10th Feb2010

James Cameron me fez lembrar Welles e Stroheim

by Pedro Henrique Gomes
 
James Cameron me fez lembrar Orson Welles. Welles me fez lembrar Erich von Stroheim. Então com 25 anos, Welles era recém-chegado na mais famosa indústria cinematográfica do mundo, mas mesmo assim conseguiu assinar o contrato dos sonhos – e acabou fazendo história. O estúdio responsável por essa loucura, que dava liberdade total ao diretor, foi o RKO, que acabou quase cedendo à pressão do magnata (leia-se “dono” de Hollywood na época) William Randolph Hearst, que tentava a todo custo destruir os negativos originais do filme de Welles. Esse contrato que Welles conseguiu assinar com um grande estúdio remete a liberdade criativa que Erich von Stroheim não abria mão de ter em seus projetos. Stroheim era um megalomaníaco. Mantinha um relação estreita com os estúdios e seus produtores, uma guerra franca. Quando finalizava Greed (1924), exigia que o filme mantivesse às 7 horas de duração planejadas na montagem, mas acabou cedendo e o final cut resultou em pouco menos de duas horas de metragem. Depois dirigiu Gloria Swanson em Queen Kelly (1929), no filme que sepultou de vez suas exigências perante seus produtores, pois o filme, de orçamento pomposo e de bilheteria minúscula, fez os grandes estúdios passarem a dizer não a suas vontades.

Mas Hollywood sempre manteve uma queda por Stroheim. O diretor acabou voltando para, quatro anos mais tarde, filmar Hello, Sister (1933), seu primeiro e único filme sonoro. Não emplacou. Stroheim encerrava sua carreira de diretor. Trabalhou com Jean Renoir em A Grande Ilusão e depois foi indicado ao Oscar como coadjuvante pelo seu trabalho (vigoroso) em Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, que sobre Stroheim disse se tratar de um homem 10 anos a frente de seu tempo.

Faço uma analogia com James Cameron e o estrondoso sucesso de Avatar, que coloca seu nome entre os mais visionários do cinema. Cameron é também um perfeccionista e um megalomaníaco. Trabalha com os estúdios e tem bastante respaldo deles – às vezes com mais liberdade, às vezes com menos, faz parte do jogo. No caso de Stroheim, sua maior virtude (essa sede por grandes produções autorais) acabou aniquilando sua carreira. Ele era visto como um transgressor. Já Cameron, no entanto, tem a mesma ambição que tinha o finado mestre, mas com o adendo de que os estúdios triplicam suas receitas com as bilheterias a cada lançamento seu. Cameron é uma mina de ouro. Tem visão, ambição, respeito e liberdade – pode mesmo produzir seus filmes e controlar os gastos. A esta altura dificilmente cairá no limbo, pois alguém dúvida do potencial comercial do seu próximo filme – mesmo sem saber que filme será este -?

Já foi dito que Stroheim nasceu cedo demais. Tivesse ele fazendo filmes nos dias de hoje provavelmente estaria fazendo bom uso dos recursos tecnológicos. Particularmente, não concordo inteiramente com esse argumento. Acredito que os filmes de Stroheim não teriam sobrevivido na indústria contemporânea, pois eram muitos stroheimnianos, isto é, abordariam questões “pouco interessantes” para o público de cinema de hoje. Já Cameron sim. Esse faria filmes de sucesso em qualquer tempo.

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