11th Sep2013

Nota sobre uma(s) violência(s)

by Pedro Henrique Gomes

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Porto Alegre.

Ontem fui violentamente humilhado, me permitam começar assim. Não só ontem. Com cerca de setenta pessoas, e estou sendo conservador na contagem, dentro de um ônibus lotado (já, por aí, comecem perdoando também o eufemismo) em horário de menor fluxo (passava das 19h), lá ficou um pedaço da minha dignidade. Estava no T1D sentido centro-bairro, mas poderia estar no D43 sentido PUC/Vale. Não era o trânsito (mas ele também), a Avenida Ipiranga, nos dois sentidos, fluía normalmente. A irracionalidade do sistema é explícita.

No transporte público brasileiro sofremos todos os tipos de violência, pois ela nos atravessa subjetivamente mesmo quando não a percebemos bem. Dentro das conduções de muitas cidades brasileiras, a violência a qual somos submetidos não enfrenta nenhuma revolta na imprensa maior – não só em relação ao sistema de transporte, mas contra desaparecimentos e mortes dos Amarildos, dos Ricardos… Essa é a verdadeira máscara da vergonha. Essa é a legítima vestimenta negra que deveria meter medo: ela nos consome por dentro, atropela nossos corpos. Já temos de antemão plena ciência de que seremos violentados antes de entrar no ônibus, mas entramos.

É mister dizer que não foram apenas os vinte centavos que motivaram as manifestações de junho/julho/agosto/setembro (de antes e depois), como se vinte centavos fosse pouco e como se os lucros dos altos executivos em cima do esmagamento da fruição da cidade pelos populares não fosse uma violência aberrante. É a exposição e a reprodução sistemática do estupro coletivo da dignidade de todos os usuários de um sistema de transporte opressor, excludente, que alimenta o ódio entre quem se esmaga pelos corredores. Um sistema que horizontaliza a brutalidade da grande máquina e injeta competitividade nos usuários: é uma guerra para subir primeiro e não ter de ficar de pé sendo esfregado. Todos se apertam, empurram, respiram fundo e vão de novo. Você não vai escapar.

As pessoas são coercitivamente levadas a violentar umas as outras simplesmente para não cair, para não perder o ponto, num ritmo sanguinário de disputa espacial. É a sistematização da tortura mútua, dos abusos contra mulheres que precisam se esquivar das investidas criminosas de quem quer tirar casquinha. Vidraças quebradas causam espanto e gritos contra o “vandalismo da minoria, mulheres sendo covardemente espremidas, isso não. Violento é o sistema de transporte.