22nd Mar2014

Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum

by Pedro Henrique Gomes

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Em uma atmosfera docemente lúgubre, cinzenta e empoeirada, primeiro vemos o microfone e a fumaça. Llewyn Davis (Oscar Isaac) surge então para cantar o seu insucesso – ou sua glória em crise constante; arrependimentos, passos em falso, surpresas não tão boas. Mergulhados neste espaço onde a luz do sol não pode entrar, em que as cores que pintam o ar não mobilizam o olhar do espectador para um jogo de figurinos e comutações simbólicas, vemos quase em preto e branco. Aviso aos semióticos: a psicologia das cores não irá funcionar. O que os irmãos Coen espalham por todos os planos deste filme é a crueza fria de um desgaste (da roupa, dos músculos, dos dentes, do próprio sangue que escorre espesso) ao mesmo tempo em que um encantamento se anuncia e um caminho se projeta na própria repetição dos acontecimentos. De início, os Coen também oferecem pouco, e depois frustram a ânsia pelo clima máximo, por aquele instante último em que a faculdade de julgar é exigida como força motriz de nossa consciência. Isto pois, seja como for, o cinema dos irmãos não é um cinema moral como o de Frank Capra. Eles não acreditam na goodwill, no instante crucial tipicamente caprianoÉ nesse mistério sem um guia, sem uma retenção de significados além dos fragmentos de vida que Llewyn vai deixando pela estrada que precisamos avançar o olhar.

Em termos referenciais, não há nada novo no frontOdisseia: os grandes temas homéricos e as grandes rodadas desconhecidas nunca deixaram de existir no cinema dos Coen, seja como algo plasmado no escopo das histórias ou como fantasmas que viajam confortáveis no banco de trás dos carros, sempre a assombrar, sempre a arranhar os assoalhos. Os espécimes coenianos tomam o espaço, aquele que pouco fala, aquele de envergadura acentuada, aquele tipo de palavras duras, a Afrodite, a necessidade e a contingência. A derrota, também ela, tem uma face. Uma expressividade dura, mas ainda assim bela. Todos os medos, as lições apreendidas no braço, e aí as sequelas do ringue, o lastro que fica, a marca dos pneus traçando a neve, a herança maldita dos lugares mal-ditos, o Far-West, Texas, Arizona, os desertos, a poeira, as vozes e todo um registro pactual com estes lugares. O acúmulo dos fantasmas. As músicas não conduzem a história, não traçam uma linha mestra, uma paisagem que possa servir como ponto de referência, não entregam a perspectiva, nem a possibilidade de redenção. Ao contrário, os personagens levam as músicas.

Início dos anos 1960, Dave Van Ronk, suas memórias, Greenwich Village. Estão lá muitas coisas das quais o filme se apropria, no exercício que é caro aos Coen. Buscar as histórias “menores” a partir de um fragmento, atravessar o imaginário cultural americano (Kerouac, Dylan, Ginsberg, Jim Glover, Jean Ray, Tom Paxton), os subúrbios de uma época pulsante. Fazer filmes sobre a dita “América profunda” sem mostrar a bandeira americana, sem a grosseira necessidade de fazer graça nacionalista, mas comendo por dentro, mastigando as vísceras (Fargo é talvez o filme exemplar; ou seria Barton Fink?). Então o filme parte de uma perda. Llweyn Davis perde o gato de amigos. Muito procura e parece encontrar, mas não era o mesmo gato, os donos reconhecem. Dias depois, quando retorna a casa dos amigos, descobre o regresso de Ulysses, o gato assim nomeado é então dado ao entendimento do personagem e do espectador – este nome milagroso, nome sem par na História das letras. Entre perder o gato e ver que ele voltou ao lar, Llewyn fica em maus lençóis ainda outras vezes.

Arizona Nunca Mais, Barton Fink, Queime Depois de Ler, Onde os Fracos Não Têm Vez: eis a grade de dificuldades, de personagens trôpegos que não conseguem acertar o alvo, de intenções malogradas e de ímpeto prematuro. A corrente sanguínea dessa genealogia do fracasso vai registrar, aqui também, a força dessa justiça que os diretores carregam de plano a plano, essa honestidade única, essa paixão pelos personagens construída sem sublevação moral. Eles estão no nível dos homens comuns (são estes que eles filmam, afinal). É preciso sabedoria para evitar a evidência mais plausível, o desfecho esperado, o alarme falso. O oposto é o que acontece, o final mais simples, aquele que é síntese de uma experiência que vai se encerrar como a maioria delas, sem um golpe cirúrgico de olho na manipulação mais sórdida e covarde dos sentimentos. Inside Llewyn Davis parece um filme assim, sob medida ao que é verdadeiro aos cineastas, ao que não é mera especulação de uma matéria-prima promissora. Pois nota-se que aos olhos de Deus e do Diabo esta é uma vocação que escapa aos vulgares.

Encontramos nele um rigor en scène, uma presteza menos didática e mais essencial, cortante. A conjugação dos verbos (isto é, a lógica dos planos e dos movimentos de câmera) está alinhada com o léxico do poder da imagem, da escritura sem pretensão de simetria, mas ainda assim exata em luz, tempo e espaço. A cena reveladora é logo a primeira (e a última, vá entender!), com aquele feixe de luz que corta a taverna onde Llweyn se apresenta, com a câmera esquadrinhando sua voz na penumbra, movendo-se entre olhares e ouvidos atentos.  A grande vitória do filme é a exposição deste conto erótico, a revelação de que não há revelações, não há interesses em jogo, ninguém quer saber quem vai ficar com quem e todas estas frivolidades as quais os cineastas um pouco cegos preferem às vezes lançar mão.

