11th May2010

E o Coppola, hein?

by Pedro Henrique Gomes
Do surgimento à beira do abismo e daí para o Olimpo novamente

Sorte de quem conseguiu pegar uma sessão de Velha Juventude (Youth Without Youth) e/ou Tetro em algum festival, pois não há estreia prevista no Brasil para nenhum. Ambos são, literalmente, os filmes que Coppola sempre sonhou fazer – filmes pessoais. O que não era possível quando o diretor surgiu, numa Hollywood dominada pelos grandes estúdios que dificilmente dariam espaço para um novato, barbudo e que se autodenominava artista. Tais filmes só puderam ser rodados agora porque Coppola, há décadas atrás, foi um dos pioneiros da Nova Hollywood. Em 1968, quando se instalou em Los Angeles, fundou a American Zoetrope (produtora que segue firme até hoje, contrariando as previsões de muitos executivos, e com relativo sucesso). A Zoetrope deu certo graças a O Poderoso Chefão (1972), primeiro grande sucesso da empresa – após ter fracassado nas bilheterias com THX: 1138, do jovem George Lucas, que se redimiu logo depois, com Loucuras de Verão.

Depois conseguiu rodar A Conversação (segundo o próprio, seu filme mais pessoal, rodado com zero imposições do estúdio (Paramount), total liberdade criativa, como parte de um acordo em que teria de fazer a continuação de O Poderoso Chefão (1974) – que não pensava realizar. O resultado foi que, no Oscar, Coppola disputou a estatueta consigo mesmo – ambos foram indicados -, tendo vencido pelo Chefão. Depois veio Apocalypse Now e… bem, R$150 milhões nas bilheterias. Era a recompensa por uma das filmagens mais conturbadas de que se tem registro no cinema – um furação destruiu os cenários nas Filipinas, Marlon Brando acima do peso, Coppola teve que mudar o final por conta disso várias vezes, as filmagens duraram 10 vezes mais do que o previsto e Martin Sheen teve um ataque cardíaco. A Zoetrope de Coppola e Lucas quase foi à falência – Coppola tirou dinheiro do próprio bolso para garantir o orçamento.

Declínio

Como quase todos os diretores da Nova Hollywood (Altman, Scorsese, Spielberg, Ashby, Beatty, Bogdanovich etc), foi do céu ao inferno em pouco mais de uma década. Em 1982, Coppola se pôs a dirigir um musical, era O Fundo do Coração. Fracasso total, inflação de orçamento. A crítica detonou o filme e o público foi no embalo, deixando míseros US$ 636 mil dólares nas bilheterias, o que acabou criando um débito que duraria décadas nas contas do diretor. Vidas Sem Rumo (1982) deu um bom lucro, O Selvagem de Motocicleta (1983), com Matt Dillon, também fracassou. Cotton Club, depois de diversos problemas com seu produtor, Robert Evans, não teve melhor desempenho e só agravou a situação financeira de Coppola – e também afetou sua reputação. Até Peggy Sue, já em 1986, dar um bom lucro. Mas Jardins de Pedra e Tucker – Um Homem e Seu Sonho recuperaram a má forma. Coppola parecia mesmo destinado a filmes de encomenda pelo resto da vida para poder pagar suas dívidas.

Novos rumos

O último filme da saga dos Corleone rendeu uma boa bilheteria, mas foi quando Drácula de Bram Stoker atingiu US$ 200 milhões que Coppola pôde respirar aliviado – o orçamento de 40 milhões foi facilmente batido. Depois fez Jack e O Homem que Fazia Chover, que não deram nem um grande lucro nem um grande estouro. Atualmente mantém sua vinícola no vale do Napa, na Califórnia, nos Estados Unidos. Bebendo bons vinhos, produz mais filmes do que dirige, mas sua empresa mantém uma boa safra. Temos Sofia Coppola, que vai lançar Somewhere em setembro, nos EUA (sem previsão por aqui, também), Walter Salles já anunciou que finalmente vai rodar On The Road, baseado em livro de Jack Kerouac, projeto que acalenta há anos. Depois de Tetro, um bom filme, principalmente por ter Vincent Gallo e Carmen Maura em atuações deslumbrantes, não há previsão para um novo Coppola como diretor. No IMDB, há um The Conversation em desenvolvimento, mas não há maiores informações.

Após O Homem Que Fazia Chover, de 1997, cogitou um filme ambicioso, Megalópole, mas desistiu e foi construir um hotel na Itália – na época chegou a visitar o Brasil para registrar arquiteturas para o filme. Segundo Coppola, seria uma repetição para sua carreira e que não queria alimentar a indústria. O projeto foi cancelado e segue até hoje em suspensão e dificilmente será filmado. Resta esperar por Velha Juventude e Tetro, que não são obras preciosas para bilheterias – apesar de interessantes, até bons, mas ambos são limitados (não confunda com ruins), tão pessoais que só funcionariam plenamente se exibidos no cinema particular do diretor em sessão para sua família -, entrarem em cartaz. Ao que parece, vai demorar. Talvez um próximo chegue ainda antes. A questão nem é tanto do poder (ele pode), mas do querer (parece não querer/precisar). A pergunta é: será que ele ainda quer fazer chover?

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