04th Jan2014

Camille Claudel, 1915

by Pedro Henrique Gomes

camille

Para Fabiano Camilo

A personagem ajoelhada, fitando o horizonte. Lá onde nada acontece, portanto onde acontece muita coisa: o anti-efeito-efêmero, grito solitário do olhar, doença do espírito e inflexão da carne. O cinema de Bruno Dumont não é senão a orgia das contradições fundamentais da imagem e de sua “representação”, da violência e de sua grafia, de sua lógica. Desde A Vida de Jesus (1997), seu primeiro filme, esse plano é recorrente. O rosto apropriado pela largueza da câmera logo após vermos a personagem olhando para “o” longe. Na verdade, a personagem está a olhar para . Há uma geografia em jogo (sempre há, agora mais ainda), pedaços compostos de situações e armadilhas do cotidiano emaranhadas no limite da consciência, nas bordas do próprio corpo que, aí sim, conectam-se com aquilo que está ao redor. Antes deste seu último filme era então frequente a visualização de conflitos a céu aberto, personagens perdidas, vulneráveis ao ponto de vista de Deus. Aqui Dumont retrai tudo sem excluir as variações que assinalam sua obra. Eterno Sísifo (não é por acaso que suas personagens estão sempre a subir os rochedos para estarem mais próximas do céu): ele continua sendo o cineasta que já parte do andamento das coisas.

Camille Claudel, 1915 trata menos da violência formalizada e mais da que a precede e a sucede, a dor psicológica, dor de todos os tempos, acronológica e de impossível relativização. Mas já aqui não é possível afastar este filme dos anteriores, no seu melhor (Flandres, A Humanidade) e naquilo que ele tem de pior (O Pecado de Hadewijch, Hors Satan). Os movimentos (Claudel vai subir as montanhas também; vai gritar só), as subtrações e as adições, os medos e os atos desesperados de toda sua obra sempre configuraram um quadro da sanidade e da loucura, não exatamente uma contra a outra, mas confundidas, traçadas em linhas mestras. Sem a moral em si, julgada e condenada já nos enunciados, mas colocada em disputa na forma de uma ética para a liberdade, como era a questão do “ser livre” para o pensamento hegeliano: tudo começa na consciência. Apesar de tudo, inclusive da consciência de si e da moral cristã (estudo de Hegel), a experiência das personagens precisa ser real.

A seu turno, Camille Claudel (Juliette Binoche) tem o ímpeto de devolver seu próprio corpo ao mundo, isto é, recolocar-se do lado de fora, uma vez que, seja qual for o sentido possível de empregar espírito aqui, ele já não está lá para todos os efeitos: está fora. Camille não aceita sua situação de dependência, torcendo para que seu irmão, Paul (Jean-Luc Vincent), venha livrá-la do asilo psiquiátrico em que se encontra. Ela acredita que seu ex-marido, Rodin, sustenta más intenções contra ela. Novamente, na iminência de sua chegada no asilo para uma visita, Camille vai tentar realizar sua vontade de sair de lá, regressar ao mundo dos livres. Seu irmão, poeta de fé, também ele parece atordoado, símbolo da tragédia que é base da teologia agnóstica que o filme inscreve e desenvolve integralmente.

A evidência dessa agonia do viver está ficcionalizada no rosto de Juliette Binoche, imperdoavelmente filmado por Dumont da abertura do plano ao derramamento das lágrimas, quando já não vemos nada além de seu rosto no espaço da tela, nada além de sua expressão dual, que nos leva para os dois lados da loucura, sendo que um é a ideia mesma de normalidade (como em Rimbaud, justamente a referência maior de Paul Claudel, conforme suas palavras no filme). É essa a operação fundamental deste particular, devolver às expressões toda a construção anterior, mais larga, dos espaços e da encenação. Aproximar-se do rosto, mas só depois. Começar dos cantos para submeter à imagem inteiramente a força de um olhar, de um cataclismo porque síntese de uma tragédia irremediável, de rostos (todos) destruídos, golpeados – nesse sentido, aí sim, Dumont está próximo de Bresson.

E se o prelúdio da história já é seu próprio processo intermediário, ficaremos com uma última imagem que não poderá ser o esgotamento nem o fim, apenas uma interrupção daquilo que segue.

(Camille Claudel, 1915, França, 2013) De Bruno Dumont. Com Juliette Binoche, Jean-Luc Vincent, Emmanuel Kauffman, Marion Keller, Robert Leroy, Armelle Leroy-Rolland.

