11th Apr2010

Invictus

by Pedro Henrique Gomes

De uns anos pra cá Clint Eastwood deixou de fazer filmes sobre pessoas. O último havia sido Menina de Ouro (que lhe deu o Oscar de melhor diretor), onde a tal menina do título é uma lutadora de boxe, que ganhou os traços elegantes de Hilary Swank. Antes dele podemos listar Sobre Meninos e Lobos, Os Imperdoáveis, As Pontes de Madison. Passou a registrar a vida, de períodos históricos (A Conquista da Honra e Carta de Iwo Jima) a uma história real sobre a perda familiar (A Troca). Esboçou algo mais próximo de uma análise do ser humano em Gran Torino, um dos filmes mais completos de sua linda carreira, mas que não é exatamente sobre alguém e sim sobre algo – sobre o amadurecimento, dirão alguns. Em Invictus, seu mais recente trabalho, Clint manteve a mesma linha, mas não esqueceu como criar um bom filme.

Clint já versou sobre o horror com os irmãos A Conquista da Honra e Carta de Iwo Jima, dois filmes em que a situação histórica registrada, como sabemos, caminha rumo ao precipício. Invictus é exatamente o oposto disso. Em uma daquelas cenas de abertura de cair o queixo (em uma demonstração clássica de sua eficiência narrativa), Clint nos diz sobre o quê se trata seu filme. De um lado de uma rua, negros jogam futebol. Do outro lado, brancos digladiam-se no rúgbi. O treinador do time de rúgbi, ao ver passar a comitiva com o presidente Nelson Mandela, recém saído da prisão, deixa escapar seu ideal de que o país entrará em colapso a partir dali, rumo a ruína, ao desgosto. Era o início de uma grande mudança para aquele país.

É o filme de um cineasta consciente de seu espaço enquanto artista e do assunto a ser abordado: Clint não quer endeusar Mandela, apenas registrar a trajetória ímpar de um homem também consciente (assim como Eastwood) daquilo que é possível realizar. É um filme de grandezas – dentro e fora das telas. O Mandela vivido por Morgan Freeman é místico, bondoso e sempre tem algo a sábio dizer. É mesmo um grande homem, o Mandela. Um herói estóico, a frente de seu tempo. Mas a maior saliência de Invictus é sua discrição. Não existem conflitos paralelos para Mandela enfrentar – o único adversário do presidente é o preconceito.

As cenas dos jogos da seleção africana são desmedidas de pobreza gráfica, é tudo muito bonito. As panorâmicas durante os jogos são lindas. É mesmo um filme plasticamente maduro, enriquecido pela experiência de mais de um século de carreira no campo cinematográfico. Clint, com o passar do filmes, começou a demonstrar maior cuidado com a construção cenográfica (digamos que a partir de Sobre Meninos e Lobos), engrandecendo-as ainda mais com a fotografia, que passou a ganhar os olhos do espectador que antes só enxergava os personagens brucutus pronunciando suas frases brucutus.

Como a sequência de cortes onde Mandela caminha com seus seguranças à noite e um furgão anda solitário pelas ruas, numa tentativa um pouco fora de contexto para se criar suspense – usando as perseguições ao futuro presidente logo após deixar a prisão. Em outro momento, um tanto patético, aliás, Clint utiliza o voo rasante de um avião sobre o estádio para provocar momentos de uma aparente ameaça terrorista. Não são posturas de um Clint objetivo, como foi durante o restante do filme, onde construiu, praticamente sem percalços, representar a trajetória da nova vida de Mandela pós-prisão. Quando abre mão de certos malabarismos narrativos e organiza seu filme de maneira a potencializá-lo, Clint faz um filme de Clint.

Invictus (Invictus, EUA, 2009)
Direção de Clint Eastwood
Roteiro de Anthony Peckham, baseado em livro de John Carlin
Com Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Patrick Mofokeng, Matt Stern

12th Feb2010

Amor Sem Escalas

by Pedro Henrique Gomes
Jason Reitman consegue neste seu terceiro longa-metragem mais uma vez esboçar uma ideia pertinente sobre o mundão em que vivemos, nossas virtudes e nossas infelicidades.  É um projeto de cinema que garante boas discussões acerca do assunto. Ainda mais que o diretor tem uma visão muito interessante sobre o quê e quando abordar determinado tema. Amor Sem Escalas, assim como Juno, fala da contemporaneidade. Apesar disso, há algo cheirando a mofo neste novo filme de Jason Reitman.

