04th Nov2013

Gravidade

by Pedro Henrique Gomes

gravity2

mise en scène no infinito?

A justiça da imagem é mesmo ingrata. O espectador de cinema utiliza de suas armas para, ainda que imóvel, tentar avançar nas consequências de um ato. Ato que sempre é um desafio a um só tempo mediado pela consciência e, paradoxal que seja, amigo do sonho. Levando em conta a intensidade da ação e do momento, estar lá é a mesma coisa que ter a sensação de estar lá. Não há necessidade da aflição com o real ou com a verdade possível. Não há espaço para ilusões senão aquelas dos nossos sentidos. Por outro lado, é também com certa frequência que nos apropriamos do vocabulário da Física (força, energia, potência, cinemática e aquilo que lhe é crucial, o tempo), disciplina rigorosa, para descrevermos a tal experiência do cinema e suas variantes estéticas. Como cinema que é, Gravidade chega bebendo dessas fontes, alterando entre os estados de uma relação que só pode se estabelecer através de uma vibrante suspensão do juízo. É só quando abandonamos os sentimentos prontos que os sentidos podem tomar conta de tudo. Grosso modo, essa é também a pressão que Ryan Stone (Sandra Bullock) vai enfrentar ao longo do filme para vencer o mar, o fogo e o nada quando a estação espacial na qual trabalhava é destruída.

Alfonso Cuarón tenta justamente fazer convergir toda essa composição ritual criadora de formas e modelos. Como boa parte de seus pares, não sai da aventura sem os arranhões que acompanham a encomenda, mas sobrevive. Há uma carga de interesse em acompanhar aquela “breve história da desavença” entre um corpo e milhares de objetos que não se importam em passar o resto dos dias chocando-se uns contra os outros. A estética do PlayStation, que Cuarón não abandona desde Filhos da Esperança, não é si um problema, mas antes registro sintomático do método de operação das tensões através do qual o olho contemporâneo prefere apreender as coisas, relacionar as ficções. Ao fim e ao cabo, a mise en scène é a expressão de um modo simples de reconhecimento de que há, de fato, um perigo cercando a ação e guiando a experiência. É toda ela organizadora desses objetos, como eles vêm e de onde, para onde vão e o que movimentarão no percurso. Mas antes é preciso deixar de lado toda essa nossa ciência, essa vontade cientificista de desvelar tudo, isso a que chamamos ingenuamente de conhecimento. Um profeta poderia dizer que é mais uma tentativa de ver como o Universo nos percebe e menos sobre como nós o percebemos.

Aqui e ali, Cuarón fraqueja, mas apesar da evidência de que existe, com todas suas manhas e esquemas, uma estrutura narrativa no centro da produção hollywoodiana da qual Gravidade é cria, talvez seja prudente dizer que inclusive seus clichês são pequenos, ficando sempre solapados por aquilo que, num gesto de humildade e reverência, de longe é o grande interesse do cineasta: filmar as coisas. Basta notarmos como os planos da Terra não querem levar o mistério para longe do clima de medo e agonia estabelecido desde o início. Aliás, se o filme é sobre alguma coisa, é sobre-viver. A astronauta não é mais a figura que precisa derrotar um inimigo maior, é só alguém que não quer morrer no espaço e no tempo.

Não existem elipses temporais longas, todo corte é uma piscadela. O tempo (dos planos, de um rosto, de um diálogo, de uma visão da Terra) escorre e os medos virtualmente se acumulam, o oxigênio cessa, o corpo esfria e a Razão revela seus limites. Cuarón pretende cercar o espectador, tirar dele também o ar, pulverizar as saídas para que não apareça outra preocupação além daquela que é assumida desde o início, ou seja, a sustentação, sob bases assumidamente frágeis, de um olhar assustado. Seus piores momentos, alguns francamente infantis para um filme que no resto do tempo é puro sangue, são precisamente aqueles que se pretendem reveladores de um discurso alusivo ao renascimento da protagonista (a posição fetal, o alcance da superfície no mar e, já em Terra, a necessidade de se acostumar novamente com o peso do próprio corpo). É preciso ainda dizer, também no contrapé das armaduras de argila da crítica, que o sabor maior que tem o filme é fruto exatamente desse seu desprezo pelo gigantismo intelectual, isto é, por sua completa negação de qualquer perspectiva de sustentar uma reflexão sobre a insignificância da espécie diante do universo – desejo compartilhado pelos analistas apressados, sedentos por “profundidade dramática”. A representação dessa pequenez, se ela existe aqui, está no fato de que, devido a nossa mediocridade, sequer somos capazes de pensar nisso. Viés epistemológico quase ao contrário, de não saber que não sabemos.

