30th Apr2010

Tudo Pode Dar Certo

by Pedro Henrique Gomes


“Deixe-me explicar, certo? Não sou um cara simpático. Carisma nunca foi uma prioridade pra mim. E, saibam todos, esse não é o feel good movie do ano. Então, se você é um daqueles idiotas que precisa se sentir bem, vá fazer uma massagem nos pés”.

O primeiro plano de Tudo Poder Dar Certo já nos traz a um clichê. A câmera se movimenta de tal forma a enquadrar um grupo de amigos conversando num bar qualquer de uma Nova York ensolarada – como em outros tantos filmes de Woody Allen lá filmados, sendo Melinda e Melinda o exemplo mais recente. Um clichê da barbárie, afinal. Mas são de clichês de sua própria obra que são construídos seus melhores filmes, como este Tudo Pode Dar Certo que, mesmo sendo sobre as mesmas neuroses de sempre, nos parece mais uma visão entorpecente do mundo e do estado de certas coisas (do próprio ser humano e das mudanças que o tempo e as experiências vividas nos trazem) através do olhar de um verdadeiro argumentista. Este é o epicentro onde Allen desfila sua capacidade de envolver e surpreender o espectador a cada filme com uma persona já instaurada na cultura cinematográfica há décadas – com o início de suas aparições como judeu-neurótico-hipocondríaco no fim dos anos 60.

Tudo Pode Dar Certo também representa o mais íntimo diálogo que Allen realiza com seu alter-ego através de outro ator – desta vez Larry David (criador de Seinfeld), em trabalho inspirado – desde Celebridades (na oportunidade, Kenneth Branagah fez o repórter Lee Simon). David vive Boris Yellnikoff, um cientista que se acha gênio, e é claro, rabugento, hipocondríaco, ateu. Boris é também anti-social, sua vida fora do trabalho não é mais que uma conversa de bar com dois ou três amigos. Essa é sua vida, motivo de orgulho para Boris, que abomina grande parte das ideias e dos ideais da contemporaneidade. Um dia Boris conhece Melodie (Evan Rachel Wood), uma garota interiorana que veio para Nova York em busca de um futuro melhor. Boris acaba acolhendo a menina em seu apartamento, indo contra todos seus princípios de convivência – pois, segundo ele, ela representa a escória perto de sua genialidade.

Enquanto Boris se envolve com Melodie, surge a mãe dela, sua sogra – que ganha os traços de Patrícia Clarkson. E essa participação da personagem de Clarkson torna-se importante para a fluência da história (não confunda com fluência narrativa), pois representa a mudança radical de um ser humano diante de algumas escolhas feitas durante a vida. Opção que, inteligentemente, Allen toma, pois ao centrar na personagem de Clarkson essa mudança, Allen livra-se de um cacoete irritante que muitos diretores parecem ter adotado. Ou seja, ao invés de polarizar uma lição de moral, de aprendizado, da velha história dos jovens que aprendem com os mais velhos e vice e versa, o diretor não transfigura Boris, ao contrário disso, este continua sendo um velho rabugento e pessimista. Grandes filmes são feitos de sábias escolhas – mesmo que pequenas – e reconhecemos um bom filme por estes detalhes.

A relação Boris/Melodie é conduzida de tal forma pelo roteiro (e transformada pelos atores) que fica difícil conter o riso em grande parte das cenas onde Rachel Wood e David contracenam. Os diálogos, afinados como nunca, pois não destoam um segundo sequer do discurso do filme, encantam. É por isso que falar sobre piadas em um filme de Woody Allen acaba sendo um completo pleonasmo. Porque seus filmes são tão ricos em sutilezas, que estão lá explícitas, impregnadas por uma elegância delicada, mas ao mesmo tempo violenta em sua composição crítica, que compõem cenas e sequências inteiras de extremo riso e, instantaneamente, de grande poder reflexivo. Nada do que é posto na tela é vago. Os desdobramentos da trama, com a entrada de novos personagens, é completamente justificável, e as soluções para os problemas criados pelos personagens não são menos do que criativas.

É um filme sobre as poucas certezas que Allen tem da vida, de sua própria existência neste nosso mundão. A questão do relacionamento entre Boris e Melody (Boris teria idade suficiente para ser avô da menina) pode ser vista como extensão do indivíduo (Allen deixou Mia Farrow para casar-se com a filha adotiva da atriz, Soon-Yi Previn, décadas mais jovem).  É também um filme que evidencia a maturidade artística atingida há anos pelo autor, pois revela não somente a consciência do autor em relação ao mundo lá fora, mas deixa claro que é possível, através de pedaços da realidade, extrair argumentos para dentro do campo ficcional, esquadrinhando na tela uma história tão agradável quanto irreverente. No fim das contas, o título original (pode ser algo como “tanto faz”) sintetiza a visão do autor, como aquela bola de tênis que paira na rede e não se sabe, por alguns instantes, para que lado irá cair, em Match Point. Aquela imagem está impregnada pela ambigüidade que norteia Tudo Pode Dar Certo – as coisas estão suspensas no ar, pendendo entre a sorte e o destino. Ao colocar as coisas dessa forma, a despeito da história/trama, que é simples, Woody Allen corre o risco de deixar seu filme maniqueísta. Mas ele sabe que esse é o risco da simplicidade, ser visto por um olho só.

Whatever Works (EUA, 2009)
Direção de Woody Allen
Roteiro de Woody Allen
Com Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, John Gallagher Jr., Ed Begley Jr.

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