06th May2010

Ilha do Medo

by Pedro Henrique Gomes
 
Resumir Ilha do Medo a seus méritos técnicos é limitá-lo a obviedades. Segundo Scorsese, o filme é uma sinfonia moderna – e como tal precisa ser lapidado em diversas camadas. Scorsese deixa claro desde o primeiro plano do filme que Ilha do Medo é um filme de mistério – um thriller visivelmente bem arquitetado. O close inicial no investigador Teddy Daniels (DiCaprio), quando este mostra sinais de enjoo ao navegar num barco rumo a tal ilha (a Shutter Island, do título original), junto de seu novo colega Chuck (Mark Ruffalo), dá a primeira dica: Ilha do Medo é um filme sobre um personagem, não sobre uma ilha. Mas a desenvoltura dos primeiros cortes, a ambientação daquela viagem marítima, o mar crispado, o silêncio externo que provoca a mais intensa das agitações internas, tudo isso é criado de maneira a instaurar uma expectativa, e não para entregar uma surpresa. O andamento das coisas será fruto daquilo que nós e Teddy Daniels desejar. Isso vem de Hitchcock, criar a expectativa no espectador, não trabalhar apenas com um final surpresa – não é este o objetivo.

Scorsese faz de tudo para problematizar o protagonista. Ao longo dos primeiros planos, veremos que Daniels é um homem perturbado. Seja pela perda sua mulher, seja pela sua participação na Segunda Guerra Mundial. Ao chegarem à Shutter Island, Daniels e Chuck deparam-se com tipos interessantes – tanto de policiais quanto de presos. A ideia é justamente essa, brincar com as ambiguidades. Percebe-se que muitas coisas estão fora do lugar, resta a Daniels montar o quebra-cabeça. Daniels vai para a ilha investigar um caso de uma paciente que desapareceu, mas pessoalmente luta para descobrir quem foi o homem que incendiou o apartamento de sua mulher. Quanto mais ele fuça, menos as coisas se encaixam. É sobre esse desentendimento das ações e consequências que Scorsese trabalha durante o filme.

Certamente que o visual expressionista e até a semelhança da história retirada de O Gabinete do Doutor Caligari, bem como a ambientação perturbadora que remete diretamente a Shock Corridor, de Samuel Fuller, são referências obvias a um trabalho de competências altamente enriquecidas. Ilha do Medo é muito mais do que apenas um exercício de estilo. As referências existem menos para criar um pastiche de sua cinefilia e mais para enriquecer a sua história. São referências/reverências explícitas, mas acopladas de maneira a dar forma ao bolo, e não para deixá-lo abatumar. Scorsese traz para si essa coleção imensa de cinemas, mas constroi em cada quadro, com mão de obra própria, sequências autênticas, potencializando seu filme. São escolhas e posturas tomadas a partir de uma mente que sabe o que quer e quando o quer.

Ao colocar DiCaprio como protagonista, Scorsese traça um paralelo com Cabo do Medo. Ambos são exercícios de gênero – e muito bem feitos – e possuem o ator fetiche do diretor (Robert De Niro estrelou o anterior, DiCaprio é o cara da vez). Por serem homenagens aos filmes B, não são necessariamente filmes B. Aí reside a maior dificuldade da crítica norte-americana em classificar esses filmes, que não são nem filmes de gângster tampouco dramas históricos – temáticas preferidas de Scorsese. A ferramenta usada pelo cineasta é uma só, e além de bastante primária, todo espectador possui: o medo. DiCaprio passa muito bem essa sensação, com um desempenho convincente, mas vem de Ben Kingsley a mais perturbadora das performances – o mistério está todo no olhar. Grande ator.

É mesmo um filme de detalhes – das partes para o todo, diria Descartes. A exemplo da trilha sonora, uma coleção grandiosa que combina jazz e música erudita contemporânea – algumas notas, combinadas com a tensão das sequências mais ágeis, compõem um pastiche muito bem-vindo. A tensão só aumenta. A música foi o fio condutor do filme, disse Scorsese, ainda acrescentando que mudou cenas inteiras por causa dela. Faz total sentido e, principalmente, funciona. A trilha cresce, a tensão do espectador vai junto. Quando o final se aproxima e não tem mais para onde correr, as coisas mudam sonoramente. É um exercício de suspense dos grandes. O ambiente de loucura que se instala é proveniente de um Samuel Fuller (Paixões que Alucinam), e isso deixa qualquer espectador em estado de alerta. São dados que trabalham a favor do filme, pois representam um olhar autêntico sobre a própria História do Cinema.

Ilha do Medo (Shutter Island, EUA, 2010)
Direção de Martin Scorsese
Roteiro de Laeta Kalogridis
Com Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley, Mark Ruffalo, Michelle Williams

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