05th Sep2010

Do Outro Lado

by Pedro Henrique Gomes
Fatih Akin alcançou o status de “autor” ao vencer o Urso de Ouro no Festival de Berlim, em 2004, por Contra a Parede. Naquele filme, com absoluta discrição na dramaturgia (mas aguçada habilidade ao construir laços afetivos), Akin nos contou a história de filhos de turcos que viviam na Alemanha – uma história muito peculiar ao próprio cineasta, que é alemão de ascendência turca. Em Do Outro Lado, que marca o retorno do cineasta a direção de longas de ficção – Akin havia realizado o documentário Atravessando a Ponte – Ao Som de Istambul -, o que vemos não é nem tanto o prazer muitas vezes metalinguístico incrementado pelo sentimento sucessivo de afeto familiar, mas sim o choque cultural que resulta das ideias e dos ideais de jovens alemães e turcos. Para este filme, Akin criou uma história verdadeiramente engenhosa, mas que, justamente por isso, acaba se esvaziando nela mesma – pois a inocência do filme (leia-se: dos personagens) acaba sendo fatal a ele próprio.

Nejat (Baki Davrak) é um alemão de origem turca que trabalha como professor em uma universidade. Nejat é um poço sem fundo de emoções. Ali, (Tuncel Kurtiz), pai de Nejat, ao conhecer a prostituta Ayten (Nurgul Yesilkay) acaba se apaixonando e convidando-a a morar com ele. Ayten, por sua vez, parece usar Ali para ganhar dinheiro que ajude sua filha Yeter, que participa de manifestações ativistas em Istambul. Lá Yeter conhece Lotte (Patrycia Ziolkowska) e sua mãe Susanne (Hanna Schygulla), que acabam lhe dando suporte. Quando Ayten morre, Nejat vai Istambul procurar pela filha dela, Yeter, que, a esta altura, já está apaixonada por Lotte. Yeter acaba envolvendo Lotte em suas atividades políticas por uma Istambul caótica. Enquanto as duas enfrentam dificuldades em suas trajetórias, Nejat procura Yeter pela cidade e cuida de uma livraria.

A trama é mesmo assim, confusa, mas ao escrever um roteiro dessa envergadura, com tantas curvas, com tantos desníveis, Akin se coloca face outro drama: como construir uma trama que sirva como embasamento político e que registre o caos da globalização e ao mesmo tempo conseguir injetar tensão no espectador? O diretor alemão crê nas amarras de uma história com vários personagens, que se interligam e se chocam, batendo uns contra os outros, num ritmo um tanto quanto canalha de casualidades. Mas nem sempre se pode ser feliz assim. Por mais urgente que possa ser a temática apresentada, as “questões” estão sempre colocadas acima dos personagens, o que, via de regra, termina por inseminá-los dentro da trama feito marionetes – e os personagens tomam atitudes de uma inocência assustadora em tempos tão duros torpes como estes. Se Do Outro Lado é um filme sobre os dramas de cada um, suas ações e reações, então ele precisaria de maior vigor/rigor dramatúrgico. Se não for sobre isso, ainda assim lhe faltaria o que sobra a um 21 Gramas, a um Magnólia ou a um Boogie Nights: mais estrutura e menos esquematismo raso.

Até tecnicamente o filme de Akin parece “torto”. As cenas feitas para gerar tensão não criam o efeito desejado, ao contrário disso, incomodam. Do Outro Lado parece um filme demasiado seguro de si próprio que acaba no comodismo. É tudo sintomático demais e elaborado de menos. Um travelling aqui e um plongée ali não fazem boas imagens, somente aumentam a expectativa que pode ou ser satisfeita, ou apontar para o vazio. Apesar de Akin demonstrar a mesma habilidade na construção da “teia de personagens” (cada um está ligado ao outro), seu filme carece de ritmo e fruição.

Do Outro Lado até tem uma ideia, mas essa não tem forma nem conteúdo, pois faltam mecanismos que possam lhe libertar da inanição. Akin parte então para uma busca pelo inatingível, mas o faz através de uma fé explicitamente cega já que, nessa busca, os meios (e aqui falamos do roteiro e das funções de cada núcleo dele) acabam sendo visíveis demais ao espectador. E para um filme que quer ser “realista”, mostrar demais acaba sendo como entrar num campo minado. Numa abordagem mais francamente acusadora do que em Contra a Parede, Akin parece encontrar limites a seu cinema, a sua imagem e a seu texto, já que eles não passam de simulacros de um grande argumento que seria realmente pungente caso fosse mais bem aproveitado. Poderia até existir uma estrutura que sustentasse os artificialismos de Akin, ou que ao menos os mascarasse, mas não há. O que existe, nessa visão, é uma distopia de um tema tão rico. Mas há quem passe pelo bosque e veja apenas lenha para a fogueira (Tolstoi).

(Auf der anderen Seite, Alemanha/Turquia, 2007) 

Direção de Fatih Akin
Roteiro de Fatih Akin
Com Nurgül Yesilçay, Baki Davrak, Tuncel Kurtiz, Hanna Schygulla, Patrycia Ziolkowska, Nursel Köse

Postado originalmente no Cinefilia

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