12th Sep2012

Batman Eternamente

by Pedro Henrique Gomes

De pronto, o que mais chama atenção em Batman Eternamente em relação a qualquer um dos outros filmes com o Homem Morcego (incluindo as versões dos anos 1940 e 60), é o Dispositivo. Entendemos aqui como Dispositivo não só o aparato técnico do material que constitui o filme (seguindo as concepções estética e narrativa de Christian Metz), mas também toda e qualquer relação da própria técnica (câmera) com os personagens. Ora, Joel Schumacher não filma com o tom jocoso de Tim Burton (que, após dois filmes, aparece aqui como produtor), e as vezes parece não saber onde colocar a câmera e mesmo para onde levá-la: os personagens se escondem do enquadramento – naquilo que deveria haver uma contaminação, existe apenas um leque de gags gastas e tacanhas dominando a ação. Quando Schumacher acerta (Um Dia de Fúria, 1993), parece que foi sem querer.

Também era difícil, já que o roteiro de Batman Eternamente (mais família, segundo a publicidade) perde a sensualidade que permeava os diálogos dos dois filmes anteriores dirigidos por Tim Burton que, vamos dizer francamente, possuem lá suas limitações. Enquanto os anteriores roubavam dos personagens suas sensibilidades carnais (no discurso; na mise en scène), aqui eles não possuem nada a doar pois são não-personagens: o tom de voz, a luz (fotografia), o humor (!), a ação e a música só contribuem para salientar o quanto suas deficiências são latentes, pois precisam repetir as notas para formar o acorde desejável. É um erro sistemático, ativado na base da produção cultural, que desmistifica os heróis da pior maneira possível: despolitizando e tirando a crueldade do herói (paralelo no cinema mais contemporâneo é o Os Vingadores, 2012).

Quando surge na cena outro herói (Robin), o ritmo só aumenta em sua superficialidade. Sai aquela sede de explorar as personas e entra o apelo ao produto, o ridículo que antes era amigo, passa agora a significar o desequilíbrio em si. Problemas: Batman Eternamente não é um filme engraçado, a ação é uma clipagem dos piores filmes de ação dos 1980, mas sem o grito de uma época que aqueles filmes possuíam e ainda possuem. A questão parece ser, sobretudo, uma questão de texto e não especificamente de roteiro , já que a estrutura é comum o suficiente para não oferecer desconfortos ao diretor e ao montador na hora de pensar as imagens e suas posições no filme. A narrativa é de segunda mão pois aquilo que tanto importa num filme, a palavra, é mero jogo de fruição – só aparece quem fala.

Salvo por um Tommy Lee Jones inspirado pela própria extravagância de seu personagem (nota-se o tom especialmente diferente em relação aos vilões dos filmes sob o comando de Christopher Nolan) e por um Jim Carrey dançando sua música, o filme de Joel Schumacher passa lento e não convence como aventura, tampouco aparenta ser um filme família. Ora, os “filmes família” são sempre os mais cruéis.

(Batman Forever, EUA, 1995) De Joel Schumacher. Com Val Kilmer, Tommy Lee Jones, Jim Carrey, Nicole Kidman, Chris O’Donnell, Michael Gough, Pat Hingle, Drew Barrymore, Debi Mazar, Elizabeth Sanders, Rene Auberjonois, Joe Grifasi, Philip Moon, Jessica Tuck, Dennis Paladino, Kimberly Scott, Michael Paul Chan, Jon Favreau.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

05th Aug2011

Capitão América: O Primeiro Vingador

by Pedro Henrique Gomes

Porque depois da  fragilidade vem a força

O que será que faz de Capitão América – o último filme de Joe Johnston e o último herói da Marvel a ganhar um filme solo antes de Os Vingadores – um calabouço de misérias criativas, que abarca uma construção narrativa constantemente vacilante, calcada em amuletos que, para toda sorte e efeito, vangloriam a si próprios antes mesmo de reconhecer em si uma legitimidade possível. Eis o enigma, facilmente decifrado. Porque, a bem dizer, não existem personagens dispostos ao equívoco, ao tropeço (é tudo joguete, tudo função-fim), eles somente resvalam diante de certas adversidades, mas na próxima sequência já fazem as pazes com seus amigos e amores. Basicamente, os atores só leem textos em frente às câmeras, não há comprometimento algum com a fala, sentimento algum se deixa transparecer. O universo de Capitão América, anêmico como o personagem-título e inteligente como ele, se permite ser consumido por seus próprios caprichos relaxados, se esgotando já na concepção. Aliás, não pode existir um filme livre que realmente faça valer sua voz quando ele é carregado de interconexões com outros filmes e de obrigações para com um determinado público. Não há nem a expectativa pelo golpe final, nem o estado de suspensão proporcionado pelo prazer fílmico, tampouco uma agilidade rítmica mais consistente. Filme sem sentimento ou sensação difundida, afunda-se no ócio.

Velha história, essa nossa conhecida: uma cena é desculpa para a outra, erigidas apenas para demonstrar sua função de engenho, na esperança de que o espectador se curve diante de sua comiseração barata e irrelevante; diálogos talhados a frases-efeito; cortes dilacerantes dão o ritmo da aventura. Essa é proposta. Essa é a maquinaria necessária para implantar a tão exigida atmosfera. No fim, trata-se de um cinema que não invoca nada, não polui, não retrabalha, não interfere na ação, não questiona (só glamouriza) – prefere a beleza pura do pós-modernismo de um Christopher Nolan (o Nolan esteta de A Origem, não o vigoroso estreante de Following) a devassidão irreverente de um Sam Raimi (aquele da trilogia Evil Dead). Aqui, tudo gira em função de caricaturar, de tornar as imagens mais publicitárias possíveis, como a própria história que originou o filme, escrita com propósitos de propaganda, para estimular a vontade do exército, dar-lhes tesão, exatamente como o efeito de um Viagra no contemporâneo. Nesse contexto, verificamos o desleixo. O drama romântico é bobo, e Johnston não filma nada que possa fortalecer essa relação, ele deixa a câmera filmar sozinha – é abrir e pronto, o que está aí já basta.

A história é a do herói franzino, sedento pela guerra, mas que, por debilidades físicas, não consegue ser convocado para combater os alemães durante a Segunda Guerra Mundial após uma série de tentativas (com diversas identidades falsas). Steve Rogers é típico jovem que almeja conquistar uma posição de destaque na sociedade, perder a virgindade com a garota especial. As chances do menino dotado de grande bondade de realizar seu sonho se concretizam quando ele conhece o Dr. Abraham Erskine, que o convida para ser a cobaia de um projeto científico meticuloso que promete mudar sua condição física. De fato, após a transformação, o esquelético e fraco Rogers logo potencializa seu corpo, tornando-se, enfim, o Capitão América. Agora, quase indestrutível, corporificado em músculos, Steve vai enfrentar os nazistas coordenados por Hitler e, mais diretamente, o exército liderado pelo Caveira Vermelha (seu único semelhante), agora seu inimigo mortal. Além de tudo, o novo “herói do mundo” agora poderá sair com Peggy Carter, a mulher “certa”.

Mas como reconhecer e dar fé a um cinema que só distribui devoção, seja face a imagem da bandeira dos Estados Unidos (o escudo metaforiza o brio dos americanos de lá; eles têm a força, são indestrutíveis) ou ao culto ao herói, tão caro é o sonho americano para o próprio cinema estadunidense, e que jamais aplica a audácia das grandes aventuras em suas imagens? Literalmente, o Capitão América não empolga. Como validar as artimanhas desse procedimento (não se pode falar em método, pois este pede um esforço criativo do qual Joe Johnston não parece disposto a realizar) que renuncia os melhores prazeres dos filmes de aventura, aqueles sentidos na quadrilogia Indiana Jones, e, para não ficar numa evocação injusta e trazer a um período mais recente, em Hellboy, para abraçar as fórmulas etéreas do mainstream sem distorcê-las um bocado, sem deixar de venerar seus rituais e fundamentos mais básicos. Mas falamos de um filme viciado em sua própria imagem, cego de sua condição, dotado de uma encenação saturada, brochante. Sutilmente, pode-se dizer que, se os filmes de heróis tornaram-se meros rascunhos de um conjunto estético específico, então que se resolvam, sobretudo, seus problemas de estrutura, de dramaturgia e de sinergia. Irredutivelmente, nos resta contestar esta forma de arte tão improdutiva.

Pois o que norteia esses filmes anteriormente citados, igualmente criados e projetados para um grande público, é justa e especialmente um espírito desregrado, incoerente, teimoso. Capitão América (o filme e o personagem), é disposto de uma veleidade (em relação ao fazer, é submisso, padrão) permeada por um anacronismo-fantasia (na ação do filme, o passado é futurista) pouco útil à fluência narrativa, porque não encontra uma ação verdadeiramente impactante que permita o envolvimento do público para além daquele contentamento com qualquer coisa que aconteça na tela, desde que com efeitos de “encher os olhos”. Ou seja, as coisas simplesmente acontecem sem que percebamos sua graciosidade e tensão. Nem mesmo entre aqueles que defendem o “entretenimento” (uma palavra muito banalizada, aliás) como função primordial do cinema, é preciso, antes de tudo, ter consciência de que, mesmo para entreter, é preciso inteligência – nestes tempos tão castigados por imagens boçais e maturadas, um tanto mais. Mas o filme de Joe Johnston é aquela velha crônica da pós-fragilidade quando do conhecimento da força própria.

(Captain America – The First Avenger, EUA, 2011) De Joe Johnston. Com Chris Evans, Hugo Weaving, Hayley Atwell, Sebastian Stan, Dominic Cooper, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Richard Armitage, Toby Jones.