01st Mar2013

O Som ao Redor

by Pedro Henrique Gomes

Primeira sequência: a câmera desliza entre carros e paredes do estacionamento de um prédio até chegar ao pátio. Crianças brincam, as babás, pais e mães cuidam cada movimento que realizam. No fundo, outros prédios, provavelmente com outros pátios e quadras cheio de crianças e babysitters. Através do olhar das pessoas que espiam, das janelas de seus quartos, percebemos apenas outras janelas, com outros quartos com pessoas dentro. A relação do olhar do espectador com o tempo e com o espaço é o caminho para o som: no cinema, ele vai se propagar só no tempo e no espaço, na colossal confecção dessa atmosfera tão intimamente conectada com os avatares do real. Mas há, logo de partida, uma dificuldade “no ar”: o que são esses ruídos? o que eles estão dizendo? o que os impulsiona? quais são seus limites? O Som ao Redor é assim mesmo: todo atravessado pela multiplicidade dos fatores em jogo, pelos efeitos do real incidindo no tecido social recifense.

Mas o filme de Kleber Mendonça Filho não adere a teses mais herméticas do que o próprio panorama estético das cidades emana. Nada de mostrar como o corpo social não é tal qual a pólis grega, em toda sua acepção política na questão da afirmação da liberdade humana. Ele filma a coisa mesma, a política (que como nos lembra Hannah Arendt, corrigindo o pensamento comum a respeito dos escritos aristotélicos, nada tem a ver com a ideia de que “todo homem é um ser político” – só é político, para Aristóteles, se for livre, isto é, se tiver acesso a pólis), a relação das pessoas com suas intimidades; sensações, desejos, angústias e a crueldade ululante que toma conta do fluxo dos sonhos (representado com força em uma sequência plenamente temporal e espacial, dignificante da condição repleta de medos e maus sentimentos que tomam conta dos personagens). Ora, o tal som que preenche o espaço (e se espalha ao redor dele) fala também justamente do espaço e do tempo. É das dimensões espaço-temporais que a imagem se serve, sem curvar-se para os limites geográficos da acumulação de vidas vertical e mecanicamente. Ao contrário, O Som ao Redor produz o tempo de acontecimento da ação e o tempo passado; comoção e vingança, laços sociais fragilizados e estilhaçados. Em meio a isso, flashes de um tempo em que as ruas tinham mais árvores e casas sem cerca. Coisas disputáveis, momentos cintilantes de observação social que jamais arrefecem diante da possibilidade de narrar a complexidade do mundo – e de narrar à complexidade do mundo, afinal.

São imagens que combinam (a título apenas de ilustração) com as ideias de Lefebvre sobre a sobrevivência do capitalismo enquanto ele souber criar novos espaços exploráveis. É precisamente isso que a segurança particular vai oferecer aos moradores, a reorganização espacial, isto é, o estabelecimento de mais e mais métodos preventivos, medidas cautelares, walkie talkies a postos. Assim, amplifica-se a sensação do medo, da invasão (de novo, o sonho de todas as noites). Invasão que é, por sua vez, plenamente física, portanto espacial. Difuso e confundido com a convivência dos moradores numa rua de “classe média” do Recife, o som saboreia as várias cores dos interesses humanos. É nesse sentido que ele é importante para as histórias, que são a um só tempo particulares, mas quase todas bem comuns – localizáveis, identificáveis. A própria existência de uma comunidade regulada por uma estagnação de valores simboliza a multiplicação das questões: o especulador imobiliário que se coloca contra a demissão do porteiro em uma reunião de condomínio, seu primo que rouba carros no bairro, a chegada da segurança particular que visa proteger os clientes, os conflitos entre a vizinhança, a mãe que se esforça para cuidar dos filhos enquanto sofre com os latidos de um cachorro vizinho. Todas as coisas tão profundas e tão banais.

A rede de valores, agora monetários, que moldam a representação das pessoas e permeiam as conversas dos habitantes do bairro, dão vazão a essas imagens da agonia. A praia aparece apenas no escuro, no dia em que Francisco, proprietário de vários imóveis da rua, sai para um banho durante a madrugada – o dono da rua vai lá purificar o espírito. Depois disso, os tubarões do Recife só são vistos de cima, lá do alto dos prédios (e dentro deles). Há um delírio coletivo instaurado, uma iconologia se oferecendo para ser investigada e demolida. O ajuste social das ruas transa com a potência desoladora dessa realidade que nos é tão cara. O lastro assustador da violência traça um panorama repleto de microuniversos distantes apesar da proximidade e da semelhança, dos sujeitos do horror. Aquelas construções diferentes, mas todas iguais. Pois a violência de que trata o filme é também estética, e se ela é tão aberrante que fere o corpo em todos os sentidos (da audição a visão), nada mais justo do que, enfim, desmistificá-la, trazer o olhar para dentro, de dentro.

(O Som ao Redor, Brasil, 2012) De Kleber Mendonça Filho. Com Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, WJ Solha, Clébia Souza, Irma Brown, Albert Tenório, Rivaldo Nascimento, Yuri Holanda, Bruno Negaum.

Publicado originalmente no Zinematógrafo.

07th Oct2012

Febre do Rato

by Pedro Henrique Gomes

A primeira imagem de Febre do Rato nos chega a bordo do rio e, em movimento, algumas palavras em off compõem sentenças poéticas sobre a cidade, as pessoas e a vida. Estamos lá não por acaso, em meio ao mau cheiro, ao lixo, aos ratos. Somos a escória. Mas o somos com ardor de um otimismo crítico que nos persegue e nos guia. Lá começamos e lá terminaremos. A história da febre do rato vem do surto de leptospirose que se disseminou pelo Recife após a cheia na década de 1970 e que hoje é jargão popular. No filme, é muito mais.

Mais que filmar o sexo, Cláudio Assis filma as relações mediadas pelo prazer, pela amizade e pelo desejo. Tais relações são, no Recife retratado pelo filme, compostas pelo corpus dos rebeldes, poetas, trans-tudo, marginais, grafiteiros, que não se submetem à lógica escapista do gozo instantâneo. Querem a transcendência, o sublime, o limiar da existência. Querem, afinal, Ser. E nisso Febre do Rato vai além, pois ao invés de fazer uma crítica à sociedade, com toda mistificação e seus prazeres culpados, procura o conflito numa análise do tecido social e de suas estruturas, e faz assim sem perder a verve e a retórica cinematográficas tão caras à sua filmografia – Amarelo Manga e Baixio das Bestas fizeram a base para o rugido poético aplicado aqui; claro, com todas as suas particulares estéticas, narrativas e políticas. A dramatização alcança a potência do grito que se quer libertar. Zizo (Irandhir Santos), o poeta anarquista responsável pela mobilização intrabairros na periferia da cidade para manifestações de cunho bakunianas (está, em seu ateliê, um retrato do teórico russo), onde o couvert artístico é pago pelos demais apenas ouvindo sua poesia muitas vezes mais intensa que suas próprias qualidades (eis, pois, o que lhe confere força).

Zizo vive entre sua arte, que estende à sua própria condição de sujeito, e suas utopias. Transa com as vizinhas, senhoras de idade que normalmente não fazem parte da agenda dos publicitários e das revistas de beleza, organiza churrascos regados a drogas e poesia (essa droga), pinta e também se apaixona. Nesse caso, se embriaga por Eneida (Nanda Costa), jovem que conhece numa dessas festas. Ela então nega o que ele tão naturalmente lhe pediu (sexo), no que ele insiste e passa a repetir o pedido interminavelmente. Mas a menina também provoca, escaneia-se (sic) para o poeta (é assim que todos lhe chamam, com verdade, mas também com um pouco de ironia), quer mostrar que também sabe jogar. O poeta se percebe cada vez mais louco por Eneida, que segue dizendo não ter interesse algum nele. Enquanto isso, seus amigos se enlaçam uns com os outros, curtem a vida. Curtir a vida, aqui, significa fazer tudo àquilo que os outros não acham legal, mas sem incorrer no apelo de quem se pretende politicamente incorreto, pois isso sim seria pouco demais para suas pretensões. Ao fim e ao cabo, mais do que um panfleto libertário ou anarquista, o filme de Cláudio Assis se revela violento em sua narratividade, com imagens que se chocam, lutam e sensibilizam enquanto invadem umas as outras.

Todo filme é permeado por essa conectividade, para além do relato linear, que se enreda entre os personagens, tão realistas e tão utópicos porque curtem a vida. Mas nada parece ter sido encenado pelo efeito em si, a métrica registra todos os sabores da poesia, do sexo, do beijo, da piscina, das ruas e da transgressão. Porque quando se afirma que um filme quer causar polêmica está ou se está falando a verdade ou reduzindo sua força, pois pode ficar impossível reconhecê-la quando enquadramos uma proposta estética dentro de limites tão facilmente rotuláveis, tal como uma aparente taxonomia crítica. O mais importante parece ser algo que nunca é dito, que Febre do Rato é um filme para todos. Se poesia, sexo, cor, texto, malocas e atitudes incomodam tanto, no sentido de revirar as análises mais rasteiras, é porque ele é assim: tão brasileiro.

O preto e branco da fotografia só amplifica sua atualidade, permite um contraluz dos mais belos com o poeta no centro do quadro, vivendo sua negação, errando e planejando com ela. O gosto amargo da derrota serve de tempero para a poesia que escorre por todos os planos, nas imagens e nas palavras, nos gestos e nos olhares, toda a leptospirose é transmitida por essa mise en scène esfacelada que compõem o registro. A tal febre do rato é essa contaminação social, disseminada pelos jornais populares, periféricos, pelo autofalante que, na voz do poeta, chama as pessoas para a rua, síntese da vida metropolitana. E se emblemas clichês estão aí (“faça amor, não faça guerra”) é mais pela necessidade de trazer de volta para o campo todos os jogadores e menos em prol do “conteúdo artístico” da obra de arte. E todo espaço podre, petrificado pelo espírito coagulado de nossas relações espúrias, é o paradigma a ser ultrapassado pela iniciativa dos jornaleiros (mais que jornalistas) que conclamam a cidade para que ela olhe para si.

(Febre do Rato, Brasil, 2011) De Cláudio Assis. Com Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Angela Leal, Maria Gladys, Conceição Camarotti, Mariana Nunes, Juliano Cazarré, Victor Araújo, Hugo Gila, Tânia Granussi.

Publicado originalmente no Papo de Cinema.

16th Aug2011

Inspiração e revolta

by Pedro Henrique Gomes

Inspiração e revolta

Inspirados pelas manifestações iniciadas no mundo árabe, que derrubaram regimes e ditadores, mas sobretudo desencarnaram nos jovens o espírito revolucionário, inquieto como um livro de Dostoievski, inominável como um verso de Manoel de Barros, os jovens brasileiros armaram-se, ainda que a passos curtos, contra os impropérios dos poderes constituintes, as ações peremptórias de uma mídia passiva e fustigada por anos de um jornalismo duvidoso, dona de uma certa razão própria e, ao mesmo tempo, universal, como se fosse Apolo, Deus grego da verdade. Com o passar do tempo, o povo, inteligente como é, esperto que é, percebeu as brechas e legitimou a oportunidade de tomar as ruas, o espaço público dignificante, e seu por direito. Decerto imbuídos de um desejo invisível, porém compartilhado por uma mesma inspiração e por semelhante revolta.

Mas, este grupo, ao organizar marchas contra todos os tipos de preconceito, protestos contra as mais variadas injustiças sociais, reconheceu e engendrou uma política própria, calcada em um movimento livre de bandeiras, apartidário (como deve ser uma revolução, se for do contrário, parece mais um desperdício da experiência) e irrefreável. Uma potência gritante urgiu das ruas, doravante assustando a parcela mais conservadora da população brasileira. Mas, se isso perturba a ordem burguesa e ameaça destronar seus poderes místicos e invisíveis, é claramente explicitado em todas as vertentes que os cordões estão aí prontos para serem puxados, seja para qual lado for. E que isso nunca seja confundido com anarquia.

A estética da revolução

As redes sociais potencializaram essas vozes, trataram de organizar as manifestações. Mas não há nada como o suor das ruas. Antes disso, as marchas e todos os movimentos que surgem, nascem, quase sempre, ou sempre, através das redes. Proliferam-se e se abraçam nas ruas, na poética da revolta, no encontro da vontade com o poder público. O movimento iniciado em São Paulo, primeiramente em função da proibição da marcha da maconha, ganhou o Brasil, de Porto Alegre a Recife. Depois vieram manifestações diversas: marcha das vadias, da liberdade, pelo software livre, contra a censura, pela erradicação do preconceito.

Assim, a dialética das ruas instaurou um período de poder, o povo se percebeu capaz de explanar. Trata-se, entretanto, e não por isso menos merecedor de respeito, de uma tentativa lúcida de mudança, de sangria – ainda que beba do leite doce de sua infância. Por outro lado, esse devir político que se cria, ou melhor, se transforma e se adapta aos novos tempos, na sociedade contemporânea mundial, com mais rigor na Europa, e, um tanto mais lentamente, na América latina, já dá sinais de vida. As revoltas estão ganhando corpo aos poucos, se transmutando em uma atmosfera inquieta globalmente, não mais calada e submissa. Mesmo que estejamos falando de ações ainda com muita terra a serem conquistadas, o processo revolucionário já tem em si seu próprio êxito. Cito o filósofo francês Michel Foucault, em entrevista concedida à revista canadense Body Politic, em 1982: ‘Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa’.

