Pois essa história, que é uma história de profunda influência no cenário cultural brasileiro, precisava ser “relembrada”, e é isso que a câmera (e a memória de uma paixão) de Tatiana Issa resgata em Dzi Croquettes.

Dirigido por Issa (filha de Américo Issa, que fora cenógrafo do grupo) e Raphael Alvarez, o documentário faz um registro pungente sobre quem foram e o que fizeram os Dzi Croquettes através de mais de 40 depoimentos, imagens de arquivo e até imagens captadas por um Super-8. Com entrevistas de Pedro Cardoso, Nelson Motta (não poderia faltar já que falamos sobre um documentário sobre música popular brasileira), Marília Pêra, Geraldo Carneiro, Betty Faria, Jorge Fernando passando por Elke Maravilha e Liza Minelli (fã incondicional do grupo). As entrevistas são entrecortadas, vez e outra, por uma narrativa em primeira pessoa da própria Tatiana, que começa falando de seu pai e como, através dele, os Dzi entraram na sua vida. Durante o filme, aqui e ali Tatiana entra em off para organizar (situar o espectador) os depoimentos que, aliás, a levam de Paris a Nova York.

A trupe formada por Cláudio Tovar, Carlinhos Machado, Paulette, Wagner Ribeiro, Bayard Tonelli, Lennie Dale, Cláudio Gaya, Ciro Barcelos, Roberto Rodrigues, Bene, Eloy, Reginaldo e Rogerio de Poly, tem sua história contada através de depoimentos ricos e informativos, que ajudam a construir uma narrativa que se torna infalível pelo entusiasmo e “verdade” com que são apresentados. Parte deste entusiasmo e dessa verdade vem da relação já antiga da própria documentadora (Tatiana) com os documentados: a certa altura do filme, diversos entrevistados contam que conheciam Issa desde seus tempos de criança, quando andava para todos os lados com seu pai pelos bastidores dos espetáculos (“conheci você pequenininha, desse tamanho”, diziam Ney Matogrosso e outros). É essa aproximação entre quem pergunta e quem responde que faz transbordar um sentimento em candura de interesse pelo objeto documentado. Não é tanto pelas imagens do povo contra a polícia nas ruas ou pela breve introdução textual sobre os atos institucionais periódicos que tomam a tela no início do filme. A força de Dzi Croquettes reside na inocência dos relatos e, principalmente, na força deles e na dimensão que tomam em conjunto.

Essa dialética é um dado que trabalha a favor do filme, pois sem essa força, sem esse calor, sem essa excitação para com aquilo que é dito, não existiria um resgate saudável e tudo estaria à mercê do esquecimento, o que, em tempos duros como estes em que vivemos, onde a memória geral parece portar Alzheimer, seria um pecado. Para as gerações que não viveram aquela época e que, portanto, não conheceram os Dzi in real time, que apenas os conhecem por arquivos de estudo sobre o patrimônio cultural brasileiro ou pelo Youtube, qualquer documento que se ponha face as Croquettes necessita de um rigor imediato. Inclusive a geração de agora, onde mais do que nunca impera a tecnologia, a juventude parece cada vez mais acomodada e inflexível em relação a problematizar o estado das coisas. O que aquele bando de homens peludos travestidos fazia, muito antes dos inúmeros grupos LGBT que surgiram no pós-Dzi, era mostrar, através da arte, soluções, ou pelo menos caminhos para uma possível mudança.  Grosso modo, a influência que as Croquettes exerceram também sobre (Pedro Cardoso, Miguel Falabella e Jorge Fernando assumem) o cenário artístico brasileiro (musical, teatral e humorístico) jamais pode virar história apenas da memória e das notas de rodapé dos livros.

(Dzi Croquettes, Brasil, 2009) 
Direção de Tatiana Issa e Raphael Alvarez
Roteiro de Tatiana Issa
Com Marília Pêra, Geraldo Carneiro, Betty Faria, Jorge Fernando, Elke Maravilha, Claudio Tovar, Bayard Tonelli, Lennie Dale, Ciro Barcelos, Liza Minelli, Pedro Cardoso, Nelson Motta, Ney Matogrosso, Miguel Falabella

Postado originalmente no Cinefilia

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