Ryan Bingham (Clooney) é um funcionário de uma empresa que faz o serviço que poucos executivos se animam: demitir pessoas. Ele viaja pelos EUA procurando a melhor forma de dizer você está demitido. Em seu charme, em seu cinismo, reside na verdade um homem solitário, um homem vivendo no vazio. Seu maior prazer são suas viagens e seu objetivo maior é completar 10 milhões de milhas aéreas e assim se tornar a terceira pessoa a atingir tal marca. De repente surgem duas mulheres em sua vida. A primeira também é uma viajante, Alex (Vera Farmiga). Ryan envolve-se com ela naquele tipo de relacionamento casual. Depois surge a ameaça de que suas viagens não serão mais necessárias com a chegada de uma nova funcionária na empresa, Natalie (Anna Kendrick), que traz consigo uma proposta de demissão via vídeo-conferência, o que dispensaria as despesas com viagens.

Os primeiros instantes do filme são magistrais, quando colocam o espectador em encantadora sintonia com Bingham. Através de um bonito jogo de plano/contraplano, há uma leveza agradável no filme mesmo que o subtexto seja uma crítica social pouco sutil. Ao mesmo tempo, Reitman posiciona seu filme de maneira a enriquecê-lo. Ao invés de tudo contar, o diretor deixa muitos vazios (analogia ao vazio de Bingham?) para serem preenchidos pela platéia. Isso valoriza o filme, pois dá um trabalho extra ao espectador: imaginar, conjurar ou até mesmo criar um passado para o personagem e buscar compreensão do que verdadeiramente acontece com aquele homem solitário. O problema é que gradativamente o filme vai saindo do compasso e vira um carro desgovernado.

Constantemente às falas atropelam-se, os cortes são abruptos e as cenas muitos curtas – o objetivo transforma-se em escapismo. O diretor parece rendido às amarras do formalismo – algo natural e até compreensível em se tratando de um diretor como Reitman, pouco transgressor. Parece, também, estar perdido quanto ao seu próprio assunto, seu objetivo. O filme que começa não é o mesmo que termina. A sagacidade de uma comédia dá um lugar a um dramalhão dos mais canalhas, com direito a toda aquela ladainha sobre a família e as lições de que jovens aprendem com os mais experientes – e vice-versa. E aqui o filme perde-se totalmente. Onde foi parar a subversão do início do filme? Sua visão crítica sobre o estado das coisas acaba limada pela maneira com que o vai e vem do roteiro carrega as emoções. Ora comédia dramática ora romântica. Ao mesmo tempo em que esse jogo de sensações deixa certo suspense no ar (o que é bom), por nunca sabermos o que esperar, desequilibra a narrativa.

Nas interpretações, temos no potencial de expressões que Vera Farmiga nos entrega na construção de sua personagem o grande destaque do elenco – que ainda traz um George Clooney inspirado. Farmiga respira elegância ao compor uma personagem que acaba ganhando cada quadro ao entrar em cena. Já Anna Kendrick, a outra mulher que surge na vida de Ryan, não tem o mesmo encanto. Sua personagem surge apenas para martirizar e ensinar lições a Bingham e, quando esta tarefa é cumprida, ela some do filme abruptamente. O filme esquece totalmente da personagem – não sem antes fazê-la executar uma cena melada onde Kendrick cai num choro feio e anticlimático, numa espécie de confissão com o “casal” Bingham e Alex. Apesar de isso resultar em mais tempo para o desenvolvimento protagonista, mostra certo desespero do texto em usar uma personagem apenas para cumprir determinada função – de maneira tão ignorante e explícita.

Mas a coisa começa a ficar feia mesmo no final, justamente quando a Natalie de Kendrick sai de cena. A partir daqui Amor Sem Escalas, que já esboçara um interesse por um tema bom para discussão, vira um dramalhão. Aos gritos, o filme de Reitman exclama que a vida é assim, vazia, que precisamos construir uma família para sermos pessoas de alma completa. Mas, mesmo com uma visão interessante, mesmo que revigorada por um olhar atento, a partir do momento em que Reitman começa a discursar, a dar aulas e lições a platéia, ele faz um filme ruim.

(Up in the Air, EUA, 2009)
Direção de Jason Reitman
Roteiro de Jason Reitman e Sheldon Turner
Com George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick

10th Feb2010

James Cameron me fez lembrar Welles e Stroheim

by Pedro Henrique Gomes
 
James Cameron me fez lembrar Orson Welles. Welles me fez lembrar Erich von Stroheim. Então com 25 anos, Welles era recém-chegado na mais famosa indústria cinematográfica do mundo, mas mesmo assim conseguiu assinar o contrato dos sonhos – e acabou fazendo história. O estúdio responsável por essa loucura, que dava liberdade total ao diretor, foi o RKO, que acabou quase cedendo à pressão do magnata (leia-se “dono” de Hollywood na época) William Randolph Hearst, que tentava a todo custo destruir os negativos originais do filme de Welles. Esse contrato que Welles conseguiu assinar com um grande estúdio remete a liberdade criativa que Erich von Stroheim não abria mão de ter em seus projetos. Stroheim era um megalomaníaco. Mantinha um relação estreita com os estúdios e seus produtores, uma guerra franca. Quando finalizava Greed (1924), exigia que o filme mantivesse às 7 horas de duração planejadas na montagem, mas acabou cedendo e o final cut resultou em pouco menos de duas horas de metragem. Depois dirigiu Gloria Swanson em Queen Kelly (1929), no filme que sepultou de vez suas exigências perante seus produtores, pois o filme, de orçamento pomposo e de bilheteria minúscula, fez os grandes estúdios passarem a dizer não a suas vontades.

Mas Hollywood sempre manteve uma queda por Stroheim. O diretor acabou voltando para, quatro anos mais tarde, filmar Hello, Sister (1933), seu primeiro e único filme sonoro. Não emplacou. Stroheim encerrava sua carreira de diretor. Trabalhou com Jean Renoir em A Grande Ilusão e depois foi indicado ao Oscar como coadjuvante pelo seu trabalho (vigoroso) em Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, que sobre Stroheim disse se tratar de um homem 10 anos a frente de seu tempo.

Faço uma analogia com James Cameron e o estrondoso sucesso de Avatar, que coloca seu nome entre os mais visionários do cinema. Cameron é também um perfeccionista e um megalomaníaco. Trabalha com os estúdios e tem bastante respaldo deles – às vezes com mais liberdade, às vezes com menos, faz parte do jogo. No caso de Stroheim, sua maior virtude (essa sede por grandes produções autorais) acabou aniquilando sua carreira. Ele era visto como um transgressor. Já Cameron, no entanto, tem a mesma ambição que tinha o finado mestre, mas com o adendo de que os estúdios triplicam suas receitas com as bilheterias a cada lançamento seu. Cameron é uma mina de ouro. Tem visão, ambição, respeito e liberdade – pode mesmo produzir seus filmes e controlar os gastos. A esta altura dificilmente cairá no limbo, pois alguém dúvida do potencial comercial do seu próximo filme – mesmo sem saber que filme será este -?

Já foi dito que Stroheim nasceu cedo demais. Tivesse ele fazendo filmes nos dias de hoje provavelmente estaria fazendo bom uso dos recursos tecnológicos. Particularmente, não concordo inteiramente com esse argumento. Acredito que os filmes de Stroheim não teriam sobrevivido na indústria contemporânea, pois eram muitos stroheimnianos, isto é, abordariam questões “pouco interessantes” para o público de cinema de hoje. Já Cameron sim. Esse faria filmes de sucesso em qualquer tempo.

01st Feb2010

Adeus

by Pedro Henrique Gomes
 Chega a ser assustador o talento do olhar que alguns cineastas trazem do berço sobre o mundo em que vivemos, sobre o mundo de hoje. A realidade monstruosa da vida humana é assunto para poucos intelectos. Alguns conseguiram (Bergman, Godard) e ainda conseguem (Honoré, Almodóvar, Resnais) reproduzir isso com propriedade, outros não (Van Sant, Bruno Barreto). Ramin Bahrani, jovem diretor norte-americano, faz parte do primeiro time. E como um dos líderes. Os personagens de Bahrani, por exemplo, são complexos e humildes (e o diretor gosta de filmar em locações, invadindo o espaço público, ajudando, assim, na aproximação dos personagens para com o espectador), legítimos paradoxos de si mesmos.

