21st Nov2013

Diálogo – #1

by Pedro Henrique Gomes
fantasmasdacidade2

Fantasmas da Cidade (Daniel de Bem, 2013)

Não foi possível escrever antes sobre o início do Diálogo de Cinema, festival em primeira edição que acontece desde terça-feira cá em Porto Alegre. Para não ir muito longe: a cidade precisa dessa movimentação e a cinefilia, também ela, deve sair do quarto e dos fóruns virtuais de vez em quando. Há competitiva e outras mostras, muitos filmes e debates. Em Porto Alegre, 2013 foi (está sendo) um ano bom para quem gosta de filmes. Por força das circunstâncias, não fui à abertura, quando passou o longa Dromedário no Asfalto, do Gilson Vargas. Fui ontem, no início da exibição dos curtas. O festival segue até domingo.

Agora, os filmes. Dos dez que passaram ontem, destaco três, a partir da ordem em que foram exibidos. Infelizmente, ao contrário do que gostaria, não consigo escrever mais que breves linhas, tampouco sobre outros filmes que merecem atenção. Os dias estão um pouco perversos.

– O primeiro é o Fantasmas, do André Novais Oliveira. É a corporificação da máxima fulleriana no Demônio das Onze Horas de Godard: o cinema é um campo de batalha. O filme tem uma dinâmica interessante, é agressivo. Gosto disso. Enquanto dois amigos conversam, observamos o trecho de uma rua, um posto de esquina, as coisas fluindo. Tem um mistério ali. O interessante é que quando descobrimos o que motiva o rapaz a filmar aquela esquina e a esperar algo, o que importa é o que acontece no extracampo, isto é, do lado de cá da imagem. O que se revela é um detalhe. Em síntese, é um filme que justifica bem a essência da imagem (jogando sobre ela o olhar angustiado do espectador) e da fala (todo o texto é bem articulado, sem rodeios).

– O segundo, do Daniel de Bem, também fantasmas, mas Fantasmas da Cidade. Já tinha visto, mas o filme cresce na revisão. A concepção dos planos é o que mais me chama atenção. No debate, surgiram nomes sobre referências possíveis: Jim Jarmusch, Gus Van Sant, Hal Hartley, James Gray. O trabalho de relacionar os filmes, propor semelhanças e apontar diferenças é perigoso, pois podemos facilmente ir no contrapé de tudo o que foi pensado pelos realizadores e viciar a subjetividade. Nesse caso, a crítica é um campo minado. De qualquer maneira, pensando um pouco agora, se fosse entrar na brincadeira poderia dizer que o Daniel é um premingueriano, ainda que não saiba que o seja, o que é ainda melhor. Explico a provocação: no preto e branco, Preminger era um cineasta das sombras e dos contrastes, muito mais do que da luz e da evidência. Basta ver Bunny Lake Desapareceu, Passos na Noite e Êxtase de Amor. Acho que uma das virtudes do filme, em termos de imagem bruta, passa por aí.

– O terceiro é Pátio, do Aly Muritiba. No final se utiliza de um clímax um pouco apressado para “fechar” tudo o que se criou antes. Mas não deixa de ser um filme que exprime firmezas: de identidade, de percepção da imagem, de inscrição do discurso no espírito de uma fruição prazerosa de acompanhar. Aqui, o quadro cinematográfico é um espaço gigantesco que comporta transbordamentos, ações e narrativas variadas.

Agora chega que preciso voltar aos filmes.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *