17th Jan2010

Avatar

by Pedro Henrique Gomes
Estamos vivendo a Era da tecnologia digital, onde celulares reconhecem movimentos e rostos e a profecia futurista do escritor Philip K. Dick, tornada matéria-viva nas mãos de Steven Spielberg em Minority Report, parece cada vez menor diante de tudo que ainda está por vir. As profusões da conexão instantânea e do contato distante imediato estão cada dia mais complexas e multifuncionais. A distância de um novo mundo já é praticamente inexistente. O futuro é hoje. Avatar chegou aos cinemas para provocar uma revolução (não somente pela inovação tecnológica, como será dissecado nesta análise), assim como fez a chegada do som e da cor – no início do século passado para o primeiro e já na Era de Ouro de Hollywood para o segundo caso. O objetivo de James Cameron não é o da experimentação, e sim da definição, da consagração de um padrão. Este não é um filme de Michael Bay ou Roland Emmerich.Encarar Avatar pura e simplesmente para contemplar suas proezas tecnológicas é reduzi-lo a uma mera máquina de contentamento massivo. O roteiro que Cameron escreveu ainda antes de Titanic (1997) é mesmo uma raridade onde tudo funciona à perfeição, pois o diretor sabe o que quer e os limites outrora impostos pelo tempo hoje lhe garantem liberdade plena. Interessante também que, tendo sido escrito há quase 20 anos, o filme consiga ainda surgir com um frescor exuberante, tanto pelos adereços proporcionados pela tecnologia empregada quanto pela história, que não somente comove por retomar o velho classicismo narrativo no campo das ficções, mas também pela própria invenção de um planeta novo, partindo do zero absoluto, onde esse mundo torna-se palpável. É mesmo um orgasmo visual!

O mundo que somos convidados a habitar é Pandora, um planeta distante consumido pela sua própria exuberância, onde a flora e a fauna vivem sob constante e reluzente harmonia. Neste planeta vivem os Na’vi, raça humanóide de cultura e língua desconhecidas para os terráqueos. Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-militar paraplégico que é levado para Pandora para infiltrar-se entre os Na’vi para informar o exército invasor sobre uma riqueza existente no planeta – uma espécie de petróleo extraterreno, na primeira metáfora do filme sobre as constantes invasões norte-americanas sob outros países em busca do imperialismo – não diretamente sobre a questão do Iraque, mas que indiretamente chega à boa hora, afinal o roteiro foi escrito muito antes de Bush assumir o governo dos EUA, mas sobre toda a história ianque nas guerras, e aí entra a Guerra do Golfo e o Vietnã, por exemplo.

A figura feminina também marca forte presença no filme através das feições de Sigourney Weaver, que vive a cientista Grace (que realmente lembra Ripley, a figura mítica que ela interpretou em Aliens, principalmente nas passagens do corpo-físico para o corpo-mental de seu avatar). Stephen Lang surpreende ao conquistar, aos poucos com o desenvolvimento de seu personagem, um espaço entre os grandes vilões do cinema nos últimos anos. Sam Worthington, que chegou à grande indústria de soco e parece cada vez mais à vontade nela, convence mais uma vez. Jake é um personagem já carimbado como ícone desde seu surgimento ao sair de sua cápsula e vislumbrar a imensa nave espacial em que se encontrava.

Todos os clichês existentes na história do cinema aparecem aqui revigorados, como se Cameron desejasse ensinar à maioria de seus colegas cineastas (que parecem totalmente alienados quanto ao mundo em que vivem) que efeitos visuais bem conjugados enxergam no mais clássico dos enredos seu melhor parceiro. Também não surpreende a potência com que o filme se encaminha para seu desfecho, em outra metonímia de Cameron quanto à triste convenção criada pelos “artistas” (Gus Van Sant, Lars Von Trier, David Lynch) do cinema contemporâneo que pensam que todo o filme necessita de um final aberto para ser contemplado. Nada mais careta que isso, afinal. Um filme, assim como toda a obra de arte, já é naturalmente aberto desde sua alvorada.

Ao retratar a história do amor impossível, da união de dois corpos distintos, Cameron caminha sob terreno bastante caro a outros cineastas, mas que em suas mãos tem a fluência de uma ópera. O perfeito enlace entre as cenas, onde os meios justificam os fins, absorve o espectador diante de sua agilidade. Cada sequência representa uma ação necessária, e não simplesmente uma brecha para o uso da tecnologia – não é este o objetivo do 3D para Cameron. A proposta é da imersão total, tanto na forma quanto no conteúdo. É por estes motivos que Avatar é uma obra tão interessante. Por essa combinação potente entre entretenimento de qualidade (pois entretenimento e experiência sensorial todos os filmes são, por isso o friso no adjetivo) e cinema autoral. Não sabendo que era impossível, ele foi lá e vez. A frase de Cocteau serve à perfeição para James Cameron e seu filme, pois torna palatável a ideia de que ele é mesmo o “Rei do Mundo”.

(Avatar, EUA, 2009)
Direção de James Cameron
Roteiro de James Cameron
Com Sam Worthington, Zoë Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver

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