Bahrani não é um diretor alienado quanto ao seu próprio cinema. Ele sabe o que quer e como o quer. A humanização de personagens é cartilha básica de seu cinema – e isso representa um frescor importante para o cinema independente norte-americano. A possibilidade de manter sua liberdade criativa – em virtude da ausência de um grande estúdio – tem seus resultados evidentes ao longo do filme. Bahrani tem a noção primordial para um cinema solto, livre de amarras, de muletas. Por preocupar-se exclusivamente com as relações humanas e as dinâmicas que lhe conferem dramaticidade, não abrindo seu filme gratuitamente apenas para empregar a marca “de autor”, Bahrani constroi histórias com um pé na simplicidade narrativa e outro na inteligência de um exímio contador de histórias.

A característica mais marcante de Bahrani, diretor de apenas 4 longas que já conseguiu atingir um nível de introspecção que costuma levar muito mais tempo a diretores menos tarimbados, é a alegria genuína de seus filmes. O tom de seus filmes é sempre sóbrio, com poucos espaços para a psicologia e muitos para a experiência subjetiva na relação espectador-personagem. O equilíbrio das sequências, na transição de uma para outra, também reflete na elegância da fruição narrativa. O uso da câmera como elemento onipresente, estando ali apenas porque tem que estar, sem firulas, demonstra ainda mais esse domínio do diretor – que raramente explora ângulos inusitados, pois prefere colar a câmera em seu personagem para tirar dele o universo em que vive e mostrar para o público. São essas pequenas atitudes que demonstram a maturidade de um grande filme.

Man Push Cart, um dos filmes anteriores do diretor, já contava uma história de um imigrante, Ahmad, um roqueiro paquistanês, que, para levar uma vida confortável em Nova York, vivia de pontes em emprego e outro. Aqui, o protagonista é Solo (Souleymane Sy Savane), também um imigrante, mas desta vez senegalês. Solo trabalha como taxista, e é assim que somos apresentados a ele na sequência de abertura de Adeus. Dentro do táxi está William (Red West), um passageiro de poucas palavras e tez estranha. William quer que Solo leve-o a um lugar montanhoso em uma viagem só de ida, e para tanto lhe oferece mil dólares.

Em uma lição que parece ter sido tomada de Hitchcock, Bahrani trabalha com as expectativas do espectador e não como se o clímax fosse o mais importante de tudo. O cineasta não simplesmente conduz seu filme rumo ao desfecho. O feito aqui é de outra grandeza. Bahrani encontra no filme uma explicação para tudo sem precisar explicar nada. Algumas informações sobre o passado (e o presente) dos personagens nos são dadas apenas por brechas para deduções deixadas pelo diretor. Adeus aposta no silêncio de algumas cenas porque acredita no poder de suas imagens. Filmes assim, com tamanha simplicidade e ao mesmo tempo tão completos e críveis, são filmes de grandes diretores. Se o final é aberto é porque os personagens são vazios, não porque a contemporaneidade do cinema tem assim rezado. Esse panorama subversivo do mundo de hoje que Bahrani constroi com a ajuda de dois personagens emblemáticos – em especial Solo, que ganha a graça e a simpatia pelos traços de Souleymane – é o grande trunfo deste filme.

(Goodbye Solo, EUA, 2007)
Direção de Ramin Bahrani
Roteiro de Ramin Bahrani
Com Red West, Souleymane Sy Savane

30th Jan2010

50 livros sobre Cinema

by Pedro Henrique Gomes
Para os cinéfilos que querem “ler” os filmes de maneira diferenciada, com uma visão mais crítica sobre a história da Arte, alguns livros listados abaixo servem como guias. Para quem almeja ou já se aventura no cinema, livros como Lições de Roteiristas e Fazendo Filmes são verdadeiros professores. A lista foi elaborada sem consulta alguma (apenas algumas informações sobre as editoras), apenas com aquilo que a memória deste cinéfilo pôde resgatar, por isso não lamente se o seu livro favorito não estiver incluído – isso pode ser corrigido com sugestões nos comentários para uma próxima lista.

Alguns destes livros têm ótimas lições de cinema e grandes exercícios críticos de leitura. Portanto, cinéfilos, regozijem. A seleção não possui ordem de preferência, por isso apenas destaco os livros mais interessantes.

1. Cinema no Mundo (5 volumes, Alessandra Meleiro, Ed. Escrituras)

2. A Magia do Cinema (Roger Ebert)

3. Sobre Direção de Cinema (David Mamet)

4. Fazendo Filmes (Sidney Lumet)

5. Hitchcock/Truffaut: Entrevistas (François Truffaut)

6. Lições de Roteiristas (Kevin Conroy Scott)

7. As Teorias dos Cineastas (Jacques Aumont, Papirus)

8. O Cinema e a Invenção da Vida Moderna (L.Charney e V. Schwartz, Cosac & Naify)

9. História do Cinema Mundial (Fernando Mascarello, Papirus)

10. O Sentido do Filme (Sergei Eisenstein, Jorge Zahar Ed.)

11. François Truffaut – Uma Biografia (Antoine de Baecque e Serge Toubiana, Record)

12. Charlie Kaufman e o Lugar do Autor no Cinema (Cecília Sayad, Alameda Ed.)

13. A Ponte Clandestina – Teorias de Cinema na América Latina (J.C. Avellar, Ed. 34/Edusp)

14. A Filosofia do Horror, ou Paradoxos do Coração (Noel Carroll)

15. Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano (Martin Scorsese e Michael Henry Wilson)

16. Cinema como Prática Social (Graeme Turner)

17. Grandes Filmes (Roger Ebert)

18. Publique-se a Lenda: A História do Western (A.C. Gomes de Mattos)

19. O Outro Lado da Noite: Filme Noir (A.C. Gomes de Mattos)

20. A Outra Face de Hollywood: Filme B (A.C. Gomes de Mattos)

21. Conversas com Almodóvar (Frederic Strauss, Jorge Zahar Ed.)

22. 1001 Noites no Cinema (Pauline Kael)

23. A Fora do Filme (Sergei Eisenstein, Jorge Zahar Ed.)

24. Introdução ao Cinema Brasileiro (Alex Viany, Ed. Revan)

25. Cinco mais cinco (Luiz Carlos Merten e Rodrigo Fonseca)

26. Cinema: Entre a Realidade e o Artifício (Luiz Carlos Merten)

27. Grandes Diretores de Cinema (Laurent Tirard)

28. Por um Cinema sem Limite (Rogério Sganzerla, Azougue Ed.)

29. Cineastas e Imagens do Povo (Jean-Claude Bernardet, Cia das Letras)

30. Cinema – O Mundo em Movimento (Inácio Araújo, Ed. Scipione)

31. Um Filme é um Filme (José Lino Grunewald, Cia das Letras)

32. Num Piscar de Olhos (Walter Murch)

33. Direção de Cinema (Michael Rabiger)

34. Um Filme por Dia – Crítica de Choque ((org.) Ruy Castro, Cia das Letras)

35. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro (Glauber Rocha, Cosac & Naify)

