19th May2010

A Dança dos Vampiros

by Pedro Henrique Gomes
 
 
Em Armadilha do Destino, de 1966, Roman Polanski dá um salto diametralmente oposto em relação a seus dois filmes anteriores, A Faca na Água e Repulsa ao Sexo. Estes dois últimos são suspenses dramáticos, com ampla carga de análise psicológica embutida – filmes que costuram bizarrices e uma porção de dark images. São filmes tensos, onde o trabalho de iluminação (cheios de sombras) proporciona a combinação perfeita com o desenvolvimento maquiavélico dos personagens e seus conflitos. Este A Dança dos Vampiros tem um pouco de Armadilha e um pouco dos outros dois, construindo, assim, uma história tragicômica sobre vampiros das mais bem elaboradas no cinema – e ainda respira iluminado num clímax final de dar arrepios.

Polanski traz para si um vasto pastiche cinematográfico de gênero (e principalmente do seu próprio cinema) e os transforma, criando um efeito agradável: uma história que pode hora ser uma comédia, hora um terror dos mais assustadores. Como em Armadilha do Destino, possui sequências que atestam o extremo bom gosto do diretor para filmar momentos cômicos. A exemplo de Repulsa ao Sexo, evoca momentos mais sombrios. Polanski conduz seu filme de maneira a enriquecê-lo, pois para cada sequência cômica há seu contraponto dramático, assustador. Essas cenas fazem parte do universo que o diretor criou para si, onde o suspense, o verdadeiro medo do espectador, está nas coisas que ele não vê. São sugestões que Polanski coloca na tela que causam arrepios – o terror psicológico ainda é mais eficiente para o diretor. Pode ser um móvel que muda de lugar, um espelho quebrado, o ranger do assoalho, são todos detalhes, mas que amplificados e acoplados junto ao filme criam uma ambientação abominável. No caso de A Dança dos Vampiros, esses recursos não são objetivos principais, afinal estão ali a serviço da mise en scène, o foco é mesmo no mistério cômico – o filme tende a cair mais para o lado do humor negro quanto mais próximo do desfecho, não menos empolgante.

O filme é sobre um especialista, o Professor Abronsius (Jack MacGowran), em bebedores de sangue que vai para a Transilvânia, na companhia de seu aprendiz Alfred (Polanski) para estudar mais sobre os vampiros. Ao chegar lá, os dois percebem que coisas mais aterrorizantes do que eles esperavam acontecem na capital mundial dos dentes afiados. Com todo bom humor, Polanski desfila estes personagens dentro de quadro com a elegância habitual, flerta com o erotismo (veja a cena em que a personagem de Sharon Tate é mordida por um chupador de sangue) e dá um banho de controle narrativo, indo agradavelmente de um lado para o outro – e, claro, colocando o espectador nessa viagem maluca como cúmplice. Com o prestígio internacional que o diretor atingiu após o sucesso de Repulsa ao Sexo, pôde contar com nomes consagrados em sua equipe, como o diretor de fotografia Douglas Slocombe (dos três primeiros Indiana Jones, de Steven Spielberg e de Freud – Além da Alma, de John Huston). O resultado visual é excelente, onde as sombras são superexploradas por Slocombe para criar a atmosfera de tensão que o diretor tanto queria imprimir.

A beleza estonteante de Sharon Tate cabe bem à sua personagem, pois é sobre seus traços delicados que Polanski e Slocombe registram as imagens mais belas do filme – através de closes ou mesmo de bonitos movimentos de câmera (a cena onde o personagem de Polanski espia Sharon pela fechadura da porta é sensacional, a tensão erótica cresce). O ritmo constante de acelerações de velocidade das imagens (algumas cenas, em especial quando Polanski sai correndo pelos arredores do castelo, parecem que foram rodadas com menos de 24 quadros por segundo, dando mais velocidade a projeção). Isso demonstra ainda mais o quanto o diretor trouxe da época do cinema mudo, daqueles filmes hiperacelerados dos 20. Esses takes, contando com um esperto timing cômico de Polanski e, principalmente de Jack MacGowran, ajudam a criar os contrastes desejados pelo diretor. A sequência do baile, a melhor do filme, encerra um filme que só vem potencializar a filmografia do grande cineasta. Polanski criou um filme autêntico, e A Dança dos Vampiros existe para confirmar a potência de seu cinema.

A Dança dos Vampiros (The Fearless Vampire Killers, 1967)
Direção de Roman Polanski
Roteiro de Gérard Brach, Roman Polanski
Com Jack MacGowran, Roman Polanski, Alfie Bass, Jessie Robins, Sharon Tate

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