12th Jun2010

O Escritor Fantasma

by Pedro Henrique Gomes

O cinema de Roman Polanski sempre transitou livremente entre gêneros cinematográficos. Basta dar uma olhada em Chinatown (um dos últimos grandes filmes noir do cinema americano), A Dança dos Vampiros (uma tragicomédia de alto bom gosto), O Bebê de Rosemary (um grande suspense psicológico) ou O Pianista (quando o diretor falou sobre a Segunda Guerra para fazer um filme que talvez seja seu mais pessoal trabalho). Mesmo diante de uma filmografia bastante diversificada, Polanski conseguiu construir uma ideia de cinema bastante marcante, com filmes ao mesmo tempo autorais e distantes uns dos outros – as tramas em nada se parecem, os personagens estão sempre passando por dramas diversos, cada qual a seu estilo. Para O Escritor Fantasma, Polanski parece ter criado um desejo de cinema onírico, onde não lhe é interessante a mera problematização dos acontecimentos, é preciso, para se alcançar a sutileza narrativa e, no caso deste, a tensão necessária, uma extensa visão sobre o material. Polanski tem.

A hora e meia inicial do filme é brilhante. O roteiro de Polanski e Robert Harris, adaptado de seu próprio livro (The Ghost), vai contra a maré reinante da produção de gênero contemporânea: o protagonista ganha todo tempo em tela necessário para sua dimensão ganhar forma. Os primeiros planos vão se construindo de forma a desenvolver pacientemente este personagem, e Polanski filma muito bem a ambientação do escritor fantasma do título (Ewan McGregor). Ele é contratado para escrever as memórias do ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan), que pode ser a oportunidade de sua vida. O ghost writer anterior do político acabara de morrer, de maneira suspeita; a missão do novo escritor é revisar e continuar a história. Acaba indo para uma reclusa casa nos Estados Unidos para escrever e entrevistar Lang. Uma vez em terras ianques, o escritor começa se envolver com os acontecimentos além do seu ofício. O drama começa.

O Escritor Fantasma é um filme de sustentação narrativa excepcional e onde os personagens, em suas peculiaridades, mostram-se mais complexos do que se espera deles – em face da enorme dedicação da primeira hora do filme ao protagonista e sua ambientação num mundo novo, alheio ao seu (reclusão, mansão fortificada, segurança máxima, imprensa pegando no pé, fanáticos e, principalmente e talvez os mais perigosos, políticos). Este mundo, que parece não pertencer ao Fantasma (nunca saberemos o nome seu nome), é construído e filmado com elegância – seja quando o diretor precisa estender uma tomada ou narrar, através de imagens, os momentos essenciais a trama. Há uma leveza nos cortes, ilusões criadas a partir de uma fluência narrativa marcante – o tempo é muito importante aqui, quando da montagem do filme, e Polanski e sua equipe encontram o certo.

A mise em scène de O Escritor Fantasma é notável. O suspense carregado é fruto, também, de vívidas interpretações. Kim Cattrall, que faz assistente de Adam Lang, é uma agradável surpresa. Ela empresta para sua personagem ambiguidade conveniente aos propósitos do filme: injetar a sensação de “não posso confiar em ninguém”, amplificando o clima claustrofóbico do filme. Olivia Williams (Ruth Lang, mulher do ex-ministro Lang) ganha closes fundamentais para sua composição: em seu rosto, sua expressão aparece sempre atordoada, notadamente estamos diante de uma mulher à beira de um ataque – um sentimento em candura preenche os traços daquela personagem, sentimento a qual teremos mais acesso no final, e que fazem total sentido). São detalhes que compõem o todo, e ele é belo e eletrizante. A trilha sonora de Alexandre Desplat namora perfeitamente com o filme – com notas pesadas e batidas obscuras, a exemplo da trilha que Robbie Robertson montou para Scorsese em Ilha do Medo, é fundamental para o envolvimento do espectador. Esses quesitos, além de ampliar os sentidos do espectador, potencializam o filme. A fotografia nos traz um novo sketch de Pawel Edelman. O visual que ele dá ao filme – que difere da maioria de seus últimos trabalhos como Doce Perfume, de Wajda e O Pianista e Oliver Twist, ambos de Polanski -, que parece negar a existência de cores (um filme quase asséptico, afinal), afundando os personagens na escuridão dos cenários (internos e externos, Pawel ilumina tudo com cores frias). Ewan McGregor e Pierce Brosnan cabem bem aos personagens. McGregor veste bem o estilo do personagem curioso e inteligente e Brosnan traz a canastrice de Ladrão de Diamantes e o charme de seus tempos de James Bond.

Um filme potente, num momento importante para Polanski (preso na Suiça), que o difere da maioria das produções cheias de imagens iguais e conflitos tão banais. Um filme que reflete, – não só confirma -, a beleza de um cinema ainda capaz de nos surpreender.

(The Ghost Writer, Inglaterra/Alemanha, 2010)
Direção de Roman Polanski
Roteiro de Roman Polanski e Robert Harris
Com Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Kim Cattrall, Olivia Williams

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