05th Aug2013

Todos os carnavais começam dentro de nós mesmos

by Pedro Henrique Gomes
zinematografo1 capa

Desenho de Anelise De Carli

Nascido das trevas de nossos íntimos, esbugalhado no interior de nossos corpos, o Grande Carnaval vai sempre explodir, agora ou depois, para o mundo dos que não dançam nele. Nosso carnaval, que começa comezinho, alegórico não é, pois bem sabe o caminho intestinal a percorrer em direção ao crepúsculo da vitória. Ele vai formigando-nos por inteiro, comendo nossos vazios: preenche-se de nós mesmos e de outros; vários. E então é esculpido: carne à vista, pentelhos à disposição de um qualquer, seus poros vertendo suor e lágrimas. Sem ambições de perfeição, coisa que considera presunção dos ingênuos. Mas deixa estar. É incorrigível, irrefreável, ressacado, cuspido. É mesmo um catarro. Os catarros, vocês sabem, quando os sentimos, não é saudável guardá-los para o jantar. Eles se alojam no inconsciente e comem nossos cérebros. Não aceitam conselhos. Melhor não abortá-los.

Tal qual uma gozada, eles se apoderam de nossa sustância (paradoxo: ela é firme e frágil no mesmo tecido) para depois irem embora como se nem nos tivessem conhecido. Mas sabemos que é bom assim. O Grande Carnaval é sempre um extermínio e uma renovação. É preciso deixar fruir, desaguar, sangrar. A luta travada nos carnavais é, antes, potencializada por seu caráter ingovernável, embora plenamente concebido, isto é, afora qualquer aparelhagem, essa luta se constroi nos caminhos. Como um organismo que é, o Grande Carnaval precisa sempre habitar um pensamento (afinal é um vírus!), germinar lá, até que venha a Grande Corrente, sua irmã, e o coloque aos olhos dos comuns. Não deixa doença, não deixa rastros de dor. Dele, quero dizer, do Grande Carnaval, tudo que fica é a paixão da existência dos comuns. Após a explosão, imediatamente após a explosão, os microcarnavais, habitantes invisíveis abaixo de nossa pele, constituirão o carnaval maior – esse aí do qual falamos.

Tudo corre e a todos persegue, influente e estimulante, quão mais duradoura é sua chama. Como num transe xamânico (o xamã tem o poder de ver no escuro, fala com quem não mais podemos falar), o procedimento e sua experiência se confundem, mas há alguma coisa lá, podemos sentir. Há pulso. As energias se curvam diante de sua força, os medos plastificam-se quando conseguem captar as ondas magnetizantes do Grande Carnaval, que jorram para todos os lados. Uns tentam fazer dele coisa que não é, contam anedotas, ficcionalizam o jogo, bordam artifícios de infância. Mas já aviso: vão perder. Ele vem sem pedir favores, pretende mesmo é operar uma transubstanciação nas negociabilidades dos futuros corpos nos quais habitará. Todos serão invadidos, pois a bruma é fina, invisível, esfumaçante. Escapar é só o adiamento de uma agonia coletiva. Os espíritos perseguem, belos e solidários.

Antes e durante o fluxo através do qual ele ganha forma, há beliscadas, rusgas, fricções. Tudo normal, aceito por todos. Mas é sabido que o caminho é assim mesmo, esburacado, esfumaçado, por vezes perigoso e obscuro. Os microcarnavais querem é mais. Na sombra eles amalgamam-se, transam, trançam, fortificam suas mutações. Crescem do nosso calor, com o nosso calor. De início, uma vez lá fora, chocam-se com a irreversibilidade dos que lhes negam passagem. Uma pequena confusão se cria, e é bom que assim seja. Logo entendem as oposições: delas fazem mais letais suas armas. Saboreiam as diferenças, as contradições. Não há pressa, não pode haver precocidade, pensam. O embate enrijece a coesão da sobrevivência, mas deixa livre a criação, a direção, a articulação, a poesia, a transpiração. Os carnavais que nos habitaram viraram “coisas do mundo”, popularizaram-se. Agora precisam novamente recobrar o fôlego. Para isso voltarão a parasitar outros-alguéns. Sintam.

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