As perguntas que parecem mais saudáveis são de outra ordem. O que leva a câmera a arrancar aquela vergonha sincera de Llewyn, já que, depois de todos os contratempos, ele não derrama uma lágrima? O que leva a câmera a manter aquela sequência aterradora (sim, esta é a palavra) em que ele canta para seu pai doente, que quase não reage? Como pode doer tanto aquele momento em que, fatigado e sem forças para carregar suas coisas de um lado a outro, ele pede apenas para deixá-las na casa de Jean? E o que dizer daquele surto autoritário de Llewyn durante o jantar, quando lhe fazem lembrar o antigo parceiro musical? O que faz com que Carey Mulligan, ela que é doce mesmo quando desaforada (“fuck you, fuck you, fuck you”), possa surgir com uma potência expressiva tão marcante? O acúmulo dos fantasmas?

(Inside Llewyn Davis, EUA, 2013) De Joel & Ethan Coen. Com Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, John Goodman, Ethan Phillips, Robin Bartlett, Max Casella, Jerry Grayson, Jeanine Serralles, Adam Driver, Stark Sands, Garrett Hedlund.

Publicado originalmente no Zinematógrafo #7.

30th Jun2011

Os Residentes

by Pedro Henrique Gomes

É sempre muito perigoso (podendo soar até irresponsável e preguiçoso) sentenciar que um filme seja “sobre” alguma coisa. No caso de Os Residentes, filme de Tiago Mata Machado, seja até um pouco símbolo de uma limitação do olhar. O que talvez colabore e dê vazão a essa ideia seja a conexão tão vasta de referências que se transfiguram (assim mesmo: umas sobre as outras; outras sobre umas) em cada imagem. Prefiro acreditar que Os Residentes está mais interessado na procura pela desmistificação dos mitos modernos da sociedade aqui e ali onde nascem essas ervas daninhas que o corrompem e o esfacelam. Para tratar as rupturas, só entendendo do rompimento, o que nos leva a entender e compreender o filme como parte de um cinema essencialmente político. Se falarmos de um cinema abertamente político, o situacionismo, dito como argumento central do filme, nos conduz a visões diversas sobre as ideologias das personagens: se elas estão em busca do desligamento total em relação à sociedade ou se estão justamente tentando se reconectar a ela por intermédio desse rompimento. Para lançar um olhar sobre esse mundo de reclusão só mesmo compartilhando de suas experiências e práticas de vida.

Esse olhar permeia os diálogos entre as personagens de Gustavo Jahn e Melissa Dullius. Tiago filma uma discussão entre o casal do filme com leveza proporcional à rispidez que o tempo e o espaço cênicos exigem. E se a câmera é também um personagem, parece que há um desejo de contaminar e de ser contaminado por ela, um desejo de esquadrinhar um espaço sempre que possível para revelar um corpo. De fato, Os Residentes capta essa convulsão dos corpos, essa profusão deles sobre eles mesmos. O que deixa uma nova dúvida: as questões entre ética e estética (que em uma cena são relacionadas como parte de um todo) são totais e centralizam o discurso do filme ou desejam apenas fazer ecoar a questão primordial: o situacionismo? A resposta pode não vir explicitamente configurada, pois Tiago parece estar mais interessado em exprimir os problemas (e colocar em jogo mais perguntas do que repostas) e apontar os caminhos possíveis para contorná-los. Contornar esse universo paradoxal que toma conta da sociedade, desprender-se das amarras (para simbolizar isso, podemos tomar aquela personagem sempre presa, sempre atada ou mergulhada em alguma coisa; até o momento em que ela se libertará, extravasando aquilo que estava engasgado) e dos vícios de um contingente envenenado pela espetacularização das imagens, eis o latifúndio em que Os Residentes se dispõe. Cinema pungente, pautado na intersecção entre as diversas manifestações artísticas, principalmente no campo audiovisual – sem fazer aqui uma distinção entre o que é cinema e o que é arte visual.

Para além das referências diretas, que vão de Godard a Schönberg, passando por Debord, não é muito difícil lembrar das imagens de um Robbe-Grillet (mesmo que seja apenas por um lapso da memória, como na cena em que um jato de tinta vermelha banha um corpo inerte), da rigidez do ato de “filmar a conversa” de um Rohmer e da poética de um Rimbaud. Tantas referências me parecem severamente confeccionadas a revelia da ação do próprio do filme, pois elas diversas vezes se misturam sem confluir, se correlacionam sem estarem necessariamente ligadas. Simplesmente (a)parecem em meio a mutação das cenas como que distribuindo-se no intuito de legitimar um discurso e de validar a ação anterior – os planos majoritariamente fechados, os rostos que abarcam os quatro cantos do quadro, a trilha sonora que só pesa ainda mais o desequilíbrio das personagens (não da narrativa). Mas para tudo há uma quebra, uma ruptura que desestabiliza a situação-limite e que pauta a transformação da imagem no pêndulo dessa inquietação do realizador.

Pois Os Residentes demonstra ser um filme que está querendo lutar consigo mesmo, responder às suas próprias perguntas sem abandonar uma visão de mundo que lhe confere autenticidade; porque não, tanto ética quanto estética. Esse mosaico montado cria uma fruição narrativa toda especial, joga um charme sobre ele mesmo e ridiculariza a insubordinação dos seres presentes naquele ambiente pesado e cínico. Mas para tentar estabelecer uma ordem às coisas somente quebrando a organização natural delas, refugiando-se na anarquia e enxergando através de uma visão de mundo que mais lhes parece conveniente e acessível.

(Os Residentes, Brasil, 2010)
De Tiago Mata Machado
Com Gustavo Jahn, Melissa Dullius, Jane Doucas, Simone Sales de Alcântara, Dellani Lima, Roberto de Oliveira, Geraldo Peninha, Cassiel Rodrigues, Paulo César Bicalho