Ora, é claro que a astronauta tem um passado, tem uma história, mas isso não ganha mais que um registro contextual. A forma prescinde de psicologismos, inclusive toda tensão do filme é conduzida por essa constante obra do acaso e do desconhecido, articulada a partir dos buracos negros e do vácuo, isto é, da ausência de qualquer possibilidade de salvação externa, de intervenção divina. Tem menos a ver com outros filmes cujo lugar da encenação não é a Terra e que se propuseram a disputar algumas questões (2001, Apollo 13, Solaris) e mais proximidade com certa paisagem de um horror poético onde o drama que se oferece é basicamente o da sobrevivência em um ambiente hostil. Não é como se fosse possível surfar no espaço, como naquele plano milagroso com que John Carpenter encerra Dark Star, seu primeiro filme – mas que é sobretudo um filme racional, no contrafluxo da evidente experiência emocional que move Gravidade. Cuarón fez um filme que não é em torno daquilo que há, mas daquilo que falta. Catalisador e perigoso, movido a truques e armadilhas, esse é o gene egoísta do espaço do cinema e do Espaço ele mesmo, se podemos assim dizer.

(Gravity, EUA, 2013) De Alfonso Cuarón. Com Sandra Bullock, George Clooney, Eric Michels, Basher Savage.

Publicado originalmente no Zinematógrafo.

4 Responses to “Gravidade”

  • Excelente roteiro, efeitos visuais e sonoros fiéis à realidade, fotografia encantadora, além de uma direção superando os limites do impossível. Pessoalmente falando, amo o meu país, mas confesso que tenho mais orgulho em ser latino-americano do que ser brasileiro, e testemunhar o que Alfonso Cuaron fez pela sétima arte só engrandece essa minha satisfação, visto que só a ideia em si do filme já não era brincadeira, e ainda colocá-la em prática e reunir as pessoas certas reproduzindo uma obra impecável em todos os sentidos é de se encher os olhos. O tempo irá dar a Gravidade a importância que o filme merece, independentemente dos prêmios que pode vir a vencer.

  • Muito boa a pergunta que inicia seu texto, Pedro. Não sei se viu: no último texto do blog que David Bordwell e Kristin Thompson mantêm, ela argumenta que Gravidade é um filme experimental: http://www.davidbordwell.net/blog/2013/11/07/gravity-part-1-two-characters-adrift-in-an-experimental-film/ É um argumento curioso, mas muito interessante.

    No entanto, sua questão sobre a mise-en-scène no infinito é uma ótima forma de começar a discutir o assunto anunciado do próximo post dela sobre o filme: o estilo. Eu mesmo pensei em arriscar algumas linhas sobre Gravidade, que ainda é provável que venha a escrever, tratando basicamente do problema do espaço na encenação. À “geografia criativa” (termo de Kuleshov) da montagem clássica, Gravidade parece contrapor uma espécie de geografia alucinatória, em que o todo nunca chega a se completar, reduzindo-se a uma série de pedaços fragmentados que os planos dão a ver, a cada vez. E o todo espacial da diegese não se forma porque a encenação ocorre na abertura infinita do universo.

    • Não cheguei a ler todo o texto da Kristin, mas já vi que ela publicou a parte 2. Vou ler com calma. De qualquer forma, a provocação é boa.

      Queria ter avançando mais na questão do espaço, mas acabei não fazendo isso pois tinha limitação (justamente) de espaço onde o texto foi publicado originalmente. Pretendo ainda voltar ao filme e também espero ler mais ideias suas sobre o filme.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *