27th Jun2010

O horror é lindo!

by Pedro Henrique Gomes
Andei pensando no prólogo de Anticristo e na sanguinária sequência final de Deixa Ela Entrar. Passada a euforia, dá pra dizer hoje que são as melhores cenas de abertura e encerramento do ano passado, respectivamente. Tanto o filme de Lars von Trier quanto o de Tomas Alfredson são obras para espíritos livres – são acepções mais distantes (cada qual a sua forma e conteúdo) da questão humana daquelas que surgem por encomenda nas grandes indústrias artísticas. Estas duas embriagantes sequências tratam da perda de um amor. Em Anticristo, o casal vivido por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe regozija-se de prazer enquanto seu filho fatalmente cai pela janela – e o P&B da fotografia intensifica ainda mais essa sensação de incompletude, de algo que já passou, e que portanto não tem mais volta. Já na inebriante lição de Tomas Alfredson ao seus colegas cineastas de gênero que pensam no horror como algo a ser sempre mostrado – como se nós tivéssemos medo apenas das coisas que vemos, o que é balela -, a perda é iminente, ainda que inconcreta, mas é pelo medo dela que as coisas acabam “ficando bem”. Enquanto escrevo lembro que em Anticristo os personagens off estão sentindo prazer (pelo auge do orgasmo) enquanto, claro, inconscientemente, para eles, alguém morre. Enquanto em Deixa Ela Entrar os personagens off sentem prazer, desta vez, inversamente, através do sofrimento alheio (sentimento de vingança, neste caso). A sequência concebida por Trier nos apronta melhor para o filme (através do choque das imagens), enquanto o desfecho desenhado por Alfredson nos choca. Gosto muito dos dois filmes – mais do filme sueco, é verdade. O horror é lindo!

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *