11th Apr2010

Invictus

by Pedro Henrique Gomes

De uns anos pra cá Clint Eastwood deixou de fazer filmes sobre pessoas. O último havia sido Menina de Ouro (que lhe deu o Oscar de melhor diretor), onde a tal menina do título é uma lutadora de boxe, que ganhou os traços elegantes de Hilary Swank. Antes dele podemos listar Sobre Meninos e Lobos, Os Imperdoáveis, As Pontes de Madison. Passou a registrar a vida, de períodos históricos (A Conquista da Honra e Carta de Iwo Jima) a uma história real sobre a perda familiar (A Troca). Esboçou algo mais próximo de uma análise do ser humano em Gran Torino, um dos filmes mais completos de sua linda carreira, mas que não é exatamente sobre alguém e sim sobre algo – sobre o amadurecimento, dirão alguns. Em Invictus, seu mais recente trabalho, Clint manteve a mesma linha, mas não esqueceu como criar um bom filme.

Clint já versou sobre o horror com os irmãos A Conquista da Honra e Carta de Iwo Jima, dois filmes em que a situação histórica registrada, como sabemos, caminha rumo ao precipício. Invictus é exatamente o oposto disso. Em uma daquelas cenas de abertura de cair o queixo (em uma demonstração clássica de sua eficiência narrativa), Clint nos diz sobre o quê se trata seu filme. De um lado de uma rua, negros jogam futebol. Do outro lado, brancos digladiam-se no rúgbi. O treinador do time de rúgbi, ao ver passar a comitiva com o presidente Nelson Mandela, recém saído da prisão, deixa escapar seu ideal de que o país entrará em colapso a partir dali, rumo a ruína, ao desgosto. Era o início de uma grande mudança para aquele país.

É o filme de um cineasta consciente de seu espaço enquanto artista e do assunto a ser abordado: Clint não quer endeusar Mandela, apenas registrar a trajetória ímpar de um homem também consciente (assim como Eastwood) daquilo que é possível realizar. É um filme de grandezas – dentro e fora das telas. O Mandela vivido por Morgan Freeman é místico, bondoso e sempre tem algo a sábio dizer. É mesmo um grande homem, o Mandela. Um herói estóico, a frente de seu tempo. Mas a maior saliência de Invictus é sua discrição. Não existem conflitos paralelos para Mandela enfrentar – o único adversário do presidente é o preconceito.

As cenas dos jogos da seleção africana são desmedidas de pobreza gráfica, é tudo muito bonito. As panorâmicas durante os jogos são lindas. É mesmo um filme plasticamente maduro, enriquecido pela experiência de mais de um século de carreira no campo cinematográfico. Clint, com o passar do filmes, começou a demonstrar maior cuidado com a construção cenográfica (digamos que a partir de Sobre Meninos e Lobos), engrandecendo-as ainda mais com a fotografia, que passou a ganhar os olhos do espectador que antes só enxergava os personagens brucutus pronunciando suas frases brucutus.

Como a sequência de cortes onde Mandela caminha com seus seguranças à noite e um furgão anda solitário pelas ruas, numa tentativa um pouco fora de contexto para se criar suspense – usando as perseguições ao futuro presidente logo após deixar a prisão. Em outro momento, um tanto patético, aliás, Clint utiliza o voo rasante de um avião sobre o estádio para provocar momentos de uma aparente ameaça terrorista. Não são posturas de um Clint objetivo, como foi durante o restante do filme, onde construiu, praticamente sem percalços, representar a trajetória da nova vida de Mandela pós-prisão. Quando abre mão de certos malabarismos narrativos e organiza seu filme de maneira a potencializá-lo, Clint faz um filme de Clint.

Invictus (Invictus, EUA, 2009)
Direção de Clint Eastwood
Roteiro de Anthony Peckham, baseado em livro de John Carlin
Com Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Patrick Mofokeng, Matt Stern

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