01st Sep2010

Interlúdio

by Pedro Henrique Gomes
Os filmes de Alfred Hitchcock são conhecidos e facilmente reconhecidos por vários motivos. Dentre eles, há um de destaque: o tempo do suspense – mais do que suas aparições, as revelações finais, a música ou o ângulo e o movimento de câmera. O tempo de criação mesmo, de duração de cada cena pela maneira com que o diretor as estica e as conduz, é uma de suas maiores virtudes. Por também respeitar e entender seu público, Hitchcock fazia filmes de maneira a amplificar cada quadro através de artifícios de linguagem. Grosso modo, quando o filme tem início, você não quer mais largá-lo, pois, como diria Capra, ele infecta sua corrente sanguínea e toma posse de você como um vírus.

Como assumir que essa representação não seja simplesmente parte de um mote? Pois Hitchcock, engajado com seus atores, os polariza e os liberta para além do mero cascalho caricatural. As interpretações, todas elas, são símbolos de uma força conjunta, mas cada uma possui sua própria força. Cary Grant e Ingrid Bergman, claro, enriquecem qualquer filme, e aqui não é diferente. Como não se espantar com a precisão dos movimentos de ambos em cada quadro na longa sequência de beijos e afagos na sacada, com vista para as águas salgadas de Copacabana? Como manter indiferença ao ver o casal se estapeando no carro como se dissesse eu te amo? Cada cena é um detalhe; cada detalhe é um arroubo.

O suspense de Interlúdio é o suspense do cinema, é o máximo daquilo que se pode retirar da linguagem, da manipulação de recursos e objetos cênicos. Pois Hitchcock, apreciador desses objetos, os potencializa a ponto focar a tensão de uma cena a uma xícara de café e não necessariamente a uma pessoa. Esse suspense é sempre acentuado, amplificado; seja por uma escada que parece muito maior na descida do que na subida; seja por uma xícara de café; seja por uma chave que balança de uma mão para outra; seja por uma garrafa de vinho. É tudo de uma precisão de tempo e espaço muito cara a tantos outros cineastas contemporâneos, que raramente se encontra em outras obras (De Palma talvez seja dominante nestes quesitos). Os personagens de seus filmes habitam lugares que podem ser traiçoeiros a eles e transitam acerca de objetos que são tão ou mais importantes do que eles para a construção/condução da narrativa. Em Interlúdio, Cary Grant e Ingrid Bergman parecem presos a mundo que não lhes pertence, onde a única saída é a contravenção das regras nos grupos em que convivem. Eles vão conseguir? O tempo, o tempo de Hitchcock dirá.

A trama não é difícil. Ingrid Bergman é Lucia, uma mulher comum que passa a ser espiã infiltrada pelo FBI na vida de alemães nazistas que vivem numa mansão no Rio de Janeiro. A missão dada a Lucia: ela deve se aproximar com um dos poderosos alemães a fim de reunir informações que possam ajudar o FBI na busca e apreensão de provas que possam incriminá-los. Acontece que Lucia se apaixona pelo agente do FBI (Cary Grant) que conduz o caso quase que paralelo ao enamoramento de um dos criminosos que lhe pede em casamento. O tal agente precisa orientar Lucia a dormir com outro enquanto seu coração palpita por ela. Esse triângulo amoroso é o fio condutor da história, que vai se desenvolver e ganhar formas e contornos de raríssima excelência.

(Notorious, EUA, 1946) 

Direção de Alfred Hitchcock
Roteiro de Ben Hecht, Alfred Hitchcock, Clifford Odets
Com Cary Grant, Ingrid Bergman, Claude Rains, Louis Calhern

Postado originalmente no Cinefilia

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