22nd Nov2011

Tudo Pelo Poder

by Pedro Henrique Gomes

Termo de responsabilidade

Não são poucas as imagens escuras que irrompem no retângulo da tela em Tudo Pelo Poder. E isso pode significar várias coisas ou dar margem a diversas interpretações – umas mais ou menos aceitáveis, outras nem tanto. A primeira é que George Clooney joga claramente com a luz (ou a falta dela) para potencializar as personas de seu filme, e isso é logicamente muito pensado. Nessa lógica, se estabelece sempre um jogo ambíguo entre a luz a sombra, entre o on e off (ressignificado a todo instante ao longo do filme), a verdade e a mentira, a pista e o blefe, a direita e a esquerda. Os homens, vestidos sempre de ternos empolados, emergem da escuridão, alcançam a luz e dão vozes aos altos falantes (com seus discursos apelativos). A fotografia basicamente molda os personagens, dentro da superficialidade que convém (políticos são assim um tanto quanto dúbios, mais que outros cidadãos). Por outro lado, essa luz que corta os corpos dimensiona a estética do drama que Clooney horizontaliza sobre seus personagens com alguma dose de inocência na questão das relações políticas, pois sabemos que campanhas eleitorais jogam também com os sentimentos do eleitorado e não somente com sua ideologia. A luz arregaça os personagens para além daquilo que eles realmente são, já que está em sintonia com a pressão exercida pelo extracampo (a plateia, a câmera da televisão, o povo, o voto). Mike Morris (Clooney), o pretenso candidato a presidência dos Estados Unidos, surge sempre imbuído dessa ambivalência diante da câmera. Ambivalência que está inscrita na própria essência de seus discursos, na raiz das coisas mesmas, na unidade das palavras. Ora, Morris não escreve suas falas, quem as escreve é Stephen Meyers, seu assessor de imprensa, interpretado por Ryan Gosling, mas ele as transpõe em palavras suas.

Em contraponto a isso tudo, a essa teia de relações, que são, sobretudo, humanas, e portanto falíveis, cria o clima pertinente a situação: estão uns nas mãos dos outros, ninguém mantém o controle global do jogo. São todos personagens que parecem regidos por uma moral secundária, do tipo “só tenho ética quando me pagam” ou “só falo a verdade para quem me pagar mais”. Aqui, a capacidade de sustentar o drama é uma virtude, o problema é que o drama é muito pouco, não há conflito nas vivências, nas relações, somente a lógica dos contratempos, dos desencontros, das ações erradas – homens que mentem, omitem, vazam informações. Tudo Pelo Poder parece certo demais de que negar a história anatômica de seu próprio problema já é suficiente para reagir ao desconforto de que suas operações se incumbem, pois elas se baseiam em mecanismos demasiadamente simplistas para um filme de suspense dramático, qual seja, uma narrativa em que a expectativa é uma função-fim. A câmera e os diálogos deixam bem claro que os estereótipos são evidentemente protegidos pelo registro: política é assim, superficial, arquetípica, banalizada. Os encontros, as posteriores traições (que envolvem também jornalistas e colegas), o sexo de brinquedo, quase plastificado, liquidifica-se em algo como um espelho do óbvio, um reflexo das condições de controle sob ideologias e pretensões. Porquanto isso demonstre nada mais do que a apreensão de um mundo de contradições, Clooney se inspira frontalmente na forma de narrar essas incongruências do mundo, essa falibilidade das coisas mesmas, o que lhe dá força – sobremaneira.

E que se salvem os excessos dramáticos (princípios de dramaturgia simplificada, tipificada) e que se salvem as atitudes até bastante bestas que alguns personagens tomam, e que se salve a inconsistência do olhar político (algo que é muito fácil de vazar em um filme que somente de longe trata da política; afinal, Tudo Pelo Poder é mais um filme sobre as entranhas do que sobre a política em si), estamos falando de uma peça incognoscível do processo contemporâneo de filmar o mundo que se assume como tal, que filma o tempo presente. E se o registro é por demais abstrato e figurativo, uma tipologia de corpos e verdades mutáveis, todavia se vê embriagado pela palpabilidade das questões que levanta (religião, pena de morte, aborto; não raro todas ligadas a religião), ainda que porcamente. Tudo Pelo Poder, afora qualquer recalque, é um filme sobre o que está aí.

Mas há algo de inquietante em Stephen Meyers (Gosling), algo que suspende o juízo sobre sua função na ação, no calor do jogo. Talvez seja isso fruto de uma expressividade violenta que lhe escapa, de sua contradição interna (trocar ou não trocar de lado na campanha?) ou mesmo de sua vontade moral. Talvez, tanto a força da tentação ao despojo quanto os limites da consciência que são barrados pelo sentimento de desmoralização determinam a intervenção desse personagem na história – que é a história do futuro dos Estados Unidos -, que altera o quadro porque possui um dispositivo (o segredo de Morris). Meyers termina o filme assumindo sua dubiedade, pois se encontra entre a carreira e a vontade, ainda que ambas sejam, para ele, opostas. Embora isso codifique a conjuntura da encenação para algo como um teatro de fantoches, onde já sabemos antecipadamente seu desfecho e onde somos meros cúmplices de discursos, Clooney trabalha com a noção bastante surrada de que um personagem precisa integralmente dominar o outro para conseguir vencer no drama político mais simplista. Apesar da arbitrariedade, existe uma potência ali, mas que está desencontrada ou mal afirmada (problema mesmo do roteiro, já que Clooney filma bem a tensão dos corpos, os diálogos se afirmam enquanto unidades significativas). E essa perda de poder retira do filme seu grande efeito. Resta então a expectativa.

No entanto, a fruição não atravessa a ação objetiva daquilo que é narrado, e o filme tem um grande mote que é o fato de que o controle das ações de cada personagem está ligado a preexistência do outro, o que os comunica desde sempre, independente da construção dramática individual. Tanto é assim que, quando alguém morre, ou seja, quando a lógica é quebrada, o sistema interno deles entra em colapso. Presenciamos também a composição do plano (elegante, hollywoodiano em todo sangue), a poética da imagem transmitida pela fotografia como algo imanente (tal qual qualquer personagem do filme), a trilha sonora que retransmite a ideia dessa encruzilhada de delações. É inclusive notável o esforço de George Clooney em fusionar seu filme em um caráter minimamente digno de substância, o que ele de fato atinge em seus melhores momentos. Apesar dos desencontros (que não são poucos ou pequenos) Tudo Pelo Poder é tudo menos um filme facilmente dispensável.

(The Ides of March, EUA, 2011) De George Clooney. Com Ryan Gosling, George Clooney, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, Eva Rachel Wood, Marisa Tomei.

17th Oct2011

Drive

by Pedro Henrique Gomes

Ação

Drive, novo filme de Nicolas Winding Refn, dá margem as mais diversas interpretações sobre um estado tal do cinema de ação contemporâneo. Onde está o conflito? Onde está a ação? Como conduzir o romance? Como filmar a perseguição? Como morrer e como matar? Em meio a essas questões, o mais recente filme de Refn constroi uma geografia muito peculiar (essa mise em scène, assim, é só sua, irreconhecível desde já) e narra a ação humana a partir de uma concepção de cinema bastante diferente daquela saturada pelo mainstream hollywoodiano. Pois se existe algo empolgante em Drive não é a correria de uma perseguição, a velocidade dos carros e seus super motores ou os corpos femininos semi nus dançando para a câmera. O que importa é noção de perspectiva que se estrutura nessa relação da ação física e da ação mental.

A força de Drive não está em sua indiferença as formalidades correntes, mas na consciência de que é preciso filmar mais e melhor, tratar mais e melhor, sair da linha de produção, envolver-se em outra solução para cada uma das questões. Ao espectador resta então perceber a variação do discurso e da manipulação. O filme tem em seu protagonista um homem sem nome, que apenas dirige, como diz ele próprio. O driver é um dublê de filmes hollywoodianos e que trabalha numa mecânica de automóveis. Paralelamente a isso, realiza alguns trabalhos como motorista. Basicamente, ele dirige e ponto. Não tem nome, nem número. É o tipo de poucas palavras e muitas ações, mas ações sempre pensadas, mesmo que, algumas vezes, impulsivas. Sua vida segue dentro da normalidade, quando então conhece Irene, sua vizinha. Logo ficam amigos, mas o marido de Irene, que estava preso, ganha a liberdade e volta para casa. E volta devendo para bandidos, que o obrigam a realizar um assalto de maneira a pagar a dívida. Conhecedor da situação, The Driver oferece ajuda no trabalho (apenas dirigindo, claro). Tudo isso pois, sob aviso, os bandidos, que estão a serviço de mafiosos poderosos, ameaçam Irene e o filho. O assalto, que deu certo por um lado (conseguiram o dinheiro) e errado por outro (alguém morreu), desemboca num jogo de gato e rato fulminante. Percebemos de longe, que ele não quer enriquecer, fazer carreira, esbanjar, quer tão somente viver – mesmo que para isso necessite cortar algumas cabeças.

Há uma luz que corta, entra e perfaz o olhar sóbrio do motorista inominável. A escuridão marca um lado enquanto a luz ilumina o outro. A câmera capta o ponto de vista dele enquanto dirige, registra seu olhar apreensivo, porém sábio, com elegância, sem palavras, sem explicações – comuns ao cinema de gênero. O único diálogo que almeja diretamente a alegoria e o efeito rápido e imediato é também uma cena de função lógica essencial a construção de personagens. É quando um suposto empresário oferece a mão em cumprimento e o personagem de Ryan Gosling diz que suas mãos estão um pouco sujas, pois acabara de mexer no carro. No que o empresário responde: as minhas também. É um diálogo de fácil compreensão (aliás, Refn é sempre muito seco e direto), mas de fundamental função narrativa.

Um filme que efetivamente cria uma relação de afeto entre personagens que não se resume ao gozo banalizado da paixão. Há, de fato, um romance em jogo, mas não há, narrativamente, uma valoração exacerbada sobre ele. As coisas simplesmente acontecem – e o romance mesmo fica para o extrafilme, pós-créditos. Algo queima por dentro, transcende a lógica do impulso, e cresce mais para o olhar do espectador do que para os próprios personagens. The Driver coloca, antes de tudo, a vida de Irene em questão. Não lhe interessa ficar com o dinheiro (que não é pouco, 1 milhão de dólares), mas proteger aqueles que parecem ser os únicos capazes de lhe fazer sorrir. Ao mesmo tempo, quando confessa a Irene que participou do assalto, ela lhe esbofeteia a face, num gesto instintivo que significa tudo em tão pouco: Drive é mesmo um filme sobre pessoas, sobre o humano, pois não importa o dinheiro sujo do crime, nem a música oitentista, tampouco os objetos figurativos, mas a potência do outro. A cena demonstra o olhar do diretor, pois não está ali simplesmente para inserir o drama, mas para dramatizar, sobretudo, as relações humanas.

Não se trata, todavia, da estetização da violência, mas a exploração da violência em si enquanto significado e significante. Se ela é explícita, se é gráfica, é também dispositivo da ação. Pois é perceptível o tratamento, em Refn, do sangue, da pungência das lâminas que atravessam as veias das vítimas – no mundo de Refn, todos podem ser vítimas, não há algozes ou heróis. O jorro de sangue é muito comum, porém hipertrabalhado (não há morte pela morte, sangue pelo sangue; filmar isso é algo como um ritual), indo de encontro a proposta estética que permeia o cinema de Refn. A estilização da morte, a morte enquanto cerimônia essencialmente cinematográfica, munida de toda uma dramatização possível, enquadrada e filmada sem moral, mas com torpor, até que se esgote o conteúdo e não se perca a forma, torna-se exemplo de sua motivação em filmar as coisas reais da vida pelo olhar romantizado da câmera. Drive tão logo tem início e já fica clara sua predileção pela imagem-total. Refn firma o estilo de seu filme sem precisar afirmá-lo como identidade. É uma condição vividamente aceitável e reconhecível como discurso estruturado na tensão, no sufoco da expectativa. E uma concepção de ação cinematográfica não menos que válida.

Refn conscientiza-se da largura do plano, do estiramento do tempo dramático, e horizontaliza a sangria. Mas não há milagres na ação de Drive. O protagonista vence humanamente, derrota um por um seus inimigos porque é cerebral, não por ser brucutu. Apesar de a estética ter base na produção dos anos 80, do motorista ser um decalque clássico do anti-herói moderno do cinema de ação (nem mau, nem bom, apenas fatalista), Drive se afasta do registro supérfluo (tudo bem que o palito que carrega intermitentemente na boca, tal qual o Cobra, personagem mítico de Stallone, é um tanto quanto detestável), evacua as facilidades e as convenções desse cinema opulento e flambado. Refn invoca a mitificação inevitável do poderio alucinatório desse personagem, criado e cultivado na iminência dos sentidos.

(Drive, EUA, 2011) De Nicolas Winding Refn. Com Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Ron Perlman, Oscar Isaac.