03rd Sep2010

Canções de Amor

by Pedro Henrique Gomes

É bastante natural e aceitável que Canções de Amor seja um musical. É natural por ser o filme seguinte a Em Paris, onde Christophe Honoré filmou o conturbado processo de uma perda e suas consequências na família com flerte musical. É aceitável pelo mesmo motivo, pois o cineasta está criando para ele (e para nós) um universo de filmes que se relacionam e dialogam entre si. Um projeto de cinema, pois. Uma vez dentro desse universo, seremos seu refém para sempre. Portanto, a música que nos soou tímida em Em Paris, aqui é ela mesma o mote do filme. Se lá Louis Garrel estava preso por algo e a música não lhe podia sair, aqui ela o liberta – e ele vai assim, andando e cantando pelas ruas de Paris, espalhando sua voz, expandindo seus sentimentos para além de seu próprio coração. Para Honoré, resta então continuar a filmar essa interação, pois o que lhe interessa (a ele e a seus personagens) não é o amor de ontem. É preciso dizer mais?

Canções de Amor nos apresenta novamente a personagens buscando a felicidade, uma felicidade que é inalcançável, pois ela não existe – isso ainda incomoda um pouco em seus filmes, mas ao mesmo tempo cria conflitos entre os personagens que se encaixam rigorosamente ao rumo (pois seus filmes não terminam com o passar dos créditos, “os finais” são aqueles que projetamos) que eles tomam para si. Honoré nos apresenta, inicialmente, a três personagens: Ismael (Louis Garrel) é um designer gráfico que trabalha na editoração de uma revista. Ele vive com Julie (Ludivine Sagnier) já há alguns anos, mas o casal vê a relação esfriar. Decidem chamar a editora da revista dele, Alice (Clotilde Hesme), para sua casa para apimentar a relação. O ménage-à-trois filmado por Honoré serve como homenagem a Nouvelle Vague (apenas como registro, não como pastiche) para quem “vê” o filme e como um elemento de mudança para quem “está” no filme. Depois essa cama vai ficar carente de uma pessoa, outra vai surgir na vida de um dos que ficaram e as coisas tomam outro rumo. O filme, que era um, transformar-se-á em outro.

A estética não é tanto “a” questão para Honoré, em que pese que o verdadeiro ponto chave da filmografia do diretor é a relação humana, mas não há como não mostrar encantamento pela beleza das imagens apresentadas. Cada plano é de uma sensibilidade minimamente notável (“pela beleza do gesto”, como diz uma das letras musicais), que se faz de movimentos sempre discretos, que não querem tomar para a câmera o foco principal. Se a câmera vai de cá para lá é porque quer registrar algo urgente para o filme, nunca para estetizar vagamente. E assim Canções de Amor nos parece um pouco “errado”, pois a câmera se movimenta quando os personagens estão parados e se mantém estática quando eles se movem. Mas essa poesia errática de Honoré nos toma e nos envolve também em virtude dos diálogos que, mais do que bem escritos, são ditos na hora certa. Somos reféns conscientes e assumimos nossa cumplicidade para com o relato que nos é apresentado.

Iremos acompanhar, na maior cara de pau, Ismael perder-se para depois encontrar-se diversas vezes, invadindo sua intimidade. Somos levados a um mundo de relações: com a cidade, com o trabalho e, principalmente, com as pessoas. As aventuras amorosas de Ismael são apenas detalhes. A questão maior é esquadrinhar o universo por onde ele irá transitar e as pessoas com que se relacionará. Ismael parece frio e alheio ao mundo que não lhe diz respeito, mas talvez a dor proporcionada pela perda (há sempre uma na narrativa de Honoré) o tornou retraído e possa ela mesma colaborar com seu amadurecimento. Aliás, é de amadurecimento que precisa este personagem. Não o amadurecimento que vem com a idade, mas sim com a experimentação.

As canções (o roteiro foi escrito a partir delas) de Alex Beaupain criam uma relação ainda maior de frivolidade, pois são cantadas pelos próprios atores, sem grandes arranjos – isso acrescenta naturalidade ao filme. Os personagens percorrem Paris (a cidade do amor) cantando seus conflitos e suas emoções. Essa interação dos atores com a cidade é essencial para Honoré: Paris é também um personagem. É nela que Ismael, Julie e Alice vão buscar a felicidade, vivendo vidas errôneas, topando uns contra os outros a todo o momento. Mas vão cantando. É por isso que o plano final de Canções de Amor é assim, uma janela aberta para o mundo onde os personagens que nela habitam parecem querer externar seus sentimentos. E o filme é justamente sobre isso: sobre o quão difícil pode ser para as pessoas expressar essa vontade de amar, esse desejo pelo amor – de hoje.

(Les Chansons D’Amour, França, 2007) 

Direção de Christophe Honoré
Com Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Grégoire Leprince-Ringuet

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