11th Jul2011

Sexta-Feira à Noite

by Pedro Henrique Gomes

Ei, você aí!

O cinema de Claire Denis se configura muito especialmente através da experiência do espectador. Cientes de todo o perigo que pode abarcar tal afirmação, dissemos isso, pois, se trata de um olhar sempre antes afetuoso e ao mesmo tempo cru, de uma leveza e crueldade a um só instante pura e devassa. Um cinema que colhe referências (algumas explícitas, como Ozu e Apichatpong, e outras sendo descobertas a cada visita à sua obra, de Rohmer a Pedro Costa), mas nunca renuncia a uma coleção de outros cinemas, a uma cópia do outro, jamais se perde no ritmo de suas influências. Das referências urge um cinema facilmente identificável, não uma saturação de outras imagens. Um cinema colorido e multifacetado, por assim dizer, pois equilibra um registro tão pungente de uma realidade do mundo, de um estado das coisas, com uma delicadeza sentimentalmente irrefreável. Sexta-Feira à Noite é mais um extrato desse cinema de vigor, de guerrilha, imbuído de uma força imagética potente e apaixonante. Do rigor da mise en scène, da composição do quadro, do movimento de câmera, do enquadramento (Claire Denis adora um travelling e um close-up), brota um cinema que só nos faz contemplar e sentir sua bela e dura singeleza.

A noção do desconhecido, do intruso, é a base desse olhar muitas vezes melancólico, mas sempre problematizante, que busca investigar não somente as relações de afeto, mas as barreiras culturais e sócio-políticas representativas de um período conflituoso. Em Denis, é comum o embate entre o negro e o branco, entre o africano e francês, o colono e o colonizador, o senhor e o escravo. Mas se aqui Denis não lança seu olhar especificamente sobre o imigrante africano que vai morar na França (35 Doses de Rum, S’en fout la mort) ou a jovem francesa que é criada na África colonial (Chocolate, Minha Terra, África), como é recorrente em sua obra (mas não só, é sua própria essência e ideia, já que trata de uma obra quase sempre autobiográfica, ou como uma memorabília em constante atividade), por outro lado investiga a relação do estranho com o receptor, o que não foge muito da estética criada desde Chocolate, seu primeiro filme. A questão é sempre o segundo personagem, o que chega, o que passa a viver e a conhecer o primeiro, numa jornada que certamente afetará a existência de ambos.

Para nos introduzir ao filme, Denis esquadrinha o apartamento de Laure (Valérie Lemercier). Percebemos que, pelas caixas empilhadas e espalhadas por todos os cantos, ela está de mudança. Vai morar com o namorado. Então ela sai de casa, entra no carro e embarca numa viagem estática. Laure esqueceu que o trânsito de Paris andava um caos, aí fica trancada num engarrafamento sem fim por horas. Num dos momentos em que fica parada contemplando o empilhamento dos carros, os barulhos e os gritos dos motoristas enraivecidos, seu olhar descobre Jean (Vincent Lindon), um homem que, aos poucos, se aproxima de seu carro, até que ela abre a porta e ele entra. A partir dessa atitude aparamente inusitada, os dois irão passar o resto da noite juntos, entre restaurantes, ruas, e motéis. De uma paixão extremamente carnal (novamente, a noção de um cinema físico, de uma câmera sempre muito perto do corpo, da expressão; do estar perto para conhecer, descobrir e desvelar os personagens e o drama em si), Laure e Jean confiam seu corpo ao estranho, se jogam desmedidamente nesse lance do sexo casual, sem eu te amo.

Ao longo do filme, não haverá palavras para domesticar os sentimentos dos personagens para o espectador. O filme, para além de seu drama e de seu humor, se constroi muito particularmente de acordo com o olhar de quem o vê. Laure pode ser a um só tempo uma mulher insatisfeita (mesmo estando de mudança para morar com o namorado, o qual nunca veremos) com o rumo que sua vida vai tomando, mas, ainda assim, ela persiste em deixar as coisas acontecerem. Até que ela resolve extravasar e arrebentar as correntes que a prendiam. Por outro lado, se “deixar as coisas acontecerem” já remete, factualmente, a uma tomada de posição, portanto a uma escolha absolutamente lúcida, então Laure parte do princípio de que se deve viver o momento sob qualquer circunstância. Nesse sentido, ela não pensa em recusar o sentimento, a excitação pela vida, agora. Um corpo precisa de outro. Com Claire aprendemos que uma cama vazia é apenas uma cama, que um corpo é apenas um corpo.

Para filmar o sexo, Claire cola sua câmera nos corpos, capta a tensão carnal dos amantes olhando para suas feridas, suas cicatrizes, suas marcas. Como em todos seus filmes, a Claire de Sexta-Feira à Noite escancara esse rigor estético, essa notável composição e iluminação que atestam uma consciência do espaço a ser filmado e da relação dos objetos de cena de maneira suficientemente discreta, num misto de um torpor pelo quadro com uma poética natural dos ambientes. Uma cena de sexo que não mostra efetivamente o sexo, nem os rostos; de sons somente os ruídos dos corpos, só o toque nos é mostrado. O amor não tem trilha sonora, daí as cenas de sexo entre Laure e Jean serem essencialmente sensoriais, talhadas de um ritmo e uma fruição espantosamente sensuais. O clima atípico de um romance que de fato se consuma transforma Sexta-Feira à Noite em um filme destacável dentro de uma obra, por si só, completa e potencialmente relevante.

E se esse cinema verifica e trabalha embasado nessa potência, antes de tudo, do humano e da dialética de suas relações, criando ferozmente um inabitável clima de suspensão no espectador, então Claire Denis e seus filmes enriquecem ainda mais o espectro cinematográfico, elevando-o a um patamar de fluência e confrontamento consigo mesmo raramente visto no cinema contemporâneo.  Um cinema que encanta em sua totalidade.

(Vendredi soir, França, 2002) De Claire Denis. Com Valérie Lemercier, Vincent Lindon.

30th Jun2011

Os Residentes

by Pedro Henrique Gomes

É sempre muito perigoso (podendo soar até irresponsável e preguiçoso) sentenciar que um filme seja “sobre” alguma coisa. No caso de Os Residentes, filme de Tiago Mata Machado, seja até um pouco símbolo de uma limitação do olhar. O que talvez colabore e dê vazão a essa ideia seja a conexão tão vasta de referências que se transfiguram (assim mesmo: umas sobre as outras; outras sobre umas) em cada imagem. Prefiro acreditar que Os Residentes está mais interessado na procura pela desmistificação dos mitos modernos da sociedade aqui e ali onde nascem essas ervas daninhas que o corrompem e o esfacelam. Para tratar as rupturas, só entendendo do rompimento, o que nos leva a entender e compreender o filme como parte de um cinema essencialmente político. Se falarmos de um cinema abertamente político, o situacionismo, dito como argumento central do filme, nos conduz a visões diversas sobre as ideologias das personagens: se elas estão em busca do desligamento total em relação à sociedade ou se estão justamente tentando se reconectar a ela por intermédio desse rompimento. Para lançar um olhar sobre esse mundo de reclusão só mesmo compartilhando de suas experiências e práticas de vida.

Esse olhar permeia os diálogos entre as personagens de Gustavo Jahn e Melissa Dullius. Tiago filma uma discussão entre o casal do filme com leveza proporcional à rispidez que o tempo e o espaço cênicos exigem. E se a câmera é também um personagem, parece que há um desejo de contaminar e de ser contaminado por ela, um desejo de esquadrinhar um espaço sempre que possível para revelar um corpo. De fato, Os Residentes capta essa convulsão dos corpos, essa profusão deles sobre eles mesmos. O que deixa uma nova dúvida: as questões entre ética e estética (que em uma cena são relacionadas como parte de um todo) são totais e centralizam o discurso do filme ou desejam apenas fazer ecoar a questão primordial: o situacionismo? A resposta pode não vir explicitamente configurada, pois Tiago parece estar mais interessado em exprimir os problemas (e colocar em jogo mais perguntas do que repostas) e apontar os caminhos possíveis para contorná-los. Contornar esse universo paradoxal que toma conta da sociedade, desprender-se das amarras (para simbolizar isso, podemos tomar aquela personagem sempre presa, sempre atada ou mergulhada em alguma coisa; até o momento em que ela se libertará, extravasando aquilo que estava engasgado) e dos vícios de um contingente envenenado pela espetacularização das imagens, eis o latifúndio em que Os Residentes se dispõe. Cinema pungente, pautado na intersecção entre as diversas manifestações artísticas, principalmente no campo audiovisual – sem fazer aqui uma distinção entre o que é cinema e o que é arte visual.

Para além das referências diretas, que vão de Godard a Schönberg, passando por Debord, não é muito difícil lembrar das imagens de um Robbe-Grillet (mesmo que seja apenas por um lapso da memória, como na cena em que um jato de tinta vermelha banha um corpo inerte), da rigidez do ato de “filmar a conversa” de um Rohmer e da poética de um Rimbaud. Tantas referências me parecem severamente confeccionadas a revelia da ação do próprio do filme, pois elas diversas vezes se misturam sem confluir, se correlacionam sem estarem necessariamente ligadas. Simplesmente (a)parecem em meio a mutação das cenas como que distribuindo-se no intuito de legitimar um discurso e de validar a ação anterior – os planos majoritariamente fechados, os rostos que abarcam os quatro cantos do quadro, a trilha sonora que só pesa ainda mais o desequilíbrio das personagens (não da narrativa). Mas para tudo há uma quebra, uma ruptura que desestabiliza a situação-limite e que pauta a transformação da imagem no pêndulo dessa inquietação do realizador.

Pois Os Residentes demonstra ser um filme que está querendo lutar consigo mesmo, responder às suas próprias perguntas sem abandonar uma visão de mundo que lhe confere autenticidade; porque não, tanto ética quanto estética. Esse mosaico montado cria uma fruição narrativa toda especial, joga um charme sobre ele mesmo e ridiculariza a insubordinação dos seres presentes naquele ambiente pesado e cínico. Mas para tentar estabelecer uma ordem às coisas somente quebrando a organização natural delas, refugiando-se na anarquia e enxergando através de uma visão de mundo que mais lhes parece conveniente e acessível.

(Os Residentes, Brasil, 2010)
De Tiago Mata Machado
Com Gustavo Jahn, Melissa Dullius, Jane Doucas, Simone Sales de Alcântara, Dellani Lima, Roberto de Oliveira, Geraldo Peninha, Cassiel Rodrigues, Paulo César Bicalho