09th Jun2010

Alice no País das Maravilhas

by Pedro Henrique Gomes

Tim Burton é um arquiteto dos sonhos. Edward Mãos de Tesoura e Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas são filmes completos, que nos levam a tramas um tanto fantásticas, mas incrivelmente vivas e realistas. Em A Fantástica Fábrica de Chocolate e Os Fantasmas se Divertem embarcamos para outros mundos (mundos de sonhos), menos possíveis, mas não menos interessantes. Filmes como estes fizeram de Burton um cineasta diferenciado dos demais de sua geração (uma geração mais interessada em filmes comerciais, como Michael Bay e até mesmo o alemão Roland Emmerich, crias da indústria): Burton quer um encontro com coisas que lhe são peculiares – coisas que lhe marcaram. Mas Alice no País das Maravilhas é um exercício de vocação, mas há algo ausente nessa nova aventura de Burton – nessa sua visão bastante limitada -, porque o filme inteiro parece um amontoado de tomadas, uma sucessão de imagens em movimento que não conversam entre si.

A história é o reflexo da narrativa, simples e objetiva: a jovem Alice acaba voltando ao País das Maravilhas quando resolve seguir o coelho, numa desculpa/tentativa de fugir/desistir do seu casamento de encomenda. Outra vez lá em Wonderland, Alice reencontra os amigos de sua visita passada (mesmo sem lembrar de já ter passado por lá), como o Chapeleiro Maluco (Depp), a Rainha Branca (Anne Hathaway) e a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter). Esses personagens adoráveis criados por Lewis Carroll são projetados com estilo na tela – a cada personagem que surge, Burton estica a corda até o máximo, para aumentar a expectativa do deslumbre (não que isso funcione tal qual imaginou o mestre). Unindo-se ao Chapeleiro Maluco e a Rainha Branca, Alice é meio que forçada a acabar com o reinado da Rainha Vermelha – nem que para isso precise enfrentar um monstro dantesco.

A questão do afastamento do texto original nos coloca face duas vertentes: ao manter certa distância da “fidelidade incondicional” da história de Carroll (aquele tom mais ambíguo se perde um pouco, o que é bom para o filme), Burton consegue nos levar para aquele mundo fantástico mantendo sua criatividade artística. O detalhe é que essa criatividade do diretor (e aqui já falamos da segunda questão) já não tem mais o mesmo vigor de outrora. Os personagens parecem não responder aos estímulos do diretor – Anne Hathaway, especialmente, não consegue dar o tom certo à Rainha Branca, e não é por culpa da jovem e talentosa atriz americana. Tom, aliás, falta ao filme. É muito Carroll, muito Disney e pouco Tim Burton. É muito brilho, muito colorido e também muito vazio. O chamado “delírio visual” só é mesmo um delírio quando a história nos é arrebatadora, por isso que se nega, aqui, qualquer elogio neste quesito. Até porque falamos de um cineasta de talento para esse tipo de coisa. Enaltecer a plasticidade de um filme de Tim Burton é chover no molhado. É o mínino. Além do mais, o filme é assumidamente feito para encantar. É se notar, também, que o encantamento provém apenas pelos adereços estético-visuais, não pelo envolvimento da relação filme-espectador para com a história (que, para quem já leu o livro ou mesmo já viu as diversas adaptações que ele teve, se mostra muito mais eficaz do que aqui).

Os personagens de Alice são incapazes de transmitir o maravilhamento pensado pelo diretor e criado nos computadores para os cenários. São nulos. Burton dá ao Chapeleiro Maluco de Johnny Depp tantos closes quanto dá a Alice, o que, vindo de uma estratégia puramente comercial, prejudica o filme, pois Depp divide o filme com Alice de maneira a vendê-lo bem, não a enriquecê-lo. E assim o roteiro vai atirando personagens ao léu, sem dar a mínima atenção a eles (consequência óbvia: o espectador não dá a mínima também). Todos entram e cumprem suas funções, como um grande fluxo constante de eventos insignificantes. A sequência final (batalha de proporções épicas mega careta, a movimentação de câmera de Burton inclusive) empalidece ainda mais o gosto pelo filme, que acaba sem deixar nenhuma coisa em nossas cabeças – vá dizer que os gritinhos histéricos da Rainha Vermelha (“Off with their heads”) marcaram o filme pra você? Quando os elogios para um filme começam pelos seus efeitos, estamos diante de um mau filme. Alice no País das Maravilhas é um filme bonito de se ver, mas feio demais para ser admirado.

Alice in Wonderland (EUA, 2010)
Direção de Tim Burton
Roteiro de Linda Woolverton
Com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway

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