36. Glauber Rocha – Cartas ao Mundo (Ivana Bentes, Cia das Letras)

37. Introdução à Teoria do Cinema (Robert Stam, Papirus)

38. A Estética do Filmes (Jacques Aumont, Ed. Papirus)

39. Cinema de Novo: Um Balanço Crítico da Retomada (Luiz Zanin Oricchio, Est. Liberdade)

40. Cinema Mundial Contemporâneo (Mauro Baptista e Fernando Mascarello, Papirus)

41. A Experiência do Cinema (Ismail Xavier, Graal)

42. Dicionário Teórico e Crítico de Cinema (Jacques Aumont e Michel Marie, Papirus)

43. As Principais Teorias do Cinema: Uma Introdução (J. Dudley Andrew)

44. Dicionário de Cineastas (Rubens Ewald Filho, Cia Editora Nacional)

45. Do Cinetoscópio ao Cinema Digital: Breve História do Cinema Americano (A.C. Gomes de Mattos)

46. Compreender o Cinema (Antonio Costa, Ed. Globo)

47. A Imagem-Tempo (Gilles Deleuze, Ed. Brasiliense)

48. As Estrelas: Mito e Sedução no Cinema (Edgar Morin, José Olympio Ed.)

49. Fragmentos para uma Autobiografia (Roberto Rosselini, Ed. Nova Fronteira)

50. O Cinema no Século (Ismail Xavier, Ed. Imago)

17th Jan2010

Avatar

by Pedro Henrique Gomes
Estamos vivendo a Era da tecnologia digital, onde celulares reconhecem movimentos e rostos e a profecia futurista do escritor Philip K. Dick, tornada matéria-viva nas mãos de Steven Spielberg em Minority Report, parece cada vez menor diante de tudo que ainda está por vir. As profusões da conexão instantânea e do contato distante imediato estão cada dia mais complexas e multifuncionais. A distância de um novo mundo já é praticamente inexistente. O futuro é hoje. Avatar chegou aos cinemas para provocar uma revolução (não somente pela inovação tecnológica, como será dissecado nesta análise), assim como fez a chegada do som e da cor – no início do século passado para o primeiro e já na Era de Ouro de Hollywood para o segundo caso. O objetivo de James Cameron não é o da experimentação, e sim da definição, da consagração de um padrão. Este não é um filme de Michael Bay ou Roland Emmerich.Encarar Avatar pura e simplesmente para contemplar suas proezas tecnológicas é reduzi-lo a uma mera máquina de contentamento massivo. O roteiro que Cameron escreveu ainda antes de Titanic (1997) é mesmo uma raridade onde tudo funciona à perfeição, pois o diretor sabe o que quer e os limites outrora impostos pelo tempo hoje lhe garantem liberdade plena. Interessante também que, tendo sido escrito há quase 20 anos, o filme consiga ainda surgir com um frescor exuberante, tanto pelos adereços proporcionados pela tecnologia empregada quanto pela história, que não somente comove por retomar o velho classicismo narrativo no campo das ficções, mas também pela própria invenção de um planeta novo, partindo do zero absoluto, onde esse mundo torna-se palpável. É mesmo um orgasmo visual!

O mundo que somos convidados a habitar é Pandora, um planeta distante consumido pela sua própria exuberância, onde a flora e a fauna vivem sob constante e reluzente harmonia. Neste planeta vivem os Na’vi, raça humanóide de cultura e língua desconhecidas para os terráqueos. Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-militar paraplégico que é levado para Pandora para infiltrar-se entre os Na’vi para informar o exército invasor sobre uma riqueza existente no planeta – uma espécie de petróleo extraterreno, na primeira metáfora do filme sobre as constantes invasões norte-americanas sob outros países em busca do imperialismo – não diretamente sobre a questão do Iraque, mas que indiretamente chega à boa hora, afinal o roteiro foi escrito muito antes de Bush assumir o governo dos EUA, mas sobre toda a história ianque nas guerras, e aí entra a Guerra do Golfo e o Vietnã, por exemplo.

A figura feminina também marca forte presença no filme através das feições de Sigourney Weaver, que vive a cientista Grace (que realmente lembra Ripley, a figura mítica que ela interpretou em Aliens, principalmente nas passagens do corpo-físico para o corpo-mental de seu avatar). Stephen Lang surpreende ao conquistar, aos poucos com o desenvolvimento de seu personagem, um espaço entre os grandes vilões do cinema nos últimos anos. Sam Worthington, que chegou à grande indústria de soco e parece cada vez mais à vontade nela, convence mais uma vez. Jake é um personagem já carimbado como ícone desde seu surgimento ao sair de sua cápsula e vislumbrar a imensa nave espacial em que se encontrava.

Todos os clichês existentes na história do cinema aparecem aqui revigorados, como se Cameron desejasse ensinar à maioria de seus colegas cineastas (que parecem totalmente alienados quanto ao mundo em que vivem) que efeitos visuais bem conjugados enxergam no mais clássico dos enredos seu melhor parceiro. Também não surpreende a potência com que o filme se encaminha para seu desfecho, em outra metonímia de Cameron quanto à triste convenção criada pelos “artistas” (Gus Van Sant, Lars Von Trier, David Lynch) do cinema contemporâneo que pensam que todo o filme necessita de um final aberto para ser contemplado. Nada mais careta que isso, afinal. Um filme, assim como toda a obra de arte, já é naturalmente aberto desde sua alvorada.

Ao retratar a história do amor impossível, da união de dois corpos distintos, Cameron caminha sob terreno bastante caro a outros cineastas, mas que em suas mãos tem a fluência de uma ópera. O perfeito enlace entre as cenas, onde os meios justificam os fins, absorve o espectador diante de sua agilidade. Cada sequência representa uma ação necessária, e não simplesmente uma brecha para o uso da tecnologia – não é este o objetivo do 3D para Cameron. A proposta é da imersão total, tanto na forma quanto no conteúdo. É por estes motivos que Avatar é uma obra tão interessante. Por essa combinação potente entre entretenimento de qualidade (pois entretenimento e experiência sensorial todos os filmes são, por isso o friso no adjetivo) e cinema autoral. Não sabendo que era impossível, ele foi lá e vez. A frase de Cocteau serve à perfeição para James Cameron e seu filme, pois torna palatável a ideia de que ele é mesmo o “Rei do Mundo”.

(Avatar, EUA, 2009)
Direção de James Cameron
Roteiro de James Cameron
Com Sam Worthington, Zoë Saldana, Stephen Lang, Sigourney Weaver