30th Jun2011

Os Residentes

by Pedro Henrique Gomes

É sempre muito perigoso (podendo soar até irresponsável e preguiçoso) sentenciar que um filme seja “sobre” alguma coisa. No caso de Os Residentes, filme de Tiago Mata Machado, seja até um pouco símbolo de uma limitação do olhar. O que talvez colabore e dê vazão a essa ideia seja a conexão tão vasta de referências que se transfiguram (assim mesmo: umas sobre as outras; outras sobre umas) em cada imagem. Prefiro acreditar que Os Residentes está mais interessado na procura pela desmistificação dos mitos modernos da sociedade aqui e ali onde nascem essas ervas daninhas que o corrompem e o esfacelam. Para tratar as rupturas, só entendendo do rompimento, o que nos leva a entender e compreender o filme como parte de um cinema essencialmente político. Se falarmos de um cinema abertamente político, o situacionismo, dito como argumento central do filme, nos conduz a visões diversas sobre as ideologias das personagens: se elas estão em busca do desligamento total em relação à sociedade ou se estão justamente tentando se reconectar a ela por intermédio desse rompimento. Para lançar um olhar sobre esse mundo de reclusão só mesmo compartilhando de suas experiências e práticas de vida.

Esse olhar permeia os diálogos entre as personagens de Gustavo Jahn e Melissa Dullius. Tiago filma uma discussão entre o casal do filme com leveza proporcional à rispidez que o tempo e o espaço cênicos exigem. E se a câmera é também um personagem, parece que há um desejo de contaminar e de ser contaminado por ela, um desejo de esquadrinhar um espaço sempre que possível para revelar um corpo. De fato, Os Residentes capta essa convulsão dos corpos, essa profusão deles sobre eles mesmos. O que deixa uma nova dúvida: as questões entre ética e estética (que em uma cena são relacionadas como parte de um todo) são totais e centralizam o discurso do filme ou desejam apenas fazer ecoar a questão primordial: o situacionismo? A resposta pode não vir explicitamente configurada, pois Tiago parece estar mais interessado em exprimir os problemas (e colocar em jogo mais perguntas do que repostas) e apontar os caminhos possíveis para contorná-los. Contornar esse universo paradoxal que toma conta da sociedade, desprender-se das amarras (para simbolizar isso, podemos tomar aquela personagem sempre presa, sempre atada ou mergulhada em alguma coisa; até o momento em que ela se libertará, extravasando aquilo que estava engasgado) e dos vícios de um contingente envenenado pela espetacularização das imagens, eis o latifúndio em que Os Residentes se dispõe. Cinema pungente, pautado na intersecção entre as diversas manifestações artísticas, principalmente no campo audiovisual – sem fazer aqui uma distinção entre o que é cinema e o que é arte visual.

Para além das referências diretas, que vão de Godard a Schönberg, passando por Debord, não é muito difícil lembrar das imagens de um Robbe-Grillet (mesmo que seja apenas por um lapso da memória, como na cena em que um jato de tinta vermelha banha um corpo inerte), da rigidez do ato de “filmar a conversa” de um Rohmer e da poética de um Rimbaud. Tantas referências me parecem severamente confeccionadas a revelia da ação do próprio do filme, pois elas diversas vezes se misturam sem confluir, se correlacionam sem estarem necessariamente ligadas. Simplesmente (a)parecem em meio a mutação das cenas como que distribuindo-se no intuito de legitimar um discurso e de validar a ação anterior – os planos majoritariamente fechados, os rostos que abarcam os quatro cantos do quadro, a trilha sonora que só pesa ainda mais o desequilíbrio das personagens (não da narrativa). Mas para tudo há uma quebra, uma ruptura que desestabiliza a situação-limite e que pauta a transformação da imagem no pêndulo dessa inquietação do realizador.

Pois Os Residentes demonstra ser um filme que está querendo lutar consigo mesmo, responder às suas próprias perguntas sem abandonar uma visão de mundo que lhe confere autenticidade; porque não, tanto ética quanto estética. Esse mosaico montado cria uma fruição narrativa toda especial, joga um charme sobre ele mesmo e ridiculariza a insubordinação dos seres presentes naquele ambiente pesado e cínico. Mas para tentar estabelecer uma ordem às coisas somente quebrando a organização natural delas, refugiando-se na anarquia e enxergando através de uma visão de mundo que mais lhes parece conveniente e acessível.

(Os Residentes, Brasil, 2010)
De Tiago Mata Machado
Com Gustavo Jahn, Melissa Dullius, Jane Doucas, Simone Sales de Alcântara, Dellani Lima, Roberto de Oliveira, Geraldo Peninha, Cassiel Rodrigues, Paulo César Bicalho