12th Feb2010

Amor Sem Escalas

by Pedro Henrique Gomes
Jason Reitman consegue neste seu terceiro longa-metragem mais uma vez esboçar uma ideia pertinente sobre o mundão em que vivemos, nossas virtudes e nossas infelicidades.  É um projeto de cinema que garante boas discussões acerca do assunto. Ainda mais que o diretor tem uma visão muito interessante sobre o quê e quando abordar determinado tema. Amor Sem Escalas, assim como Juno, fala da contemporaneidade. Apesar disso, há algo cheirando a mofo neste novo filme de Jason Reitman.

Ryan Bingham (Clooney) é um funcionário de uma empresa que faz o serviço que poucos executivos se animam: demitir pessoas. Ele viaja pelos EUA procurando a melhor forma de dizer você está demitido. Em seu charme, em seu cinismo, reside na verdade um homem solitário, um homem vivendo no vazio. Seu maior prazer são suas viagens e seu objetivo maior é completar 10 milhões de milhas aéreas e assim se tornar a terceira pessoa a atingir tal marca. De repente surgem duas mulheres em sua vida. A primeira também é uma viajante, Alex (Vera Farmiga). Ryan envolve-se com ela naquele tipo de relacionamento casual. Depois surge a ameaça de que suas viagens não serão mais necessárias com a chegada de uma nova funcionária na empresa, Natalie (Anna Kendrick), que traz consigo uma proposta de demissão via vídeo-conferência, o que dispensaria as despesas com viagens.

Os primeiros instantes do filme são magistrais, quando colocam o espectador em encantadora sintonia com Bingham. Através de um bonito jogo de plano/contraplano, há uma leveza agradável no filme mesmo que o subtexto seja uma crítica social pouco sutil. Ao mesmo tempo, Reitman posiciona seu filme de maneira a enriquecê-lo. Ao invés de tudo contar, o diretor deixa muitos vazios (analogia ao vazio de Bingham?) para serem preenchidos pela platéia. Isso valoriza o filme, pois dá um trabalho extra ao espectador: imaginar, conjurar ou até mesmo criar um passado para o personagem e buscar compreensão do que verdadeiramente acontece com aquele homem solitário. O problema é que gradativamente o filme vai saindo do compasso e vira um carro desgovernado.

Constantemente às falas atropelam-se, os cortes são abruptos e as cenas muitos curtas – o objetivo transforma-se em escapismo. O diretor parece rendido às amarras do formalismo – algo natural e até compreensível em se tratando de um diretor como Reitman, pouco transgressor. Parece, também, estar perdido quanto ao seu próprio assunto, seu objetivo. O filme que começa não é o mesmo que termina. A sagacidade de uma comédia dá um lugar a um dramalhão dos mais canalhas, com direito a toda aquela ladainha sobre a família e as lições de que jovens aprendem com os mais experientes – e vice-versa. E aqui o filme perde-se totalmente. Onde foi parar a subversão do início do filme? Sua visão crítica sobre o estado das coisas acaba limada pela maneira com que o vai e vem do roteiro carrega as emoções. Ora comédia dramática ora romântica. Ao mesmo tempo em que esse jogo de sensações deixa certo suspense no ar (o que é bom), por nunca sabermos o que esperar, desequilibra a narrativa.

Nas interpretações, temos no potencial de expressões que Vera Farmiga nos entrega na construção de sua personagem o grande destaque do elenco – que ainda traz um George Clooney inspirado. Farmiga respira elegância ao compor uma personagem que acaba ganhando cada quadro ao entrar em cena. Já Anna Kendrick, a outra mulher que surge na vida de Ryan, não tem o mesmo encanto. Sua personagem surge apenas para martirizar e ensinar lições a Bingham e, quando esta tarefa é cumprida, ela some do filme abruptamente. O filme esquece totalmente da personagem – não sem antes fazê-la executar uma cena melada onde Kendrick cai num choro feio e anticlimático, numa espécie de confissão com o “casal” Bingham e Alex. Apesar de isso resultar em mais tempo para o desenvolvimento protagonista, mostra certo desespero do texto em usar uma personagem apenas para cumprir determinada função – de maneira tão ignorante e explícita.

Mas a coisa começa a ficar feia mesmo no final, justamente quando a Natalie de Kendrick sai de cena. A partir daqui Amor Sem Escalas, que já esboçara um interesse por um tema bom para discussão, vira um dramalhão. Aos gritos, o filme de Reitman exclama que a vida é assim, vazia, que precisamos construir uma família para sermos pessoas de alma completa. Mas, mesmo com uma visão interessante, mesmo que revigorada por um olhar atento, a partir do momento em que Reitman começa a discursar, a dar aulas e lições a platéia, ele faz um filme ruim.

(Up in the Air, EUA, 2009)
Direção de Jason Reitman
Roteiro de Jason Reitman e Sheldon Turner
Com George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick

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