Preconceito

Homossexuais, negros e pobres são mortos diariamente. Têm suas vidas arrancadas a torto e a direito, a revelia de qualquer tempo ou espaço de reação. O quadro é assustador, até mesmo vergonhoso, esse do início do século. Para abater o preconceito, é necessário postar-se contra o sectarismo reinante não só na sociedade brasileira contemporânea, mas na própria política, que gere e subjuga os limites das escolhas de todos. Uma certa política, aliás, objetivamente instruída a implantar um Estado de Exceção (Giorgio Agamben, 2004, Boitempo Editorial), onde os direitos comuns a todos são suprimidos, reprimidos, postergados em nome de um poder centralizado e totalitário – em grande parte controlado pela mídia em troca de favores e concessões. Ou seja, a bem dizer, o preconceito começa nos meios de comunicação e nos poderes amigos do Estado, para disseminar e difundir aqueles ideais/interesses que mais lhes parecem aprazíveis. Sendo assim, a luta não é da sociedade contra ela mesma, como nos tem sido vendido pela imprensa. Não existe luta de classes. O problema parte de dentro da nação, do Estado, da mídia, para então reverberar numa população medrosa e oprimida.

O preconceito começa quando, afinal? Primeiramente, ele não começa, ele nasce. Do preconceito são erigidas as mensagens de violência virtual (uma rápida leitura em artigos na internet sobre homofobia, por exemplo, trata de confirmar a tese), que em sua consequência lógica e natural dentro da mente humana, se ramifica no corpo, nas ruas. Eis a violência urbana, tal qual demandada pela cultura do medo mostrada no noticiário. É a corporificação da imagem da violência urbana.

Uma das grandes formas de preconceito, para pegarmos um exemplo em voga na grande mídia, é o dia do Orgulho Hétero. De que maneira, ou em que medida, o aviltamento sobre o modo de vida do outro afeta a existência do Homem? Ridicularizado pela imprensa mundial, o projeto de lei 294/2005 (que Kassab vetou) do vereador Carlos Apolinário (DEM), prevê a criação do Dia do Orgulho Heterossexual, ‘em defesa da moral, da família e dos bons costumes’. Apolinário, não por acaso ligado a Igreja, defende sua tese de que o projeto não institui homofobia, tampouco a incentiva. Orgulho heterossexual? Orgulho de ser a maioria? Orgulho de poder andar nas ruas tranquilamente sem perder a orelha? Orgulho de poder transar com alguém do sexo oposto? Orgulho de poder casar, ter filhos?

Ora, não sem um tanto de ironia, podemos dizer que não há nada mais justo do que criar um dia de protesto para a maioria rica e branca, intelectual e bem vestida, poliglota e elegante, letrada e cheirosa. Apolinário ignora, não obstante, que todo processo de revolta do qual gays, negros e de todas as minorias oprimidas se baseiam em princípios humanos constantemente feridos simplesmente por serem eles ‘diferentes’ de sua agremiação, de sua concepção de mundo. Ele esquece ainda que, na terra das injustiças, a maioria não é espancada ou assassinada por ser maioria. Ninguém é segregado e subjugado por ser machão. Nada mais preconceituoso do que negar o preconceito.

Mídia e censura

A imprensa precisa assumir seu papel de imprensa. Sobretudo nos campos da política e da cultura, têm praticado um jornalismo do interesse, por coerção. A censura, que começa pelas mãos dos poderes do Estado, desemboca na própria mídia que, ao não mostrar, falseia os fatos e omite informações. A informação chega filtrada, corroída. Todo processo legitimado e imbuído por uma certa força política precisa passar por uma reforma nos meios de comunicação. Passa a ser essencial a democracia que a mídia nacional deve exigir de si mesma, antes de tudo. Pois, claramente, o preconceito se difunde por ela e entre ela. Se a mídia não contesta o poder público, se ela age por concessões das multinacionais, o reflexo se dá no povo, desinformado e satisfeito, aquele que reclama na frente da televisão, aquele que se diverte com o humor baixo e insignificante de nossa produção audiovisual aberta.

Limpeza étnica e urbana

De tudo que se fala sobre a tal inclusão social, nada disso passa pelas remoções que vêm sendo feitas em diversas cidades brasileiras. Em Porto Alegre, na Vila Chocolatão, durante o mês de maio desse ano, centenas de famílias foram desapropriadas de suas casas, que foram destruídas. As autoridades prometeram realocar os moradores, mas eles precisavam encontrar novas moradias em tempo hábil, caso contrário, nada poderia ser feito. Quer dizer, muitas casas foram destruídas sem que seus moradores tivessem encontrado outro lugar para dormir. Consequência lógica: dezenas de pessoas ficaram à margem, quando não tiverem que dormir nas ruas. Tal violação dos direitos humanos, muito recorrente, por exemplo, no Rio de Janeiro em função das obras para as Olimpíadas de 2016, torna óbvia a inoperância de nosso poder público e de nosso judiciário. Ora, injustificadamente, as pessoas foram removidas de suas casas sem terem sido realojadas em outras.

Nesse contexto fantasmagórico, para que sejam construídos estádios de futebol e hotéis, o ser humano, especialmente o mais pobre, é visto como moeda de troca, destinado a não atrapalhar, a não existir. A função da remoção, muito antes de protegê-lo e ‘incluí-lo na sociedade’, o transfere para as periferias, tirando-o da vista límpida e austera das coberturas e das mansões. Pois não interessa a ninguém, a não ser aos próprios (ex)moradores, o que eles irão fazer para comer, se vestir e dormir. É assim, com a transferência forçada e involuntária da ‘gente diferenciada’, que a classe-média brasileira pode gozar do seu conforto, adquirido com anos de suor. Na lógica capitalista, para uns comerem, outros precisam passar fome. Esse espírito de guerrilha do poder público, tão eficiente e ágil, que coloca o trabalho acima de tudo (ou seja, vamos remover e ponto) das prefeituras das principais capitais brasileiras, nunca foi visto antes. A bem dizer, quando as coisas precisam estar limpinhas e brancas para gringo ver, é possível.

Enfim, a geração

Já vimos que as marchas são constituídas por uma juventude indignada, mas será que esta juventude sabe por que marcha? Onde se localiza a tal razão crítica? A função democrática e social dos movimentos (que são livres, horizontais, apartidários) encontra, de fato, um objetivo? Por que marchar? Pelo quê marchar? As respostas podem vir com outras perguntas. Quem disse que a marcha não protesta por um melhor e mais eficiente sistema de saúde pública? Quem disse que a marcha não exige uma reforma no sistema educacional brasileiro? Quem disse que a marcha não reivindica por um transporte público mais abastado?

Trata-se, basicamente, de um procedimento voluntário, coletivo, multifacetado. Quem sai às ruas não pode só querer mudanças, tem de fazê-las por dentro, enjambrando ideias e ideais sobremaneira, conjuntamente. É agora a hora da pujança. Se Twitter e Facebook estão aí para mediar as ações coordenadamente, a geração criada na tecnologia precisa acostumar-se à eles, reconhecê-los como ferramentas para além da socialização barata. A internet, em toda sua complexidade, é uma fonte de inesgotáveis possibilidades, nos resta verificar sua equivalência e adequá-la ao processo constituinte de um Estado verdadeiramente democrático, de uma sociedade pensante, não-neutra, pós-pós-moderna.

Não estamos dizendo, no entanto, que a ética de tudo prescinde da rebeldia, mas, sim, e principalmente, da conscientização em si. Essa geração do fast food, a minha geração, da mensagem instantânea, ainda engatinha em relação a um avanço possível nesse caminho de luta (que é, sobretudo, uma luta por direitos) e revolta. Mas não se trata, aqui, de cercear um discurso de esquerda ou de direita, o contexto não demanda cores e/ou siglas. O capitalismo, é verdade, já morreu há muito tempo (as sequelas estão aí, vejam a Europa, a crise estadunidense), só não foi sepultado. Enquanto isso, vive assombrando. Face a isso, faz-se necessária uma reforma política completa, e, também, uma manutenção nos meios de comunicação, que é por onde passam todas estas verdades imutáveis. E isso não é manobra da esquerda, não é obra do socialismo, é a própria experiência cotidiana que clama pela revolução.

Para tudo isso, voltemos à questão primordial: o que fazer, senão ir às ruas?

