14th Apr2010

Ervas Daninhas

by Pedro Henrique Gomes

No cinema de Resnais, na fugidia desenvoltura de suas histórias, somos embriagados pela contagiante forma com que as ações e reações se dão na tela. São desdobramentos quase sempre contraditórios, pois não são esclarecidos à maneira clássica que aprendemos no cinema, possuem um caminho não retilíneo, meio turvo, e assim colocam-se mais próximos do mundo real, mesmo sem querer parecerem reais. São trajetórias que não fariam sentido algum estivessem elas presentes num filme de Scorsese ou Eastwood, mas que no cinema de Resnais conversam plenamente. Ervas Daninhas, esse último pedaço de criatividade lançado por Resnais, possui todos estes atributos de interesse. É mesmo um filmaço.

E é sob uma carteira roubada que Resnais desenvolve sua história. Vemos uma mulher ruiva, de meia idade (aparentemente, pois o diretor segura e demora um pouco a nos mostrar seu rosto) ser assaltada. Sua bolsa amarela voando em câmera lenta, os planos detalhes de seu caminhar, alguns movimentos de ladrão são mostrados. Sua carteira é deixada no chão do estacionamento, até ser encontrada por Georges Palet (André Dussollier). Palet é casado, tem dois filhos. Ele abre a carteira e vê que a mulher se chama Marguerite Muir (Sabine Azéma), encontra também uma foto dela, que resolve guardar consigo.

Como num bom filme de Resnais, as coisas não se resolvem facilmente por vias conciliatórias. Este mundo do “imaginário e real” permeia o filme, pois, antes de tudo, Palet se apaixona pela foto (o imaginário) para depois ir atrás da moça (o real). Quando a encontra, ela o agradece, mas o rejeita quando é convidada para um encontro. Por ela não querer conhecê-lo, ele a persegue, enlouquece de curiosidade e desejo a cada dia.  Ele é um velho aparentemente triste, com um semblante cansado. Ela parece atormentada por alguma coisa que dificilmente teremos acesso, assim como o passado dele na relação com seu filho. Os detalhes Resnais nos esconde, mais para compor um estágio de descoberta, de interesse, do que para “estilizar” sua obra. São esses detalhes não mostrados, não ditos, que diferem os verdadeiros engenheiros dos decoradores.

Justamente essa sensação de incompletude das coisas, dessa ausência do saber, que torna Ervas Daninhas um filme especial, por ser um filme existencialmente aberto, deixando peças a serem montadas. Filmes abertos agradam, quando deixam, nesta abertura, espaço para reflexão. Esse espaço não é fácil de alcançar. Resnais o alcança, pois sua cinefilia o ensinou que toda obra de arte já nasce com suas aberturas, não sendo necessário revigorá-la no desfecho. Bastam que certas verdades e mistérios sejam equilibradas no percurso para que a solidez de um argumento (essa história encantadora) mantenha-se justificável.

Aliamos a isso a forma com que os cenários se apresentam. A abundância das cores como recurso de continuidade narrativa, auxiliando na construção dos personagens – como aquele colorido da sequência em que Palet sai do cinema e encontra Marguerite. O colorido que vislumbramos, o vermelho (algo peculiar a Almodóvar) e o amarelo são flertes com uma França que apaixona, que romanceia qualquer situação dramática de amor. Neste colorido, Resnais nos brinda com imagens e planos igualmente belos, sem que, com isso, “estilize” seu filme. Tudo isso lá posto coloca-se de maneira a enriquecê-lo.

Não se deve reduzir o cinema de Resnais a afirmações sobre estilo. Chamaram-lhe de estilista, inclusive, achando que isso fosse um elogio. Os estilistas (no campo cinematográfico) são falsos, enganam a platéia com malabarismos e enfeites visuais para esconder deficiências de seus filmes. Alan Resnais não é um estilista. É como confundir um verdadeiro escritor com um malandrão operário das letras. Os filmes de Resnais não impõem limites (ao imaginário do espectador), não possuem limites (propriamente, na técnica narrativa) e tão pouco são limitados (a um pensamento único, pois possuem desdobramentos). Possivelmente, ao afirmar que Resnais é um estilista, esses críticos estavam limitando suas visões sobre o cinema dele, provavelmente por acreditarem serem mais sábios que os filmes de Resnais. É esse o primeiro passo para o aproveitamento vazio da arte: criticar coisas sob as quais não compreende.




Ervas Daninhas (Les Herbes Folles, França, 2009)
Direção de Alan Resnais
Roteiro de Alex Reval e Laurent Herbiet, baseado em livro de Christian Gailly
Com André Dussollier, Sabine Azéma, Mathieu Amalric, Emmanuelle Devos

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