01st Feb2010

Adeus

by Pedro Henrique Gomes
 Chega a ser assustador o talento do olhar que alguns cineastas trazem do berço sobre o mundo em que vivemos, sobre o mundo de hoje. A realidade monstruosa da vida humana é assunto para poucos intelectos. Alguns conseguiram (Bergman, Godard) e ainda conseguem (Honoré, Almodóvar, Resnais) reproduzir isso com propriedade, outros não (Van Sant, Bruno Barreto). Ramin Bahrani, jovem diretor norte-americano, faz parte do primeiro time. E como um dos líderes. Os personagens de Bahrani, por exemplo, são complexos e humildes (e o diretor gosta de filmar em locações, invadindo o espaço público, ajudando, assim, na aproximação dos personagens para com o espectador), legítimos paradoxos de si mesmos.

Bahrani não é um diretor alienado quanto ao seu próprio cinema. Ele sabe o que quer e como o quer. A humanização de personagens é cartilha básica de seu cinema – e isso representa um frescor importante para o cinema independente norte-americano. A possibilidade de manter sua liberdade criativa – em virtude da ausência de um grande estúdio – tem seus resultados evidentes ao longo do filme. Bahrani tem a noção primordial para um cinema solto, livre de amarras, de muletas. Por preocupar-se exclusivamente com as relações humanas e as dinâmicas que lhe conferem dramaticidade, não abrindo seu filme gratuitamente apenas para empregar a marca “de autor”, Bahrani constroi histórias com um pé na simplicidade narrativa e outro na inteligência de um exímio contador de histórias.

A característica mais marcante de Bahrani, diretor de apenas 4 longas que já conseguiu atingir um nível de introspecção que costuma levar muito mais tempo a diretores menos tarimbados, é a alegria genuína de seus filmes. O tom de seus filmes é sempre sóbrio, com poucos espaços para a psicologia e muitos para a experiência subjetiva na relação espectador-personagem. O equilíbrio das sequências, na transição de uma para outra, também reflete na elegância da fruição narrativa. O uso da câmera como elemento onipresente, estando ali apenas porque tem que estar, sem firulas, demonstra ainda mais esse domínio do diretor – que raramente explora ângulos inusitados, pois prefere colar a câmera em seu personagem para tirar dele o universo em que vive e mostrar para o público. São essas pequenas atitudes que demonstram a maturidade de um grande filme.

Man Push Cart, um dos filmes anteriores do diretor, já contava uma história de um imigrante, Ahmad, um roqueiro paquistanês, que, para levar uma vida confortável em Nova York, vivia de pontes em emprego e outro. Aqui, o protagonista é Solo (Souleymane Sy Savane), também um imigrante, mas desta vez senegalês. Solo trabalha como taxista, e é assim que somos apresentados a ele na sequência de abertura de Adeus. Dentro do táxi está William (Red West), um passageiro de poucas palavras e tez estranha. William quer que Solo leve-o a um lugar montanhoso em uma viagem só de ida, e para tanto lhe oferece mil dólares.

Em uma lição que parece ter sido tomada de Hitchcock, Bahrani trabalha com as expectativas do espectador e não como se o clímax fosse o mais importante de tudo. O cineasta não simplesmente conduz seu filme rumo ao desfecho. O feito aqui é de outra grandeza. Bahrani encontra no filme uma explicação para tudo sem precisar explicar nada. Algumas informações sobre o passado (e o presente) dos personagens nos são dadas apenas por brechas para deduções deixadas pelo diretor. Adeus aposta no silêncio de algumas cenas porque acredita no poder de suas imagens. Filmes assim, com tamanha simplicidade e ao mesmo tempo tão completos e críveis, são filmes de grandes diretores. Se o final é aberto é porque os personagens são vazios, não porque a contemporaneidade do cinema tem assim rezado. Esse panorama subversivo do mundo de hoje que Bahrani constroi com a ajuda de dois personagens emblemáticos – em especial Solo, que ganha a graça e a simpatia pelos traços de Souleymane – é o grande trunfo deste filme.

(Goodbye Solo, EUA, 2007)
Direção de Ramin Bahrani
Roteiro de Ramin Bahrani
Com Red West, Souleymane Sy Savane

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