30th Jun2011

Algumas palavras sobre a #marchadaliberdade

by Pedro Henrique Gomes

O que queremos, de fato, é que as ideias voltem a ser perigosas. (escrito em um muro em Paris, 1968)

A marcha pela liberdade, que tomou as ruas de 40 cidades brasileiras, de Recife a Porto Alegre, no último sábado 18, é a manifestação mais clara da democracia das ruas, aquela que se enreda nas redes, nos contatos. Revoltas incendiárias começaram nas redes sociais no mundo árabe (Egito, Síria, Tunísia, Líbia), derrubaram regimes totalitários e opressores, se alastraram para a Europa, onde tomaram as ruas e as praças da Espanha, com o Movimento 15M. Resguardadas suas respectivas proporções, incentivaram a tomada das ruas no Brasil, país repleto das mais variadas culturas e etnologias, país da mestiçagem, das possibilidades antropológicas e antropofágicas, das periferias, da cultura do povo. O que se constituiu nas redes virtuais, agora ganhou as ruas, o espaço público-democrático comunicável.

A #marchadaliberdade é, antes de tudo, e sobretudo, a marcha dos amores incompreendidos, das revoltas coletivas, dos poderes populacionais criando políticas próprias, movimentos horizontais, apartidários, independentes, livres. Lá estavam todas as crenças, independentemente de qual bandeira estavam tremulando: homossexuais, negros, brancos, estudantes, deficientes físicos/visuais, índios, músicos, blogueiros, jornalistas; marcha da maconha, das vagabundas, dos defensores dos direitos humanos, dos alunos da PUC/RS, pela Banda Larga popular, pelo software livre, por um Estado laico, pelo compartilhamento por uma imprensa verdadeira e não-sensacionalista.

Como a própria decisão do STF foi revogada, liberando a marcha da maconha, a #marchadaliberdade é um movimento que quer o debate público, não clausulas pétreas; quer ouvir todos os cantos lamuriosos e pensantes, quer democratizar a democracia. Com isso, é inevitável que a classe-média fascista apoie a repressão policial, pois deseja que ela, a Polícia (que deveria salvaguardar e proteger os direitos constitucionais do cidadão) limpe as ruas, que instaure um embranquecimento nos bairros da nobreza. Mas, diremos: as ruas estão tomadas por um poder incontrolável, ingovernável. Mas é necessário mais. É necessário que a “gente diferenciada” tome as ruas, que o jovem negro, reprimido, desça o morro – é essencial que essa manifestação contagie mais grupos, converse com mais pautas, explicite as diferenças e as necessidades de cada uma. É a mesma luta, diferentes.

As reinvindicações são várias, não centralizam um discurso homogêneo, não bradam por uma causa inútil como querem fazer crer os neoliberais, que exclamam contra a marcha, dizendo que ela não serve para nada, que existem coisas mais importantes para se realizar uma marcha, como educação, saúde. Quem participou sabe da dimensão e da importância. O discurso do qual muitos fazem uso para demonstrar posições contrárias a marcha gira em torno de uma falsa-questão. Para estes, também temos algumas coisas a dizer: a marcha não defende a unilateralidade dos pensamentos, tampouco das ideias e das indignações. A manifestação é dos indignados, todos eles, todos nós. Na próxima, leve sua indignação, ao invés de condenar a democracia das ruas. A #marchadaliberdade é heterogênea, é de todos os protestos, todos os reclames, todas as cores, todos os gritos afogados por anos de repressão intelectual. As redes sociais unificam e potencializam os movimentos, mas nossa arma é o poder do povo, um poder pacífico e indignado que se constitui efetivamente nas ruas. As páginas dos livros de História das gerações subsequentes não serão mais escritas pelos mesmos ditirambos dionisíacos.

Quem disse que a marcha não protesta por um melhor e mais eficiente sistema de saúde pública? Quem disse que a marcha não exige uma reforma no sistema educacional brasileiro? Quem disse que a marcha não reivindica por um transporte público mais abastado? A causa da manifestação não é essa que a grande mídia nos quer vender. A marcha não é monotemática, pois distribui ideias distintas, visões de mundo que se equivalem através do desejo pela mudança e com a força do coletivo. Pluralidade. Não raro, e ironicamente, os mesmos corações que repudiam a revolta são aqueles que, outrora, pediam certa urgência nessa nossa juventude contemporânea. O que acontece agora é só um começo, diremos.

Links inseridos no texto:

O Ingovernável
Quadrado dos Loucos
O Inferno de Dandi
O Descurvo
Blog do Sakamoto
Movimento 89 de Junho
Somos andando